Nos 50 anos do Conselho Português das Igrejas Cristãs foi assinando memorando para a «certificação verde» das várias comunidades, que aponta a uma conversão ecológica. Juan Ambrósio, professor da Faculdade de Teologia da UCP e membro da Comissão Executiva da Rede Cuidar da Casa Comum, fala com a ECCLESIA e Renascença sobre a importância deste passo

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (ECCLESIA)

Como surgiu a ideia desta “certificação verde” das instituições e comunidades cristãs em Portugal?

Uma ideia que surgiu num outro contexto e depois foi dando passos e acabou neste importante passo como aqui foi referido, no dia 12, ontem, não é. Num primeiro momento, nós na rede de cuidar da casa comum, atentos a estas coisas e atentos à concretização dos desafios lançados pelo Papa Francisco na ‘Laudato Si’, fomos desenvolvendo as nossas atividades, criando parcerias, estando atento ao que vai acontecer. Neste trabalho fomos contactados pela ROCHA Portugal, pergunto-nos se estaríamos interessados em iniciar um diálogo e uma parceria para uma possível certificação das comunidades cristãs no nosso território. Esta ideia, confesso, era uma ideia que nós já tínhamos desde muito cedo na própria rede, um pouco à imagem da ‘Église Verte’, em França. Sabíamos que fazíamos isso mas achávamos que ainda não tínhamos condições esse passo., que esse ainda seria cedo demais….

 

Uma espécie de selo de qualidade não é ?

Exatamente. Um selo de qualidade. Enfim, achávamos que nos parecia cedo demais. A rede ainda não tinha grande história, estávamos a iniciar os passos, e não tínhamos sequer competências técnicas para o fazer, e este convite que a ROCHA nos faz pareceu-nos vir ao encontro desta ideia. Começamos o diálogo, esse diálogo envolveu também a Aliança Evangélica e o COPIC e fomos preparando a possibilidade deste processo e deste itinerário, de uma certificação, ou seja, da criação de um selo verde, porque a ROCHA já tem essa experiência no Reino Unido; a ROCHA internacional já faz esse percurso no Reno Unido com sucesso. A ‘Église Verte’ também faz esse percurso em França, parece que era chegado o momento de nós aqui ensaiarmos algo parecido.

 

Nós não vamos, a partir de hoje, ter um selo a ser colocado. O memorando representa um ponto de partida?

Aquilo que começou para ser só uma coisa técnica acabou por se desenvolver neste memorando em que várias comunidades cristãs se comprometerem em dar este passo de caminhar em conjunto. Este primeiro momento, este memorando é dizer que nos vamos envolver neste processo. O selo não está criado, os indicativos de diagnósticos estão aí mas têm de ser agora traduzidos e adaptados para a realidade portuguesa. Temos que criar todo esse processo de certificação para a realidade portuguesa, envolvendo competências técnicas. Competências que não são só do ponto de vista ambiental. São também do ponto de vista social, porque nós perseguimos aqui uma sustentabilidade ecológica integral, e esse é um dos grandes desafios. Sabemos o que nos diz a ‘Laudato Si’, que esta ecologia integral está muito ligada, por exemplo à justiça social, e que a justiça social é uma exigência da própria fé cristã. E portanto, este passo dado em conjunto por diversas comunidades cristãs, que se comprometem em conjunto fazer este itinerário parece-me ser de facto algo importante.

 

Onde se quer chegar com esta proposta dirigida às várias comunidades cristãs?

Queremos proporcionar às comunidades a possibilidade de uma maneira de se organizarem de viverem,  de gerirem os seus edifícios, as suas propriedades de uma maneira sustentável. E sustentável, quer do ponto de vista ecológico, no que ao ambiente e ao clima se refere, quer também do ponto de vista social, cultural, do ponto de vista humano. Ou seja, fornecer e dar um conjunto de indicadores que permita às comunidades cristãs nas suas mais diversas concretizações – porque elas podem ser casas de retiro, podem ser os edifícios das próprias Igrejas, podem ser enfim uma outra série de coisas, de organizações de propriedades, como quisermos – perceber se estão ou não a viver e a organizar-se de uma maneira sustentável. Que tipo de energia utilizam, que desperdícios produzem e como é que os tratam, a descarbonização, a quem compramos os produtos, de que tipo são os produtos…coisas deste género. Que nos permita ter a consciência de se são ou não ecologicamente sustentáveis.

Passo seguinte, uma vez percebido o ponto da situação em que se encontram, que mudanças é necessário adaptar? Que atitudes é necessário promover? Em última estância, há o objetivo de promover a mudança dos estilos de vida. Esses são difíceis de mudar, e são os mais importantes de mudar. Depois de fazermos assim o diagnóstico, fazer a proposta da terapia, os passos que é necessário dar, o que é preciso inverter, o que é que é preciso incentivar, acelerar e depois acompanhar as comunidades neste processo para finalmente termos essa tal mudança dos estilos de vida que é o que se pretende.

