Bênção à cidade e diocese do Porto

Alocução de D. Armindo Lopes Coelho Mais uma vez acabamos de celebrar a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo com a procissão pelas ruas da cidade. Foi a procissão possível em forma actual, a confirmar o desejo de não suspender uma tradição que vem da Idade Média com a designação de procissão do Corpus Crhisti ou Corpo de Deus. Interrupções episódicas e circunstancialmente verificadas não destruíram a memória da participação de instituições, religiosas e civis, na procissão emblemática também nesta diocese e cidade do Porto, quer por razões de fé e devoção, quer por acrescentados motivos de ordem profissional, oficial, institucional e estatutária. Saindo da Sé Catedral, a procissão do Corpo de Deus consagrou pelo seu percurso ruas e lugares que recordam e mantêm a toponímia da cidade e ilustram páginas de história da diocese, páginas que inspiraram outras áreas onde se desenvolveu e enraizou o culto e a devoção ao Santíssimo Sacramento. A diocese acolheu por isso com louvável e reconfortante entusiasmo a iniciativa, preparada e enunciada por João Paulo II: desde Outubro de 2004 até 30 de Outubro de 2005 vivemos e celebramos o Ano da Eucaristia. E o saudoso Papa deixou-nos este conselho: “Neste ano, seja vivida com particular fervor a Solenidade do Corpus Domini com a tradicional procissão. A fé neste Deus que, tendo encarnado, Se fez nosso companheiro de viagem, seja proclamada por toda a parte particularmente pelas nossas estradas e no meio das nossas casa, como expressão do nosso amor agradecido e fonte inexaurível de bênção” (Mane nobiscum Domini, nº.18). A Eucaristia, fonte e manifestação da unidade eclesial, é também fonte de unidade e comunhão fraterna e até de partilha de bens. Encarnar o projecto eucarístico na vida quotidiana e na vida profissional e social é testemunhar que a realidade humana não se justifica sem a referência ao Criador. Sem prejudicar de modo algum a legítima autonomia das realidades terrestres, o culto eucarístico e a sua manifestação pública em procissão não atenta contra a liberdade de ninguém nem com outras formas de religiosidade ou de credo. Não se pode ter medo de falar de Deus nem de manifestar os sinais próprios de fé. Se alguma vez houve que lamentar erros cometidos (que houve), não os podemos atribuir às “raízes cristãs” da nossa cultura, mas à incoerência dos cristãos face a estas raízes. O diálogo que a Eucaristia tem capacidade de fomentar e alimentar “é também projecto de solidariedade em prol da humanidade inteira” (Id. nº. 27). Em vez de separar ou isolar, a Eucaristia apela para o diálogo, e para a convergência da universalidade. Promove a comunhão, a unidade, a solidariedade, a paz, e faz assumir o compromisso na edificação de uma sociedade mais justa, mais tolerante, mais leal, mais compreensiva, menos crítica, menos corrosiva, mais esperançosa, mais desenvolvida, mais… de todos, mais saudável, mais digna, mais acolhedora, mais habitável. Como dizia o Papa João Paulo II, “a devota participação dos fiéis na procissão eucarística da solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é uma graça do Senhor que anualmente enche de alegria quantos nela participam” (Ec. de Euc. nº.18 ). Significativamente, viemos em procissão desde a Igreja da Santíssima Trindade, pela cidade que ostenta o título de “Cidade da Virgem”, e subimos a Calçada de Vandoma, onde esteve o arco coroado pela imagem da padroeira, até à sombra da Sé Catedral, dedicada à Senhora da Assunção e núcleo original da cidade que dali se formou e desenvolveu. Estava e continuou a devoção e procissão do Corpo de Deus aliada à ainda mais enraizada devoção à Virgem. Pertence ao Património da nossa fé cristã e da história do Cristianismo e da Igreja. Depois da Ceia em que instituiu a Eucaristia, Cristo disse-nos: “Fazei isto em memória de Mim”; e Maria disse-nos nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que o meu Filho vos disser” (Jo. 2,5). Quando o Anjo anunciou a Maria que Deus a destinava para ser Mãe de Cristo, ela respondeu: “Fiat, faça-se…” (Lc. 1, 30-35); e quando nos é apresentado o Corpo de Cristo para a comunhão, dizemos: Amen. “Feliz és tu que acreditaste” (Lc. 1,45), ouviu Maria de sua prima Isabel quando a visitou. Razão tinha o Papa ao dizer que é uma graça do Senhor que anualmente enche de alegria quantos participam devotamente na procissão eucarística do Corpo de Deus. É desta alegria que demos e desejamos continuar a dar testemunho. Que assim seja. Porto e Terreiro da Sé, 26 de Maio de 2005 D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto

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