«A petição é dar voz a quem normalmente não tem voz, é associar-nos em comunidade, em sociedade, para uma causa que é tão transversal» – Catarina Pazes

Foto: Agência ECCLESIA/HM
Lisboa, 09 jun 2026 (Ecclesia) – A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos destaca que o Congresso Internacional de Espiritualidade “foi um enorme sucesso”, dois dias de trabalho “bastante positivos”, e apelou à assinatura da petição pública que promovem pela urgência de “reforçar” este setor.
“Este primeiro Congresso Internacional de Espiritualidade da nossa associação foi um enorme sucesso. A espiritualidade é, de facto, a essência do ser humano, que é muito diferente de religiosidade, e transversal a todos, independentemente das nossas crenças e da fé que professemos. É muito importante porque é a essência do ser humano e de cada um de nós, tanto da pessoa que cuidamos, como da pessoa que cuida”, disse presidente da APCP, Catarina Pazes, esta terça-feira, dia 9 de junho, em entrevista à Agência ECCLESIA.
O I Congresso Internacional de Espiritualidade em Cuidados Paliativos, da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, realizou-se nos dias 5 e 6 de junho, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do IPB – Instituto Politécnico de Bragança.
Catarina Pazes realçou que foram dois dias de “trabalho bastante positivos”, e tiram deste encontro internacional “um resultado muito, muito bom”, e assinalou a oportunidade de aprofundar esta temática, “de refletir, de apresentar evidência científicas”, e também de mobilizar recursos, e que, entre os profissionais, podem aprender uns com os outros para levarem para os seus contextos da prática clínica “mais e melhor, em termos de abordagem”.
O grupo de espiritualidade da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, liderado pela professora Ana Querido, organizou este I Congresso Internacional de Espiritualidade, realizado em Bragança, com uma “adesão foi muito boa, mais de 200 inscritos”, e “um programa muito amplo, com peritos”, que levaram “partilhas muito, muito importantes e muito valorizadas pelos participantes”.
O bispo da Diocese de Bragança-Miranda, na comunicação ‘Espiritualidade e sentido da vida’, no segundo dia do congresso internacional, afirmou que “existe uma dimensão do humano que não se capta no microscópio”.
“Que não se mede com sondas nem com análises sanguíneas e nem se pode codificar em protocolos. Eis o invisível que sustenta o visível, eis o sentido que dá forma ao gesto, qual centelha de luz que habita o cuidado. Chamamos-lhe Espiritualidade”, referiu D. Nuno Almeida.
A presidente da APCP, a partir desta citação, explicou que esta é uma área clínica que “atende ao sofrimento”, que tem o propósito de aliviar e prevenir o sofrimento, e, “naturalmente, que tem que se ocupar e preocupar com as várias dimensões da pessoa”, para além de pensarem nas dimensões física, psicológica, e social.
“Nós precisamos de conhecer como ela é na sua essência, naquilo que a faz ser. E, de facto, saber quem é aquele a quem presto cuidado vai muito além daquilo que se pode medir e daquilo que se pode objetivar, porque acontece através de uma coisa que se chama relação; a importância que tem isto tudo no nosso trabalho é a diferença entre mais humanismo e menos humanismo, ou seja, um cuidado mais humanizado, individual e único”, desenvolveu.
Catarina Pazes comentou o tema do congresso internacional – ‘Finitude, sentido e cuidado’ -, concluindo que “fez todo o sentido” juntar essas três palavras “porque é o fio condutor para o cuidado” que prestam, sublinhou que a espiritualidade, “sendo algo essencial no ser humano”, está presente mesmo quando esta “não tem fé ou não acredita”, sendo possível trabalhar esse tema “mesmo que não haja fé e não haja religião”.
“A religião tem um papel importante na medida em que organiza para nós, enquanto humanos, esta relação com o espiritual, e estrutura. Esta estrutura e organização muitas vezes é o que ajuda no trazer mais à nossa vida essa relação com o espiritual; creio que há um lugar para sermos crentes entre quem é profissional, e entre quem está a viver uma situação difícil por causa de uma doença, o que não pode, nem a crença nem a não crença, impedir o cuidado espiritual”, acrescentou.
A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos já começou a planear o II Congresso Internacional de Espiritualidade, que “será em 2028, e muito provavelmente no Baixo Alentejo, em Beja”.
CB/OC
A Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos está a promover a petição publica ‘Reforçar os Cuidados Paliativos em Portugal é Urgente’, no âmbito da defesa do acesso equitativo a cuidados paliativos de qualidade para todos os cidadãos, que tem mais de oito mil assinatura (8 092).
“A petição é dar voz a quem normalmente não tem voz, é associar-nos em comunidade, em sociedade, para uma causa que é tão transversal. Os cuidados paliativos são uma área dos cuidados de saúde, uma área especializada, que atendendo às pessoas que sofrem por causa de uma doença grave, são muito importantes”, explicou Catarina Pazes. Segundo a presidente da APCP, a associação abriu esta petição porque, “apesar da reconhecida importância” dos Cuidados Paliativos, mesmo “por quem governa e por quem toma decisões”, o que acontece no dia-a-dia “é uma ausência de planeamento, de financiamento, uma ausência de medidas concretas que mudem a realidade de não acesso ou de escasso acesso a esta área”. A petição alerta, em Portugal, que “mais de 150 mil pessoas vivem anualmente com sofrimento associado a doença grave, progressiva e incurável, destas, entre 70 a 85 mil morrem todos os anos com necessidade de cuidados paliativos”, e a APCP apela “a um compromisso urgente e concreto por parte do Governo”, com cinco pontos. Um das medidas é a nomeação de “forma muito urgente, imediata”, da Comissão Nacional de Cuidados Políticos, que “é o interlocutor” entre equipas, entre a sociedade, entre aquilo que são os profissionais e as estruturas da comunidade, e da sociedade de cuidados políticos e o governo. “Precisamos que haja uma monitorização do que está a acontecer, que se conheça a realidade, que se perceba os problemas que as equipas vão enfrentar, e que se coloque em marcha aquilo que é a estratégia para resolver esses problemas, com financiamento próprio, com indicadores, com avaliação daquilo que é feito e com uma justificação para aquilo que não foi feito. e estratégias para ultrapassar essas dificuldades”, desenvolveu Catarina Pazes, sobre algo que “tem falhado ao longo dos anos”, são feitos planos estratégicos, “mas não há um financiamento ajustado”. A Rede Nacional de Cuidados Paliativos, segundo a especialista, “é uma rede absolutamente funcional, transversal a todo o sistema”, existem equipas de suporte intra-hospitalares, nos serviços de internamento, e na comunidade, “que se deslocam a casa dos doentes, aos lares de idosos, unidades de cuidados continuados, etc”, e as unidades de cuidados paliativos dentro da rede nacional de cuidados continuados.
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