 

Esta é uma preocupação de todos… Quão importante é a adesão da Conferência Episcopal Portuguesa a esta iniciativa?

É o assumir claramente que isto faz parte da missão da própria comunidade católica. a Conferência Episcopal Portuguesa percebe isso, adere a isso, e envolvesse nisso. Temos que reconhecer que se calhar a comunidade católica é aquela que desperta um bocadinho mais tarde para a importância desta realidade. Não quer dizer que a preocupação pela Criação não seja uma preocupação constante na reflexão teológica e na maneira como se leem os textos e o próprio evangelho, e os desafios do evangelho. É uma preocupação. Mas ela verdadeiramente não estava no núcleo, ou seja, é uma preocupação que diria assim: Porque somos cristãos temos que cuidar da Criação. Era quase que uma consequência. Agora ela continua a ser uma consequência, mas é mais do que uma consequência é assumida como fazendo parte do próprio núcleo. Ou seja, o cuidado da Criação do próprio núcleo da experiência cristã. O cuidado da Criação pode ser critério; deve ser – atrevo-me eu a dizer – deve ser critério para aferir a fidelidade  à missão e para aferir a identidade cristã. Ou seja, o modo como cuidamos da Criação, o modo como cuidamos da Casa Comum, como cuidamos uns dos outros, é critério para aferir a nossa identidade e a nossa missão. Portanto, é um critério nuclear da experiência cristã e aqui parece-me que há uma novidade.

 

A proteção do ambiente é um campo de diálogo ecuménico por excelência, e é também muito importante neste momento da humanidade. Está em jogo a credibilidade do testemunho cristão?

Sim, não tenho qualquer receio de o dizer. Não só do testemunho cristão, mas da relevância que as comunidades cristãs querem ou não ter neste momento histórico tão importante que estamos a viver. Além da pandemia, várias coisas indiciavam isso, com meridiana clareza: este é um tempo não só em que há muitas mudanças, é verdadeiramente um tempo de mudança, paradigmática. Forja-se neste momento – ainda que nós não vejamos como, com toda a clareza – o futuro da humanidade. Que humanidade queremos e que mundo queremos construir? Queremos ser uma humanidade que possa incluir todos os seres humanos, sem lugar para descartados nem sobrantes, como diz o Papa Francisco, nestas expressões tão claras e tão interpeladoras? Ou queremos forjar uma humanidade só para um conjunto de eleitos, de favorecidos por determinados acontecimentos, pela sorte, pela situação que têm, pelo país em que nasceram, pela língua que falam, pelo emprego que desempenham? É só para esses ou é verdadeiramente para todos? Esse futuro está em jogo.

A maneira como as comunidades religiosas e as comunidades cristãs souberem ser protagonistas deste momento – não com a ideia de que todos têm de ser cristãos -, com a ideia clara de que queremos dar a identidade, a paixão cristã, a beleza e o tesouro que estão contidos no Evangelho, para podermos criar esta nova humanidade e este novo mundo. Se conseguirmos estar à altura, seremos dignos da confiança que este Deus deposita nós. A maneira como as comunidades cristãs se comportarem, no contributo para a construção da sociedade, é absolutamente relevante para serem levadas a sério.

 

O acordo entre as várias comunidades é sinal de uma boa relação entre as Igrejas, no nosso país?

Sim. É um passo que me parece muito importante. O objetivo da unidade dos cristãos – piso terrenos que é preciso pisar com cuidado, mas vou dizer o que me vai no coração -, verdadeiramente, será procurar acordos teológicos? Afinar acordos? Porque aquilo que nós une é mais do que nos separa – este Senhor ressuscitado, em quem acreditamos. Será esse o objetivo? Nalgumas coisas não tenho dúvidas de que seja.

 

Mas é também a harmonia…

Exato, a questão é essa. A diferença, a pluralidade, podem ser uma riqueza. O mistério cristão é algo de tão profundo, de tão pleno, que talvez não possa ser vivido, transmitido, anunciado, descrito ou narrado de uma só maneira. Precisa de uma pluralidade, na qual exista uma harmonia, e essa é verdadeiramente uma riqueza. Há coisa em que temos de estar unidos, mas essa unidade não é uma uniformidade. E há outras coisas em que podemos dizer de maneira diversa, de maneira plural, dizendo a mesma verdade declinada de modos diferentes.

Para conseguirmos isso, o que é mais necessário é que caminhemos juntos naquilo que já nós consideramos capazes de caminhar. E este é um campo em que isso é possível.

