Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Enquanto escrevia estas palavras contemplava o nascer do sol e pensava qual teria sido a última vez – não que vi o nascer do sol – mas em que me dei conta disso. Foi nesse momento que percebi o resultado de investir na recuperação da minha atenção.

Foto de Diego PH em Unsplash

Todas as manhãs faço do meu smartphone o despertador. É assim com o leitor? Depois, além de desligar o alarme interagia com o dispositivo vendo os emails, respondendo aos mais urgentes, via notícias, quantas reacções às partilhas que fazia, e assim passava as minhas manhãs antes sequer de dar um bom dia à esposa, o que se compreendia porque a acordava.

É claro que o tempo tem uma seta e se o gastava a olhar para o écran, tudo o resto teria de ser feito de modo expedito e, normalmente, a coisa mais sacrificada era a meditação que fazia habitualmente com um pequeno texto. Mas, um dia perguntei-me se este era o melhor caminho para mim. Ou seja, dei-me conta de que não era eu que segurava o smartphone todas as manhãs, mas antes o smartphone que me segurava. Algo tinha de mudar.

Foto de Nicolas Thomas em unsplash

Um hábito

E se criasse o hábito de interagir com o smartphone apenas depois de fazer a meditação? Assim aconteceu a criação deste novo hábito que começou a produzir resultados inesperados porque – aparentemente – nada tinham a ver com o tempo que ganharia se não interagisse com o telemóvel logo ao acordar.

A redução da atenção em relação ao pequeno écran levou-me a redireccionar a atenção para outras coisas como uma simples conversa, observar uma paisagem, ou rever aquilo que pensava fazer naquele dia. Ou seja, o pensamento começou a vaguear pelos espaços da contemplação interior onde habitam os nossos pensamentos, desses os mais profundos aos mais superficiais. Na prática, comecei a dar espaço e tempo à “voz dentro” que fala.

 

Voz interior

O tempo que pensava ganhar para fazer mais coisas acabou por se revelar num tempo para me relacionar com a “voz interior” que existe em cada um de nós. A “voz” que possui a capacidade de entrar em diálogo com “Aquela Voz”. Deus.

Foto de Ben White em unsplash

Quando procuramos re-adquirir a capacidade de estar junto com os nossos pensamentos, damos tempo a que a voz interior se pronuncie, seja para resolver um problema que temos em mãos (no meu caso de natureza matemática, ou física), ou pensar nos valores que orientam a nossa vida.

Os pensamentos pronunciados pela voz interior são a marca da nossa unicidade neste mundo. Quando, gradualmente, perdemos a capacidade de estar junto com os nossos pensamentos, e de desenvolver a nossa voz interior, livre para imaginar e criar, que temos nós para oferecer ao mundo?

Se deixamos que os outros usem os écrans para consumir o nosso espaço interior, o que resta senão o vazio disfarçado de conectividade?

 

Relacionamento com a tecnologia

O modo como actualmente se usa a tecnologia não cria laços, mas nós. Os laços deixam-nos livres, bastando puxar por uma das pontas. Ao contrário, com os nós, quanto mais puxamos, mais apertam.

Se não se deixar que a tecnologia seja um instrumento nas nossas mãos, mas começamos a personalizar esses instrumentos, acabamos por nos deixarmos instrumentalizar.

A solução para lidar cada vez melhor com a tecnologia é simples.

Criar laços em vez de nós.

Foto de Tamara Bellis em unsplash

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