Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

A mensagem do Papa para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais deixa vários alertas sobre problemas de comunicação que, em última instância, afetam a dignidade do ser humano.

Vivemos um tempo difícil, no campo mediático, em que a mera “aparência de verdade” é mais do que suficiente para quem acredita apenas naquilo que quer acreditar – ignorando pura e simplesmente princípios tão básicos como a verificação da informação.

É uma questão que me acompanha: a glorificação da mentira num tempo em que praticamente qualquer informação está à distância de um clique mostra que, em última instância, não é a verdade que procuramos. Queremos apenas ter razão, custe o que custar.

Não surpreende, por exemplo, que alguns queiram ter acreditado que o Papa Francisco ia eliminar a Bíblia – uma das ‘fake news’ mais ridículas do atual pontificado, mas que teve muito eco nas redes sociais. Logo este Papa que já ofereceu aos peregrinos e famílias, na Praça de São Pedro, edições da Bíblia e Evangelhos de bolso…

Em 2016, a palavra do ano para os dicionários britânicos Oxford era ‘post-truth’, adjetivo que diz respeito a “circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”.

Do ponto de vista jornalístico, estamos a falar de um desastre. É preocupante, por isso, que no debate público se valorize cada vez mais o volume em detrimento do conteúdo, o ruído em vez da substância e as circunstâncias em vez da verdade.

Francisco fala ainda numa problemática ainda mais grave, de distorção absoluta da realidade, o deepfake. Mais do que a (impressionante) possibilidade tecnológica envolvida, chama a atenção a deformação ética: não interessa se os argumentos são falsos ou se os factos contradizem o que se diz. Nada se sobrepõe, aparentemente, ao direito à indignação, mesmo ao disparate. Contradizer factos? Para quê? Só é necessário valorizar as emoções e as opiniões pessoais…

Nesta campo, é cada vez fundamental que o jornalismo recupere o seu papel de mediação em nome do restabelecimento da memória e de um maior conhecimento. O mundo tem vindo a perder mediadores e, apesar das novas tecnologias, o papel deste mediador ainda não tem substituto.

Um dos grandes serviços à construção da verdade é revoltarmo-nos contra esta ditadura da falta de tempo, procurando ir para lá da primeira impressão, lutando contra uma bolha que prescinde da multiplicidade das fontes e de pontos de vista.

Da mensagem do Papa impressiona ainda a sua afirmação da narratividade como atributo do ser humano. Precisamos de (boas) histórias como de pão para a boca – uma convicção com consequências práticas, até na definição de políticas públicas.

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