Cardeal português participou na conferência BOOK 2.0, onde apresentou a Biblioteca como o espaço onde «uma comunidade em silêncio se une» e apontou riscos da IA

Lisboa, 16 set 2026 (Ecclesia) – O cardeal José Tolentino Mendonça participou hoje na conferência BOOK 2.0, promovida pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), e convidou os presentes a construir “comunidade”, a “maior obra de arte” a criar juntos.
“Quando entramos numa biblioteca, o que nos impressiona são as prateleiras cheias de livros certamente, mas também o silêncio partilhado da leitura, um silêncio que não isola, mas une. Esse silêncio, longe de estar vazio, torna-se comunidade. É uma comunidade sem uniformidade, de presenças recíprocas no respeito. A cultura deveria ser isto, um espaço em que as diferenças podem estar juntas sem medo, um laboratório de confiança recíproca, uma casa aberta a todos. A comunidade é, no fundo, a maior obra de arte que podemos criar juntos”, indicou o responsável da Santa Sé, na sua reflexão.
O texto da conferência, com o título ‘O mundo que avança mais depressa que os seus valores’, foi lido por Sílvia Alberto, apresentadora do evento, uma vez que o prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação se encontrava afónico.
A reflexão partiu de três categorias – escuta, imaginação e cuidado – categorias “através das quais a cultura e a comunidade se entrelaçam e se geram mutuamente”.
D. José Tolentino Mendonça diagnosticou um “deficit de atenção” no tempo presente e pediu uma “pedagogia e aprendizagem da escuta”.
Imersos numa avalanche de palavras, só uma revalorização do papel silêncio pode abrir espaços para uma verdadeira escuta. A arte de escutar requer uma pedagogia e uma aprendizagem. Pede de nós uma desaceleração interior para podermos dedicar às vozes, atenção e memória, em vez de condená-las imediatamente ao esquecimento. Uma cultura que não escuta corre o risco de se tornar um aparelho vazio. Pelo contrário, uma cultura que escuta torna-se uma casa, uma cidadania partilhada, aceita a responsabilidade de dar voz àquilo que de outro modo permaneceria por dizer.”


O responsável português indicou, no entanto, que uma “cultura que escuta mas não imagina, corre o risco de se tornar apenas diagnóstico”.
“É preciso dar um passo mais além, entrar no território fecundo da imaginação. A imaginação é muito mais do que uma faculdade criativa. É uma forma de responsabilidade perante o futuro”, assinalou.
D. José Tolentino Mendonça falou da cultura como um lugar onde a imaginação “é exercida livremente”, “sem ser imediatamente traduzida em utilidade económica ou em consenso político”.
“A literatura, a arte, o teatro, o cinema, a música, geram futuro porque abrem brechas no existente, põem em circulação novos desejos, treinam-nos para a possibilidade. Uma cidade sem imaginação gera apenas tráficos. O empobrecimento da imaginação significa também um empobrecimento geral da vida”, indicou.
Numa época “marcada por muitos medos”, o colaborador do Papa o afirmou que a cultura “não o elimina”, mas “transfigura-o, dá-lhe uma linguagem, insere-o numa história, reconecta-o à nossa humanidade”.
O cardeal e poeta português afirmou ainda que a cultura é “cuidado” e não um “luxo ou simples entretenimento”.
Multiplicam-se as experiências em que um museu trabalha com as comunidades locais, em que a biblioteca e a leitura se tornam um posto social do bairro, em que a arte entra nos hospitais e nas prisões para trazer alívio e acender a criatividade. São sinais importantes de uma cultura entendida como seiva vital da comunidade.”
Referindo-se ao contexto da Inteligência Artificial, o responsável alertou para as máquinas que “aprendem a contar historias” e para o perigo de se perder o valor do testemunho.
“O risco não é que as máquinas aprendam a contar histórias, é que sob pressão da eficiência e da homogeneização algorítmica nos esqueçamos de que uma história tem valor porque alguém a viveu, a sofreu, a olhou nos olhos antes de a narrar”, valorizou.
D. José Tolentino Mendonça indicou ainda a pertinência de um ‘Welfare Cultural’, que “une instituições artísticas e sociais”, numa “colaboração entre agências culturais museus, bibliotecas, teatros, associações artísticas e agências sociais, serviços à pessoa, comunidades educativas, saúde” para gerar “espaços em que o acesso à cultura se torne um instrumento de inclusão social, de bem-estar e de participação ativa”.
LS