 

E também deriva de um bom relacionamento, que as pessoas confiem umas nas outras…

Sim. Este memorando começou por ser uma proposta de parcerias para coisas concretas e depois, porque as pessoas que participaram no diálogo o levaram a sério, começaram a deixar-se interpelar. Várias vezes, nos nossos encontros, fomos concluindo que, se calhar, intuíamos a presença do Espírito que nos começava a desafiar, a ousar outra coisa. A ousar um entendimento maior, aproximar as comunidades. Decidimos arriscar e deixar-nos guiar por essa inspiração: o resultado está aí. É o princípio.

 

Qual será o papel da Rede Cuidar da Casa Comum neste processo?

É o de ser rede. Não queremos ser os primeiros, os principais, os donos, nada disso. Queremos ser rede, congregar vontades, opiniões, competências, sensibilidades, ajudar a que as pessoas possam, em harmonia, em colaboração, caminhar em conjunto, continuar este diálogo, cada vez mais profundo e amigo, mais íntimo com os nossos irmãos do Conselho Português das Igrejas Cristãs, da Aliança Evangélica, de diversas sensibilidades. Queremos continuar na nossa relação profunda com a comunidade católica, através da Conferência Episcopal Portuguesa.

Somos um dos cinco parceiros que assinam este memorando e queremos continuar a fazer este trabalho, ser rede. Há uma expressão que agora se utiliza muito, que pode ajudar: ser facilitador. Facilitar o diálogo, o encontro, o trabalho em conjunto. Às vezes os facilitadores são pessoas contratadas, de fora, que só vêm para facilitar e não se metem, não se misturam nas coisas. Não é esse o papel da rede. Nós queremos facilitar, sendo um dos parceiros.

 

Sendo parte ativa…

Exatamente.

 

Em termos de reflexão, a categoria –  o critério como dizíamos há pouco – do cuidado é decisiva para se pensar o futuro do Cristianismo? É uma das marcas que a ‘Laudato Si’ deixou, seis anos depois da sua publicação?

Não só a ‘Laudato Si’, essa é uma das marcas, diria, para poder ler o Cristianismo, o papel que ele tem no mundo, na construção da sociedade hoje. É também uma das marcas a partir das quais podemos ler, por exemplo, este pontificado. Não é preciso fazer um trabalho muito exaustivo para perceber que este apelo ao cuidado, este exercício do cuidado percorre todo o pontificado.

Lembro bem aquela primeira homilia, no Dia de São José (19 março de 2013, início solene do pontificado, ndr), quando se evoca a figura de São José e o bispo de Roma diz que este exercício do cuidado que José tem com Maria, com Jesus e com tudo o que está relacionado com eles, configura bem o que é a missão de Pedro na Igreja. Estava dado o mote e talvez nessa altura não o tenhamos percebido tão bem, mas à medida que a reflexão se vai desenvolvendo, que os textos vão sendo partilhados, isso fica claro. No primeiro texto, a ‘Evangelii Gaudium’, cuidar da renovação da Igreja; na ‘Laudato Si’, cuidar da casa comum; na ‘Fratelli Tutti’, cuidar todos uns dos outros como irmãos. A mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano falava na cultura do cuidado; o cuidado que implica os membros da família, na ‘Amoris Laetitia’, e os jovens, na ‘Christus vivit’. Qual é marca e o tom que esse cuidado deve ter? É a misericórdia. E com isto evoco todos os grandes textos, é uma presença constante neste pontificado.

A Encarnação, marca distintiva do Cristianismo, é exatamente o exercício do cuidado que Deus tem pela humanidade. Quer ser tão próximo, tão ternurento, tão carinhoso, quer levar tão a sério esta obra sua, esta sua criatura, que faz o inconcebível, paradoxal: faz-se um de nós para, junto de nós, cuidar de cada um. Esse é o desafio que o Cristianismo tem no meio do mundo. As comunidades cristãs não podem ser doutro modo.

 

A figura do Papa tem sido inspiradora, neste domínio. A sua mensagem vai para lá das fronteiras da Igreja Católica

Sem dúvida. E alguns dos textos paradigmáticos nisso, particularmente as duas encíclicas – ‘Laudato Si’ e ‘Fratelli Tutti’ – que o Papa, explicitamente, afirma querer dirigir a todas as pessoas. Portanto, não é simplesmente uma interpelação ou uma reflexão para o interior da comunidade cristã – também é -, o horizonte é muito mais alargado, quer implicar e convocar a humanidade, enquanto tal, todos os homens e mulheres de boa vontade, capazes de perceber este momento histórico que estamos a viver e os desafios que ele nos levanta. Convocando todos, de uma maneira clara. Os textos acabam por dizer isso, a ‘Fratelli Tutti’ é claríssima, quando o Papa partilha o sonho de uma única humanidade, cada um a partir da sua sensibilidade, da sua crença, das suas capacidades, mas todos irmãos, todos unidos numa só família humana, todos construindo um mundo em que todos possam ser incluídos.

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