Homilia da Celebração da Vigília Pascal 2021 de D. João Lavrador

«Todos nós que fomos baptizados em Jesus Cristo, fomos baptizados na Sua morte. Sepultámo-nos com Ele pelo baptismo, na morte e assim como Cristo ressuscitou dos mortos, por meio da glória do Pai, também nós caminhamos numa vida nova». Esta proclamação com que S. Paulo provoca na Comunidade dos cristãos de Roma a relação intrínseca entre o baptismo que cada um recebeu e o mistério da morte e ressurreição de Cristo é a mesma novidade da qual somos nós portadores ao vivermos a ressurreição de Jesus Cristo através do baptismo que recebemos e que hoje queremos renovar pela participação activa e consciente nos mistérios que nos são revelados nesta noite.

Ao proclamarmos a Ressurreição de Jesus de Nazaré, a celebração desta noite pascal convida-nos a realizar um itinerário de vida cristã que começa nas origens da criação, passando pelos passos significativos da libertação do Povo da Antiga Aliança, evocando a presença de Deus na história do Seu Povo, alimentando-o e oferecendo-lhe da água regeneradora, qual prenuncio do baptismo e da efusão do Espirito Santo na vida dos discípulos de Jesus Cristo, culminando pelo grande relato da ressurreição de Jesus Cristo, como este acontecimento é vivido pelas primeiras testemunhas e pelas primeiras comunidades cristãs.

Na verdade, só a partir do aprofundamento da nossa condição de baptizados podermos saborear toda a riqueza de graça e de Vida nova que dimana do Ressuscitado e que impregna a nossa existência, pessoal e comunitária de alegria, de festa e plenitude de sentido para a história pessoal e comunitária.

Todos nós que acompanhamos a Jesus de Nazaré na Sua entrega, no Seu sofrimento e na Sua morte, que participamos neste mistério que ficaria truncado se não nos fosse dada a possibilidade de fazer a experiência do Ressuscitado, sentimos agora a verdadeira alegria que vem do facto de não só termos escutado o anuncio da ressurreição, mas tal como as mulheres que na primeira hora foram ao sepulcro, verificamos e sabemos que Ele está vivo.

Unimo-nos a todos os nossos contemporâneos que andam à procura do sentido pleno para a sua existência, tantas vezes sem saberem onde encontra-lo e amarrados às seduções do mundo, somos convidados a escutar o grito que dentro de cada criatura a faz abrir-se a alguém que lhe possa trazer esta novidade que só a Ressurreição de Cristo poderá preencher.

A beleza da liturgia desta noite fez-nos contemplar a água baptismal pela qual renascemos para a Vida Nova de Ressuscitados e fomos convidados a renovar as promessas baptismais para de forma consciente afirmarmos a comunhão com Deus que se revela no Seu amor infinito vivido e partilhado na Trindade Santissima mas comunicado a todos aqueles que se deixam banhar nas águas da regeneração.

Mas esta é também a noite do anuncio pascal. Se por um lado somos chamados a realizar este itinerário para ir ao encontro de Jesus de Nazaré que historicamente sabemos que se entregou até à morte e morte de cruz, iluminados pela acção do Espirito Santo e bem alicerçados na Sua palavra descobrimos pela Revelação que Ele está vivo. Aliás, perante os sinais da Sua identidade que revelam que Ele esteve ali, mas agora já não está, percebemos que Ele ressuscitou.

É neste entrecruzar do esforço humano e da revelação divina que podemos alcançar a luz que nos faz saborear a Ressurreição de Jesus de Nazaré.

Mas a experiência da Ressurreição não ficaria completa se não cumpríssemos com as exigências da voz celeste que obriga a sair e caminhar ao encontro dos outros discípulos para lhes anunciar o que tinham visto e o que lhes tinham comunicado.

Há duas expressões do Evangelho que importa interiorizarmos para a nossa missão: «Ele vai à vossa frente» … e «lá o vereis».

Não tenhamos dúvidas que Jesus Cristo Ressuscitado caminha sempre à nossa frente. Quanto mais esforço fizermos para O encontrar mais Ele se manifesta porque a iniciativa da comunicação é sempre a partir d’Ele. Isto deve encorajar-nos a não desistirmos de O procurar mas também de animo fortalecido nos empenharmos na missão do testemunho da Sua Ressurreição.

«Lá O vereis», continua o texto Evangélico. Como ver a Jesus Ressuscitado? Na verdade Ele quer ser visto não só na Sua imagem terrena mas sobretudo no Seu mistério. Estamos disponíveis para estabelecer uma relação de amor e de comunhão com Jesus de tal forma que nos faça ver o invisível?

Este é o itinerário que S. João aponta para se ver a Deus e para reconhecer a presença de Deus em Jesus de Nazaré o Seu filho.

Perante tantos sinais de morte do nosso mundo que afecta tanta gente somos convidados não só a proclamar a ressurreição de Jesus Cristo mas a torná-la presente nos nosso gestos e a transformar o mundo onde vivemos à luz nova da ressurreição.

A nossa diocese continua a caminhada sinodal, este ano, aprofundando a realidade da comunidade cristã com rosto evangelizador, em diálogo com o mundo e edificando-se como uma comunidade que promove os serviços e ministérios.

O vigor e audácia, o entusiasmo e dinamismo evangelizador da comunidade no seu todo e de cada baptizado só poderão advir de uma profunda experiência de Vida Nova que brota do encontro com o Ressuscitado. Por isso, não tenhamos medo, uma vez sentindo a presença de Jesus Cristo Vivo nas nossa vidas não hesitemos em testemunha-Lo nas diversas situações do mundo de hoje.

É nestes sentimentos e no contexto da pandemia e sofrendo com ela que formulo votos de Santa e Feliz Páscoa para todos os diocesanos, os que estão no território da Região Autónoma mas também dos que estão na diáspora, para os idosos, os doentes, os presos e os que sofrem de exclusão.

Para todos uma santa e feliz Páscoa.

Imploro de Nossa Senhora, Mãe e Rainha dos Açores, que se alegrou com a Ressurreição do Seu Filho e que O torna presente na Sua Igreja que nos abençoe e nos encaminhe pelas sendas da evangelização do mundo de hoje.

Amen.

+João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores

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