Introdução

Em terras transmontanas, o fervor das festas religiosas é abundante na época de Verão. Espalhados pelos 4 arciprestados da Diocese de Bragança-Miranda, os inúmeros santuários ganham vida com a presença de milhares de fiéis em intensas manifestações de fé.

Apresentamos a Festa da Assunção da Virgem Santa Maria (15 de Agosto), que se venera no santuário diocesano erguido na aldeia de Vilas Boas, no concelho de Vila Flor; e a Novena/Festa da Senhora da Serra (30 de agosto a 8 de setembro), em Rebordãos, Bragança.

 

Romaria da Senhora da Assunção

A romaria da Senhora da Assunção ou popularmente conhecida como a “Romaria do Cabeço”, constitui uma secular manifestação de religiosidade popular. Desde o século XVII que ao “cabeço”, onde se erigiu o atual Santuário Diocesano de Nossa Senhora da Assunção, se tem dirigido muitos milhares de romeiros, provenientes das mais diversas geografias. A este local, vindos do Além – Tua, Além – Sabor e Além – Douro, por diferentes caminhos de peregrinação, criados e sistematizados ao longo de séculos, num raio de mais de 100 Km, em redor do Santuário, ocorrem muitos milhares de devotos da Senhora da Assunção, particularmente no dia 15 de agosto, dia da Assunção de Maria.

Até 1843, o Santuário reduzia-se a pouco mais do que uma pequena ermida situada no topo do “cabeço” sagrado e para onde afluíam, com muita dificuldade de acesso, muitas centenas de peregrinos, principalmente na festividade de Nossa Senhora.

A dinamização do Santuário e da sua romaria muito se deve ao momento chave que foi a aparição, por diferentes vezes, de Nossa Senhora da Assunção à jovem menina Maria, natural de Vilas Boas, no ano de 1673. Daqui em diante, os romeiros aumentaram em grande número e os milagres sucederam – se, tal como relatava, em 1712, Frei Agostinho de Santa Maria, em Santuário Mariano.

A romaria da Senhora da Assunção teve um grande impulso, entre 1843 e 1886, com a construção do atual Santuário, com o aumento dos rendimentos da festividade e com um grande aumento da romagem e da fé na Senhora da Assunção.

Durante a 2ª metade do século XIX, a romaria desenrola-se, totalmente, no recinto do “cabeço”, sendo que os peregrinos se deslocavam, pelos diferentes caminhos, a pé ou a cavalo, pois o caminho de ferro apenas na última década do século XIX se constitui como poderoso meio de transporte, com particular enfoque para a linha férrea do Tua. Nesta época, a festa repartia -se por duas componentes: a religiosa, com a eucaristia como centralidade, mas também outras cerimónias em louvor de Nossa Senhora, onde os diferentes sermões se destacavam. Na parte profana, destacava – se o lançamento do fogo preso e do ar, a banda de música e as barracas, com produtos locais e alimentação.

Até 1930, as mudanças na romaria são pouco significativas, sendo, contudo, introduzida uma grande alteração, com uma novena preparatória na paróquia de Santa Maria Madalena e a procissão de Vilas Boas para o Santuário, no dia 15 de agosto, com a incorporação de diversos andores, com especial preponderância o destinado a Nossa Senhora. Esta alteração teve lugar a partir de 1903, quando os destinos da administração foram confiados à Confraria de Nossa Senhora da Assunção.

Na década de 30, no século XX, a romaria procura afirmar-se somente como romagem de caracter religiosa, atingindo o ponto alto, em 1935, com a consagração da Diocese de Bragança – Miranda a Nossa Senhora da Assunção. De facto, nesse ano, D. Luís de Almeida, bispo diocesano, convocou toda a Diocese para a grande peregrinação ao “cabeço sagrado de Vilas Boas” que se viria a concretizar em 14 e 15 de agosto. O sucesso da peregrinação atingiu tal impacto que o bispo diocesano publicou, no órgão oficial da Diocese, uma nota pastoral que seria lida pelos senhores párocos nas missas ocorridas apos a saída no jornal.

A romaria de 1935, em honra de Nossa Senhora da Assunção, somente teve cerimónias religiosas, com total proibição de música, folguedos e lançamento de foguetes.

