Angola: Papa desafia Igreja a promover «memória reconciliada», após décadas de guerra

«Todos os angolanos, sem exceção, têm o direito de construir este país, beneficiando dele de um modo equitativo» – Leão XIV

Foto: Vatican Media

Luanda, 20 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa disse hoje em Luanda que a Igreja Católica em Angola deve ter um ativo na pacificação do país, ainda marcado por décadas de guerra, e no desenvolvimento social, falando a bispos, sacerdotes, consagrados e agentes pastorais.

“Este trabalho não acabou! Promovei uma memória reconciliada, educando todos para a concórdia e prezando, no meio de vós, o testemunho sereno daqueles irmãos e irmãs, que depois de passarem tormentos dolorosos, tudo perdoaram”, disse Leão XIV, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, na capital angolana.

A intervenção destacou que a missão católica está “vinculada ao anúncio da paz”.

“Noutros tempos, fostes corajosos em denunciar o flagelo da guerra, em suportar as populações flageladas permanecendo a seu lado, em construir e reconstruir, em apontar caminhos e soluções para pôr fim ao conflito armado”, afirmou o pontífice.

O Papa vincou o dever de trabalhar para o bem comum, citando a necessidade de progresso socioeconómico.

“Todos os angolanos, sem exceção, têm o direito de construir este país, beneficiando dele de um modo equitativo; porém, os discípulos do Senhor têm o dever de o fazer segundo a lei da caridade”, precisou.

Leão XIV apelou ao compromisso contínuo das comunidades católicas na defesa da dignidade humana e da justiça social.

“É decisivo que, interpretando com sabedoria a realidade, não desistais de denunciar injustiças, apresentando propostas segundo a caridade cristã. Continuai a ser uma Igreja generosa, que colabora para o desenvolvimento integral do vosso país. Para tal, foi e é determinante tudo o que realizais na área do ensino e da saúde”, assinalou.

A intervenção pontifícia dirigiu-se especificamente ao clero e aos religiosos, alertando contra o distanciamento em relação aos mais vulneráveis.

“Alimentai a fraternidade entre vós com franqueza e transparência, não cedais à prepotência nem à autorreferencialidade, não vos separeis do povo, especialmente dos pobres, evitai a procura dos privilégios”, assinalou.

Obrigado pelo trabalho de evangelização realizado neste país; pela esperança de Cristo semeada no coração do povo; pela caridade para com os mais pobres. Obrigado por continuardes com perseverança a construir o progresso desta nação sobre os sólidos alicerces da reconciliação e da paz.”

O presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), D. José Manuel Imbamba, saudou o Papa e reafirmou a ação missionária da instituição no território.

“Assumimos, com coragem profética, a nossa missão de mediação e de formação de consciências, apostando firmemente nas nossas crianças, adolescentes e jovens.”

O prelado destacou os passos dados no campo do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, junto de representantes do CICA (Conselho das Igrejas Cristãs de Angola) e da CISA (Comunidade Islâmica de Angola).

O encontro incluiu os testemunhos de um sacerdote, de um catequista e de um representante da Conferência dos Institutos Religiosos de Angola.

Manuel de Almeida, catequista de 61 anos de idade e pai de sete filhos, deu testemunho do seu percurso de serviço à Igreja Católica, ao longo de várias décadas.

“Muitas vezes fui preso por homens armados, acusando-me de colaborador com a força inimiga. Às vezes era impedido de realizar celebrações da Palavra, culto dominical inclusive, para participar das reuniões político-partidárias ou das reuniões convocadas pelas autoridades tradicionais”, referiu.

Na sua intervenção, o Papa destacou o ministério dos catequistas na África, “uma expressão fundamental da vida da Igreja”, que pode “servir de inspiração para as comunidades católicas nos quatro cantos do mundo”.

Após o encontro, Leão XIV seguiu para a Nunciatura Apostólica, concluindo o programa oficial do seu terceiro dia em Angola.

OC

Esta é a terceira etapa da maior viagem internacional do atual pontificado, que se iniciou a 13 de abril na Argélia e prosseguiu nos Camarões.

O Papa deixa Luanda na manhã desta terça-feira, rumando à Guiné Equatorial, onde a sua primeira visita a África se conclui, a 23 de abril.

Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de São Paulo II ter realizado uma visita apostólica ao país, que incluiu uma passagem por São Tomé e Príncipe, entre os dias 4 e 10 de junho de 1992, e depois Bento XVI, de 20 a 23 de março de 2009.

Os católicos são cerca de 58% da população angolana.

 

Partilhar:
Scroll to Top