Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação disse à Agência ECCLESIA que a herança espiritual do Papa emérito passa por colocar o anúncio de Deus no «centro de vida», a valorização do «estatuto da fé» e a «reabilitação da tríade bondade, verdade e beleza»

Foto Arlindo Homem/AE

Cidade do Vaticano, 05 jan 2023 (Ecclesia) – O cardeal Tolentino Mendonça disse à Agência ECCLESIA que o “legado espiritual” do Papa Francisco traz o “anúncio de Deus para o centro da vida”, valoriza o “estatuto da fé” e  reabilita a “tríade bondade, verdade e beleza”.

Num depoimento enviado à Agência ECCLESIA, o prefeito da Congregação para a Cultura e Educação afirma que o Papa emérito Bento XVI, falecido no último dia de 2022, indica como “caminhos concretos para a busca e para a experiência de Deus” a “reabilitação da tríade bondade, verdade e beleza”.

“O ensinamento que transmitiu sobre a beleza abriu espaço para tantos diálogos e iniciativas com o campo das artes, restabelecendo uma aliança que a modernidade deixara em suspenso. Do ponto de vista eclesial e cultural transmite-nos  um legado de futuro”, afirma D. José Tolentino Mendonça.

O cardeal português refere-se ao “extraordinário magistério do Papa Bento XVI” onde “não faltam traços de grande alcance espiritual e civilizacional”, afirmando que, no dia do seu funeral, “é impossível conter o sentimento de gratidão por todos eles”.

“Temos de estar gratos pelo dom da sua vida, da sua inteligência e da sua fé”, afirmou.

D. José Tolentino Mendonça afirma que “é natural que cada um, contemplando a figura do Papa Bento, destaque certos aspetos que sente como representativos”, elegendo três que “parecem constituir traços essenciais do legado espiritual” que deixa à Igreja e à humanidade.

“O primeiro é sem dúvida trazer o anúncio de Deus para o centro da vida. A questão de Deus não pode ser deixada para trás como coisa menor ou até suscetível de ser cancelada. É a questão por excelência quando se pensa que sentido tem ou pode ter o destino humano”, afirma.

D. José Tolentino Mendonça afirma que, para o Papa emérito Bento XVI, o anúncio de Deus é “urgente no mundo contemporâneo”.

“Não um anúncio de Deus qualquer, mas o anúncio de Deus amor, aquele Deus que Jesus de Nazaré revelou na história. Recordo a esse propósito o impacto, a surpresa e a emoção que despertou a sua encíclica “Deus caritas est”. Como mestre da fé o Papa Bento era de limpidez e profundidade iluminantes”, acrescenta D. José Tolentino Mendonça.

Para além da valorização da bondade, verdade e beleza, o cardeal madeirense afirma também que outro legado do Papa Bento “tem a ver com o estatuto da fé”.

Foto Manuel de Almeida/Lusa – Encontro do Papa Bento XVI no CCB, em 2010

“O Papa Ratzinger ajudou a ver que a fé não deve ser menorizada como se fosse uma coisa pouco credível, se não mesmo irracional. Ele insistiu sim na credibilidade racional do ato de crer ao mesmo tempo que explicava que não podemos reduzir a razão a um racionalismo estreito sem mais, onde só prevalece o empírico”, afirma.

D. José Tolentino Mendonça sublinha que “Bento XVI não tinha dúvidas que o cristianismo provém de Jerusalém, mas tem de passar por Atenas”.

Em 2010, José Tolentino Mendonça, na altura diretor do Secretariado Nacional da Cultura, na Conferência Episcopal Portuguesa, liderou a organização do encontro do Papa Bento XVI com o mundo da cultura, no Centro Cultural de Belém.

“Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza”, disse na ocasião o Papa Bento XVI aos representantes do mundo da cultura de Portugal.

Bento XVI faleceu no dia 31 de dezembro de 2022, com 95 anos de idade e 10 anos após ter renunciado ao pontificado; o seu funeral vai ser presidido pelo Papa Francisco, no Vaticano.

PR

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