Padre João Torres afirma que reclusão «necessita de uma mudança de paradigma» em Portugal

Braga, 03 out 2019 (Ecclesia) – O pároco de Priscos, na Arquidiocese de Braga, responsável pelo ‘presépio ao vivo’ afirma que este “projeto inovador” há cinco anos dá “mais dignidade à vida dos reclusos” que do Estabelecimento Prisional de Braga na “inclusão social”.

“Cumprindo a sua pena de reclusão entraram também num processo de humanização, porque acredito que estas pessoas se possam reintegrar na sociedade e não há melhor forma de integração do que o trabalho”, disse o padre João Torres, em informação enviada hoje à Agência ECCLESIA.

O pároco de Priscos contabiliza que em cinco anos “cerca de 32 reclusos” trabalharam no projeto ‘Mais Natal Priscos’, através de um protocolo assinado entre a paróquia bracarense e a Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP).

O também coordenador da Pastoral Penitenciária na Arquidiocese de Braga considera que a reclusão “necessita de uma mudança de paradigma” na forma como “a prisão é percecionada pela sociedade” e lembra que o subcomité das Nações Unidas (ONU) para a Prevenção da Tortura recomendou a Portugal que mude o foco do seu sistema penitenciário “do encarceramento” para a “reabilitação dos reclusos”.

Os reclusos através do exercício de uma atividade laboral estruturada e continuada desenvolvem competências pessoais e sociais: Aquisição de hábitos de trabalho, cumprimento de horários e regras e gestão das relações laborais.

No Presépio ao Vivo de Priscos, onde a “taxa de sucesso é de 95%”, os reclusos têm um horário de trabalho entre as 08h30 e as 17h00, fazem uma pausa para o almoço de 60 minutos para almoço, entre as 12h00 e as 13h00, e recebem um pagamento no final.

Neste serviço fora do estabelecimento prisional são acompanhados por um guarda, neste caso, o guarda Ribeiro que, ao longo destes cinco anos, “foi muito mais que um simples agente das forças de segurança”, num tratamento “com gentiliza, com humanidade, tem frutos”.

“A reintegração social de reclusos necessita de mais recursos humanos, tecnológicos, mais programas e, sobretudo mais financiamento para que os reclusos consigam refletir sobre a vida no geral, mas essencialmente acerca dos motivos que os levaram a cometer crimes e repensar nos objetivos para o futuro”, desenvolveu o padre João Torres.

Segundo o sacerdote “não existem soluções mágicas” mas é necessário um trabalho para além das funções de “supervisão, cumprimento de penalizações e controlo”.

O coordenador da Pastoral Penitenciária na Arquidiocese de Braga considera que a espiritualidade “poderia também ajudar muito os reclusos na sua reabilitação, mas está muito mal tratada nas prisões”.

“Se uma pessoa não faz as pazes com o seu crime, com a sua atitude incorreta, se não se habitua a viver com o seu passado e com o que fez, está permanentemente revoltada”, explicou.

O padre João Torres lembra que o Decreto-Lei n.º 252/2009 sobre ‘Assistência Espiritual e Religiosa nos Estabelecimentos Prisionais’ faz 10 anos e “a lei nunca foi cumprida, por falta de um manual de procedimentos”.

Este ano as visitas ao Presépio ao Vivo de Priscos – cerca de 90 cenários e mais de 600 figurantes – começam no dia 15 de dezembro, a inauguração é pelas 10h30, até 12 de janeiro de 2020.

CB

Partilhar:
Share