A romaria de 1938 retoma o programa duplo, ou seja, religioso e profano, sendo que, infelizmente, isso se manteve até a atualidade.

A romaria estabilizou, procurando o equilíbrio entre o profano e o sagrado, tendo os foguetes e os arraiais o seu lugar, procurando o Santuário Diocesano da Senhora da Assunção, valorizar e dignificar as cerimónias religiosas. A novena preparatória, o tríduo final, a procissão de Vilas Boas ao Santuário e as diversas eucaristias que no dia 15 ocorrem, são a centralidade da festa.

Os romeiros continuam a percorrer os caminhos de peregrinação e a romaria continua a fazer o seu caminho, sendo que não se vislumbram sinais de enfraquecimento da fé dos devotos na Senhora da Assunção.
A romaria só existe porque existe a Senhora da Assunção e não se pode esquecer de falar das esculturas que representam a Assunção de Nossa Senhora. No Santuário, existem três imagens, em madeira, a mais pequena e mais antiga que ocuparia o altar da primitiva Ermida, a imagem que ocupa o alto da tribuna do altar – mor e a imagem de vestir que também se encontra na capela-mor do Santuário e que participa nas cerimónias religiosas, nomeadamente na procissão de 15 de agosto. Esta imagem, tem um rico guarda – roupa de vestidos e mantos, bem como diversos objetos em ouros para seu adorno, uma vez que a tradição de vestir a imagem leva já, pelo menos, dois séculos.

Abílio Evaristo

 

Novena/Festa da Senhora da Serra

Foto: Bruno Rodrigues

No arciprestado de Bragança, na Unidade Pastoral S. Bento, destaca-se como principal santuário mariano, o da Senhora da Serra. Fica no cume da serra da Nogueira, a 1320 metros de altitude, a escassos quilómetros da cidade de Bragança.

«É templo de boa construção e antiquíssimo, pois já existia no tempo dos Godos e foi reparado no tempo do Conde D. Henrique» (Portugal Antigo e Moderno – 1878)

Reza a lenda que Nossa Senhora terá aparecido a uma pastorinha, surda-muda, que zelosamente guardava o seu rebanho nesta serra, e lhe terá pedido para que naquele local se reconstruisse a capela em sua memória.

Reedificou-se a capela e deu-se o milagre. A criança começou a ouvir e a falar. Mais tarde, em pleno 5 de agosto, a superfície do templo surgiu coberta de um manto branco de neve, e eis que naquele local também se passou a invocar a Senhora das Neves.

Anualmente, a festa da Titular do santuário diocesano celebra-se a 8 de setembro (dia em que a liturgia evoca a Natividade da Virgem Santa Maria) e é realizada uma novena que principia a 30 de agosto.
São muitos, talvez milhares, os peregrinos que durante estes 9 dias sobem, a pé, a cavalo, de bicicleta ou de carro, ao alto da serra, ao santuário que é considerado um dos maiores centros de espiritualidade do nordeste transmontano. Cumprem promessas de sacrifício ou de gratidão para com a Mãe de Deus.

Ficam hospedados nas residências e participam nas celebrações litúrgicas, nomeadamente nas pregações diárias e no sacramento da reconciliação.

Os 9 dias são também um verdadeiro momento de reencontro e de convívio para muitas famílias que motivadas pela fé e devoção a Nossa Senhora procuram “bem perto do céu” a proteção maternal da Mãe.
Na óptica de D. António Montes Moreira, bispo emérito da Diocese, «a novena e a festa de Nossa Senhora da Serra constituem, desde há vários séculos, uma significativa manifestação de vitalidade espiritual que muito tem contribuído para a renovação permanente da vida cristã dos nossos fiéis, na linha da exortação do Concílio Vaticano II: a verdadeira devoção não consiste numa evocação estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa Mãe e a imitar as suas virtudes» (Lumen Gentium, 67)

Autêntico sinal de esperança é também a participação de muitos jovens, e até crianças, que com os seus grupos de carisma eucarístico, como a Juventude Eucaristia Franciscana, os Sorrisos Missionários ou os acólitos, dinamizam os diferentes momentos de oração.

Bruno Luís Rodrigues

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Este artigo faz parte da Edição especial da Agência ECCLESIA “Festas da nossa Terra” publicada em agosto 2022

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