Ecologia integral: «Para cuidar dos outros e estar em linha com uma vivência católica, tenho de cuidar da natureza», afirma o presidente da Zero

Francisco Ferreira começou aos 10 anos a defender a Arrábida, tem saudades de um «ativismo mais contundente» e vê na «Laudato si» uma «verdadeira revolução» a retomar no Tempo da Criação

Foto Agência ECCLESIA/PR, Francisco Ferreira

Lisboa, 17 set 2026 (Ecclesia) – O presidente da Zero afirmou que a crise ambiental é uma “crise de relação” entre cada pessoa e a natureza e disse que, no contexto crente, cuidar do outro implica cuidar da criação.

“Para cuidar dos outros, para estar em linha com aquilo que é uma vivência cristã, uma vivência católica, tenho também de cuidar da natureza. E é esse ponto que eu acho que faz toda a diferença”, afirmou Francisco Ferreira.

Em entrevista ao programa Ecclesia, emitido na RTP Antena 1 esta quinta-feira, depois da meia-noite, disponível na sua versão integral no podcast “Alarga a tua tenda”, o presidente Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável recordou os anos de “ativista contundente”, na defesa da Arrábida, e apontou a “propostas concretas” que gerem melhor qualidade de vida no futuro.

“Nós temos muito esta ideia de consumir no curto prazo, em vez de olharmos para os valores e para aquilo que podemos e devemos preservar”, afirmou, referindo que a sustentabilidade implica uma “componente social, económica, ambiental” e também a forma como é governado o planeta

O presidente da Zero referiu-se ao Tempo da Criação, a iniciativa ecuménica que convoca à reflexão sobre a ecologia integral desde o dia 1 de setembro até ao dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, afirmando que é uma oportunidade para a reflexão sobre “a relação entre a humanidade e a natureza”, considerando o papel de cada pessoa, da ciência e da tecnologia.

“Neste Tempo da Criação, é exatamente essa relação entre a humanidade, a natureza, a justiça, a responsabilidade, que nos chama a não termos uma visão fechada do mundo, mas percebermos que o planeta onde vivemos é muito complexo. Tudo está interligado e nós fazemos parte dessa ligação”, afirmou.

Francisco Ferreira lembrou que a ecologia integral implica ter uma “perspetiva coletiva”, construir uma “relação entre todos” para uma mobilização pelo cuidado da casa comum e uma “responsabilidade intergeracional”.

Francisco Ferreira, o mais novo de quatro irmãos, está na origem do ativismo ecológico na cidade de Setúbal, em torno do Estuário do Tejo e do Parque Natural da Arrábida, classificado como Área Protegida em 1976 e, quase 50 anos depois, como Reserva da Biosfera da UNESCO, em setembro de 2025.

“A Arrábida sempre me inspirou muito por causa do meu percurso na altura como escuteiro”, disse Francisco Ferreira, considerando o Corpo Nacional de Escutas um “movimento único” para valorizar a natureza e a “educação para o ambiente.

Envolvido diretamente na demolição de casas clandestinas na Serra da Arrábida, nos anos 80 do século passado, Francisco Ferreira lembra que “falta lidar com o futuro da cimenteira e de várias pedreiras que estão no parque”.

“Não é terminar com a Secil já, mas termos um plano a médio prazo para que, do ponto de vista económico, do ponto de vista social, mas, acima de tudo, do ponto de vista da salvaguarda daquela paisagem da Arrábida, a Secil tivesse um fim”, afirmou.

Após o ativismo em torno do projeto “Setúbal Verde”, Francisco Ferreira participou na fundação da Quercus, em 1985, tendo sido presidente entre 1996 e 2001, e depois vice-presidente, com o objetivo de se envolver numa “causa nacional”, como aconteceu depois em 2015, quando está na fundação da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, de que é presidente.

“Na passagem para a Zero, já em 2015, a ideia foi ir ainda mais longe: deixar de olhar apenas para os valores da conservação da natureza e alguns outros temas e integrar o tema da sustentabilidade”.

Foto Agência ECCLESIA/PR, Francisco Ferreira

A entrevista a Francisco Ferreira é pode ser ouvida na versão integral no podcast “Alarga a tua tenda”, onde o presidente da Zero aponta mudanças de comportamento que são promotoras de uma ecologia integral e geram comportamentos sustentáveis.

“Nós podemos ser felizes, termos qualidade de vida, sem termos tanto”, indica.

Questionar a necessidade de “mudar de telemóvel”, de comprar “muitos eletrodomésticos”, diminuir o consumo de água, separar os resíduos e sobretudo diminuir o uso do automóvel são aspetos a considerar em cada dia, indica Francisco Ferreira.

“É preciso andar muito menos com os automóveis, gastar muito menos combustíveis, não só por causa do preço”, aponta.

O presidente da Zero refere também que as empresas devem fazer um “esforço honesto pela sustentabilidade, com os seus trabalhadores, com o ambiente, com aquilo que é pago, com a distribuição dos seus lucros”.

Francisco Ferreira denuncia a estratégias das empresas que fomentam o uso do carro, lembrando que “60% dos automóveis que entram em Lisboa vindos da periferia ou a empresa assegura o estacionamento gratuito e ou paga a gasolina e o gás óleo e ou o próprio carro é da empresa”.

O presidente da Zero afirma também que é preciso “moderar o turismo”, lembrando que há “um prejuízo enorme para a saúde e para a qualidade de vida com o aeroporto onde está agora”.

“O ruído é ensurdecedor durante a noite, durante o dia. Nós temos que o retirar daqui”, afirmou, alertando para os perigos de ter “muito mais milhões de passageiros a virem para Lisboa” com o novo aeroporto.

Francisco Ferreira referiu-se também à ecologia digital, alertando para a “velocidade vertiginosa” do desenvolvimento tecnológico que provoca a “degradação do ambiente”.

“Nós precisamos é de ter uma discussão, ganhar uma literacia, usar realmente estas ferramentas para uma melhor democracia, mais participada, mais consciente e é isso que eu acho que se calhar nós não estamos a fazer”, concluiu.

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