«Não podemos continuar a tratar a pobreza como um problema de segunda linha, para gerir quando sobra tempo e orçamento», afirmou presidente da República, António José Seguro, em mensagem ao congresso
Aveiro, 09 out 2026 (Ecclesia) – O presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) alertou que contrário aos números “talvez não haja” menos pobres, e destacou o “convite a avançar, e não recuar” no 7.º congresso, sobre ‘Pobreza e Proteção Social’.
“Eu tinha algum receio com as dificuldades que existem, o problema da sustentabilidade das instituições, tanto que houvesse um discurso a dizer, ‘não podemos mais, vamos para trás, vamos debandar’. Não, foi o contrário. Há de facto vontade de continuar a prestar serviços, a proteger as pessoas. Isso foi, para mim, muito positivo”, disse o padre Lino Maia, em declarações à Agência ECCLESIA, no final do congresso, realizado em Aveiro.
O 7.º congresso da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade teve como tema ‘Pobreza e Proteção Social’, e decorreu esta quarta e quinta-feira, 7 e 8 de outubro, no centro de congressos aveirense.
Segundo o presidente da CNIS “reflexões muito importantes” tiveram lugar e, sublinhou, as perspetivas para os caminhos a percorrer, por isso, gostou que “aquilo que ressaltou foi um convite ao prosseguir, a avançar, e não recuar”.
“E depois, há um facto que se constatou aqui: apesar de os números dizerem que parece que há menos pobres, talvez não haja menos pobres, agora, os pobres são mais pobres ainda. Está a aumentar o fosso entre os ricos-ricos e os pobres-pobres, e não podemos fechar os olhos disso”, desenvolveu, lamentando que “a pobreza é injusta, e é sinal de muitas injustiças”.
“É preciso combater a pobreza, não é combater os pobres, é dar a mão aos pobres, dar-lhes os instrumentos para que saiam da pobreza e vivam. É uma questão de respeito pela dignidade das pessoas.”
No contexto da ‘Proteção Social’, o padre Lino Maia explicou que deste congresso ressaltou também “a necessidade do Estado assumir a proteção social como um direito universal”, e salientou que, “felizmente, a esperança de vida vai aumentando, mas não é acompanhada com qualidade de vida”.
O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, dos bispos católicos de Portugal, afirmou que a reflexão temática da CNIS “é absolutamente estruturante”, e salientou que as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) “são, sem dúvida, estruturantes naquilo que é a ação do serviço concreto a todas as pessoas, a todas as famílias”, e, de um modo particular, “a muitos que vivem a fragilidade”.
D. Roberto Mariz disse, à Agência ECCLESIA, que Portugal é “um país rico em cultura, em pessoas, em instituições”, “há muito de bom no caminhar enquanto coletividade”, mas alertou para os “números reais” da pobreza, os indicadores “diminuem, outros, por vezes, que se agravam”, mas é preciso ir “para além dos indicadores estatísticos”, e “olhar a condição e a situação de cada pessoa, de cada família, de cada cidadão, de cada ser humano”.
“Esta reflexão sobre as fragilidades que existem, e onde a proteção social seja assumida como um valor essencial e estruturante a ser posta em prática, no caminhar do seio da nossa sociedade, está aqui potenciado pelo congresso. Congregando naquilo que é partir do setor social a consciência das fragilidades que existem e as respostas efetivas”, acrescentou, em declarações após o congresso onde participou na mesa redonda ‘Caminhos para o Futuro – Que políticas sociais queremos’.
O congresso teve a participação da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Rosário Palma Ramalho, na abertura, e da secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, Clara Marques Mendes, no painel final, duas presenças “muito importantes” para o padre Lino Maia, que tiveram “a preocupação de apresentar” o trabalho do governo, mas que “não é suficiente”, por isso, os dirigentes destas instituições querem e afirmam que “é preciso fazer mais”.
“O Governo esteve cá ontem, a senhora ministra, hoje estou eu, isto mostra claramente o comprometimento do Governo com esta causa, e esta articulação que tem que existir, e tem existido; começamos, há dois anos, um trabalho muito articulado para garantir a sustentabilidade das instituições do setor social”, destacou Clara Marques Mendes, à Agência ECCLESIA.
Segundo a secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, “é muito importante” falar sobre esta realidade da pobreza e da proteção social, dizer que “as instituições do setor social são fundamentais, precisamente”, para este combate à pobreza, à “exclusão social e promoverem a igualdade de oportunidades”.
O presidente da CNIS lembrou que um utente de ERPI [Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas], ou Lar de idosos, a “média nacional passa de 1700 euros, e a comparticipação pública anda em cerca de 700 euros”, noutras valências como os centros de dia as pessoas “precisam de muitos cuidados e a comparticipação pública é muito insuficiente”.
Clara Marques Mendes referiu-se ao “grande desafio” do envelhecimento da população, afirmando que “é muito bom e é muito positivo que as pessoas possam viver até mais tarde”, mas nem sempre corresponde a “viver com qualidade”, e destacou o projeto-piloto ‘Apoio Domiciliário Mais Saúde’, “a articulação permanente entre a saúde e a Segurança Social e respostas que permitam que as pessoas que querem podem envelhecer nas suas casas”.
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