«Continuo a ser rebelde, mas hoje é diferente, vamos amadurecendo e crescendo. Penso que lido melhor com os meus vulcões mas não os quero apagar, quero que continuem a existir porque são motores de propulsão»

Foto: Padre Adelino Ascenso

Lisboa, 07 ago 2020 (Ecclesia) – O padre Adelino Ascenso afirma que foi na infância que percebeu o lugar que o silêncio ocupava na sua vida, tendo encontrado o silêncio de Deus como lugar de conforto no Nepal.

“O silêncio oriental normalmente não é o que os ocidentais interpretam quando falam de silêncio, não é apenas ausência de palavras, assim como o vazio. Pode ser de uma extrema plenitude, a plenitude do vazio. O silêncio começou a ser mais fortemente construído no meu interior a partir dos estudos do budismo e da meditação”, conta à Agência ECCLESIA.

O sacerdote de 66 anos recorda que, “um dia, na Alemanha”, o indagaram sobre a conciliação interior entre os vulcões e a serenidade.

“Eu não respondi e agora também não sei responder, mas de facto nós por muito serenos que possamos ser há vulcões no nosso interior, que são necessários, porque são eles que nos estimulam a caminhar. Hoje, com a idade, vamos compreendendo melhor as erupções. E vamos dominando um pouco melhor essas erupções. Na minha pós-adolescência, em Lisboa, nos momentos de revolução, numa altura em que todos os jovens eram sonhadores, eu era muito rebelde. A rebeldia vai-se sublinhando. Continuo a ser rebelde, mas hoje é diferente, vamos amadurecendo e crescendo. Penso que lido melhor com os meus vulcões mas não os quero apagar, quero que continuem a existir porque são motores de propulsão”, reconhece.

Nos relacionamentos e encontros o padre Adelino Ascenso procura tornar verdadeiro o acolhimento e escuta do outro.

Foto: Padre Adelino Ascenso

“Há um termo japonês que significa encontro, construído por dois ideogramas que significam sair e encontro. Para que haja um verdadeiro encontro é primeiro necessário sair de nós mesmos. Se nos esvaziarmos há um verdadeiro encontro porque o outro entra no nosso interior, mas isso não pode ser consciente, porque se for consciente torna-se artificial. Tem de ser algo natural”, indica.

Também os métodos de meditação, indica, podem ser um caminho para encontrar Deus, “uma soleira”, mas afirma que valoriza mais o encontro com Deus através do encontro com as pessoas.

Dos mestres que encontrou no caminho o padre Adelino Ascenso elege pessoas “mais idosas” porque diz serem “raízes” e sem elas “as árvores morrem”.

Os idosos são as nossas raízes e sem raízes uma árvore está morta. São também a nossa memória e sem ela um povo não existe. Neste tempo de pandemia quem sofre mais são os idosos, eles estão numa solidão terrível”, lamenta.

O missionário, atualmente superior geral da Sociedade Missionária da Boa Nova, gostaria que se valorizassem mais os gestos quotidianos.

“Temos de aprender a valorizar os pequenos gestos. Uma simples inclinação no Japão pode ter mais intensidade e afectividade, mais ternura, do que um beijo, um abraço ou um aperto de mão. Depende da intensidade que colocamos. Estamos num tempo de valorizarmos os gestos”, sublinha.

O padre Adelino Ascenso é o convidado de hoje no programa Ecclesia, na Antena 1 da rádio pública, pelas 22h45, e nas «Conversas aGOSTO», publicadas online de segunda a sexta-feira, a partir das 17h00.

LS

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