Paulo Rocha, Agência Ecclesia

O flagelo dos incêndios voltou a Portugal. Volta em cada verão, como se de uma rotina se tratasse. E mesmo que o fogo se inclua nos ciclos da natureza, a escala e as circunstâncias que estão na origem de vastos territórios ardidos remetem para negligências, crimes e abusos de poder. O rasto deixado pelas chamas resulta de uma estratégia: a que esquece determinadas geografias do país e faz com que as populações não se fixem, as comunidades se dispersem e a natureza fique entregue à exploração de quem apenas olha ao lucro.

Nestes dias, diante cinzas e escombros, procuram-se culpados e soluções. E é nestas ocasiões que as respostas não podem surgir da tensão entre governo e oposição, forças militares e proteção civil, lideranças centrais ou regionais e locais. Querem-se perspetivas, opiniões que não estejam reféns de aviões que levantam ou ficam em terra, das horas de trabalho dos soldados da paz, do circo mediático em busca de audiências à conta das chamas e do drama de muitos rostos desesperados por perdas de uma vida. São precisos olhares distantes, desinteressados do negócio e apenas atentos ao bem comum e ao cuidado da casa que é de todos.

Uma proposta: a voz do Papa Francisco. O líder da comunidade católica inspira crentes e não crentes, é referido em programas e estratégias pessoais e institucionais, emerge na opinião pública como uma referência social e moral. Assim, que o seja também neste âmbito: quando em causa estão perguntas sobre o que fazer para que os fogos não atinjam, a cada passo, as mesmas regiões.

No dia 24 de maio de 2015, o Papa Francisco assinou um documento que também inclui uma estratégia contra os fogos. Intitula-se “Laudato si” e é um guia para a ecologia integral, para quem quiser assumir e realizar políticas, programas e projetos que salvaguardem o planeta, não se fixem nos lucros resultantes da exploração dos recursos naturais e tenham por horizonte o médio e longo prazo, mais do que o ciclo de um circunstancial mandato.

Por outro lado, em abril de 2017, dois anos antes da calamidade que incendiou Pedrógão, Castanheira de Pera e depois Tondela e Viseu, entre outras localidades, a Conferência Episcopal Portuguesa deixou indicações também muito pertinentes para combater um flagelo que persiste, em Portugal, e destrói o que de melhor tem, a natureza. Escreve o episcopado:

“É fundamental que todos olhemos a natureza não como uma simples fonte de utilidade e rendimento económico e por isso facilmente sujeita a explorações de tal modo desordenadas que a destroem totalmente. Até mesmo por não nos ser possível viver sem ela, há que respeitá-la e valorizá-la, na sua bondade, harmonia e equilíbrio, como um dom que recebemos e um legado que devemos esforçar-nos por transmitir às gerações futuras”.

Em causa não está apagar um fogo, mas acabar com negligências, crimes e abusos de poder.

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