Celebração, que segue o rito das exéquias de um pontífice, tem vários momentos simbólicos

Foto: Vatican Media

Octávio Carmo, enviado da Agência ECCLESIA ao Vaticano

Cidade do Vaticano, 05 jan 2022 (Ecclesia) – Milhares de pessoas acorreram à Praça de São Pedro, no Vaticano, para participar no funeral do Papa emérito Bento XVI, presidido pelo seu sucessor, Francisco, a partir das 09h30 locais (08h30 em Lisboa).

Sob fortes medidas de segurança, os peregrinos enfrentaram o frio e o nevoeiro desde as primeiras horas da manhã, para assegurar o melhor lugar possível num espaço limitado, tanto pela colocação de cadeiras para milhares de concelebrantes como pela presença, nesta época do calendário litúrgico, do presépio monumental e da árvore de Natal.

O Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice (Santa Sé) divulgou o esquema do funeral de Bento XVI, falecido no último sábado, aos 95 anos de idade.

A “Missa exequial pelo Sumo Pontífice Emérito Bento XVI”, presidida por Francisco, segue no essencial o modelo das exéquias de um Papa em funções.

Matteo Bruni, porta-voz do Vaticano, apontou alguns “elementos originais”, entre eles a referência a um “Papa emérito”, e outros que não são incluídos, porque dizem respeito à morte de um pontífice em exercício, como, por exemplo, as súplicas da Diocese de Roma e das Igrejas Orientais, no momento da sepultura.

Após as 19h00 de quarta-feira, quando a porta da Basílica de São Pedro encerrou portas aos peregrinos e visitantes que se despediram do Papa emérito, o caixão, em madeira de cedro, foi fechado num rito privado.

O mestre das Celebrações Litúrgicas, monsenhor Diego Ravelli, leu o ‘rogito’ – elegia em latim, relatando os principais atos da vida do falecido Papa -, e, em seguida, estendeu-se o véu de seda branca sobre o rosto do defunto, que é aspergido com água benta.

Junto ao corpo de Bento XVI foi colocado um saco com as moedas e medalhas cunhadas durante o pontificado, os pálios (insígnia litúrgica que é símbolo de autoridade nas arquidioceses metropolitas, como a de Munique e de Roma, servidas por Joseph Ratzinger) e o tubo com o ‘rogito’, depois de selado com o selo do Departamento das Celebrações Litúrgicas.

O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé explicou que, pelo contrário, a férula papal (o corresponde ao báculo, que é encimado por uma cruz) não é colocada no caixão, sendo o seu uso associado a um Papa reinante.

Cerca de 45 minutos antes do início do funeral, o corpo foi transportado da Basílica de São Pedro para a Praça, onde é recitado o Rosário (mistérios dolorosos).

O momento da chegada do caixão foi assinalado pela multidão com várias salvas de palmas.

A última Missa exequial de uma Papa foi celebrada a 8 de abril de 2005, após a morte de João Paulo II, sob a presidência do então cardeal Joseph Ratzinger, decano do Colégio Cardinalício, que seria eleito como Papa, assumindo o nome de Bento XVI.

A celebração conta com leituras bíblicas diferentes das do funeral do santo polaco, sendo a passagem do Evangelho tirada do capítulo 23 de São Lucas.

“Um dos malfeitores suspenso na cruz blasfemava contra Ele, dizendo: «Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!». Mas o outro, em resposta, repreendendo-o severamente, afirmou: «Nem a Deus temes, tu que estás sujeito à mesma pena?». Para nós é justo, pois recebemos o que as nossas ações mereciam, mas este nada fez de errado». E dizia: «Jesus, recorda-te de mim quando fores para o teu reino». Ele disse-lhe: «Amen te digo: hoje estarás comigo no paraíso»”.
Era já quase a hora sexta e fez-se trevas sobre toda a terra até à hora nona, quando o sol se eclipsou; o véu do templo rasgou-se a meio e Jesus, clamando com voz forte, disse: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito». Dito isto, expirou.
(Lc 23, 39-46)

O Papa Francisco profere a homilia da Eucaristia e o cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio Cardinalício, vai celebrar no altar, como tem acontecido em várias celebrações dos últimos meses, devido às limitações físicas do atual pontífice.

Após a homilia, os presentes vão rezar por Bento XVI, para que “o eterno Pastor o acolha no seu reino de luz e de paz”, numa oração em alemão.

Outra das intenções da oração universal vai ser lida em português: “Pelos irmãos e irmãs atribulados pela pobreza e a indigência em todas as suas formas, que a caridade de Deus nos abra à compaixão e ao acolhimento dos últimos e dos pobres”.

Após a Comunhão, decorre o rito da ‘Ultima Commendatio’ (última encomendação) e da Valedictio (adeus), e o Papa asperge a urna com água benta, antes da sepultura, em cerimónia privada.

Bento XVI vai ser sepultado, por seu desejo expresso, na Cripta da Basílica de São Pedro, no túmulo que recebeu São João Paulo II, antes de o Papa polaco ser transferido para uma capela perto da ‘Pietà’ de Michelangelo, após a sua canonização.

O caixão em cedro é selado com os selos da Prefeitura da Casa Pontifícia, do Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice e do Capítulo de São Pedro, antes de ser colocado numa urna em zinco e num terceiro caixão, em madeira.

A cerimónia deve demorar cerca de duas horas e é concelebrada por um número estimado de 125 cardeais e 400 bispos, incluindo representantes portugueses – os cardeais D. Manuel Clemente, D. António Marto e D. José Tolentino Mendonça, bem como os bispos D. José Ornelas (presidente da CEP), D. Carlos Azevedo (delegado do Comité Pontifício das Ciências Históricas) e D. Américo Aguiar (presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023) e vários clérigos ao serviço da Santa Sé – e cerca de 4 mil sacerdotes.

A Missa Exequial pelo Sumo Pontífice Emérito Bento XVI é uma capela papal, termo que se aplica às celebrações litúrgicas mais solenes sob a presidência ou com a assistência do Papa, na Basílica de São Pedro.

O livrete da celebração apresenta, na sua página inicial, o quadro “A deposição” de Jesus (1603-1604), de Caravaggio, conservado nos Museus do Vaticano.

OC

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