Presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens refere que confinamento fez diminuir «comunicações de situações de perigo» em 52%

Pope Children

Foto: Osservatore Romano

Lisboa, 01 jun 2020 (Ecclesia) – A presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) disse à Agência ECCLESIA que o Papa vai “fazer a diferença” na vida de muitas crianças.

“O Papa Francisco tem sido uma inspiração para todos, católicos e não católicos. O seu exemplo, coragem de tocar num tema que é incomodo para todos, e os abusos sexuais acontecem em ambientes de confiança, como é a família ou a Igreja, o ser capaz de tocar na ferida, de dizer que não podem acontecer e encontrar mecanismos de monitorização é de coragem extrema e de uma enorme humildade: por reconhecer que existe, é um passo de gigante”, afirmou Rosário Farmhouse em entrevista que é emitida hoje no Programa ECCLESIA (RTP2).

A responsável enaltece o “exemplo” de Francisco, que contraria a “grande tendência do ser humano de ser «avestruz», a ver se passa”, ao pedir “mecanismos de prevenção e monitorização”, sendo uma tarefa de “todas as instituições”.

“O Papa vai fazer a diferença na vida de milhares de crianças porque vai fazer com que sejam mais protegidas, há mais atenção e respeito por elas”, sublinha.

Rosário Farmhouse indica que as comissões diocesanas para Proteção de Menores, criadas  podem ser uma “ponte” mas “não podem substituir-se à justiça”.

“São uma ponte fundamental de monitorização do que se passa, também para poderem trabalhar a prevenção. Acho muito importante e louvável, que as dioceses tenham equipas especializadas de proteção das crianças, de abusos às crianças. São comissões que estão mais atentas, que ao receber uma comunicação devem fazer o caminho da justiça e têm o dever de comunicar às entidades que têm de trabalhar estas temáticas. Acho que é muito importante porque todos somos poucos nesta luta”, indica.

A entrevistada afirma que em tempo de confinamento as “comunicações de situações de perigo” que a CNPDPCJ recebeu desceram 52% e explica o facto com o encerramento das instituições de “primeira linha” – “as escolas, as associações, clubes, atividades de tempos livres” que estavam com as crianças durante o dia e encerraram devido à pandemia da Covid-19.

O isolamento social veio transformar os maus-tratos em alguma invisibilidade. As crianças que passam por estas situações físicas ou psicológicas, abusos sexuais ou negligência, passam a estar numa parentalidade fechada em casa, e, de forma mais invisível, a sofrer estes mesmos maus-tratos. E por isso é tão importante que cada um de nós, enquanto cidadão ativo, possa, tendo conhecimento, comunicar estas situações de perigo”.

Rosário Farmhouse aponta sinais de “abandono”, de “a criança se sentir só” ou não ter “os cuidados de alimentação ou vestuário que deveria ter”, bem como a falta de medicação atempada, como exemplos que a todos devem estar atentos.

“Há muitas crianças que sofrem de desamor, de desinteresse, de negligência por parte dos pais, que por ação ou omissão convivem com a criança mas não lhes dão o afecto e a atenção que precisa para crescer saudável. Tem de ter naturalmente garantidas as conduções fundamentais de alimentação, saúde, mas também a parte afetiva é fundamental – saber que gostam dele, acreditam nele, os reforços positivos, o estar lá para eles”, observa.

“Nos tempos que correm, e em tempos de confinamento que são exigentes para as famílias que têm de conciliar o tele-trabalho e a tele-escola e a ocupação do tempo livre e a vida da casa, é demasiado exigente mas que isso possa servir para uma aprendizagem conjunta e colaboração que fortalecimento de laços”, refere ainda.

A presidente da CNPDPCJ sublinha ser decisivo atuar: “O que fazemos ou não fazemos vai marcá-las para sempre”.

O Dia Mundial da Criança foi instituído pela ONU, em 1959, para proclamar os direitos das crianças de todo o mundo e Rosário Farmhouse indica que a relação com os mais novos é fundamental e construtora de um futuro melhor.

“Não é preciso prendas nem grandes coisas: dizer que gostamos delas, fazer um gesto que simbolize o gostar delas, «pensei em ti»; é curioso que há coisas tão simples, como os adultos fazerem um desenho para a criança – «este desenho é para ti porque gosto de ti». Gestos simples que vão deixar marca e as crianças são muito atentas a isso. Ouvi-las. As marcas positivas vão ficar para sempre, apesar de momentos mais duros que se possa ter ao longo da vida. Com reforços positivos terão mais possibilidade de enfrentar os momentos mais difíceis”, finaliza.

PR/LS

Partilhar:
Share