Comentário de D. João Lavrador à Mensagem do Papa para o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais

Como já tinha sido anunciado, o lema da mensagem do Papa Francisco para o próximo dia mundial das Comunicações sociais refere-se à relação da comunicação social com a comunidade e tem como titulo «“Somos membros uns dos outros” (Ef 4, 25): das comunidades de redes sociais à comunidade humana».

O Papa apresenta três imagens: a rede, a comunidade e o corpo. Em cada uma delas há virtualidades e limites. Por isso, ao longo da mensagem, o Santo Padre denuncia a má utilização das redes sociais, nomeadamente os perigos em que podem incorrer os jovens, e aponta o caminho para uma verdadeira comunicação social que forme comunidade, estabelecendo laços fortes de comunhão e de fraternidade, e sobretudo que edifique a sociedade como um corpo, que segundo a linguagem de S. Paulo, deve assentar na verdade de uns para com os outros.

Logo desde o início, o Santo Padre define o objetivo desta mensagem ao dizer que gostaria de convidar «uma vez mais a refletir sobre o fundamento e a importância do nosso ser-em-relação e descobrir, nos vastos desafios do atual panorama comunicativo, o desejo que o homem tem de não ficar encerrado na própria solidão».

No contexto da metáfora da rede e da comunidade, alerta-se para os perigos que poderão ameaçar as redes sociais. Assim, no dizer do Papa, «se é verdade que a internet constitui uma possibilidade extraordinária de acesso ao saber, verdade é também que se revelou como um dos locais mais expostos à desinformação e à distorção consciente e pilotada dos factos e relações interpessoais, a ponto de muitas vezes cair no descrédito».

Se por um lado se deve promover uma comunicação de tal modo que a rede funcione graças à comparticipação de todos os elementos, por outro lado, «reconduzida à dimensão antropológica, a metáfora da rede lembra outra figura densa de significados: a comunidade». Na verdade, «uma comunidade é tanto mais forte quando mais for coesa e solidária, animada por sentimentos de confiança e empenhada em objetivos compartilháveis».

De facto, «como rede solidária, a comunidade requer a escuta recíproca e o diálogo, baseado no uso responsável da linguagem».

A partir da exortação de S. Paulo que convida a viver na relação mútua de modo que cada um se sinta membro dos outros (Cfr. Ef. 4, 25), o Santo Padre exorta a uma comunicação que se fundamente na comunhão para servir a verdade. Diz ele que «com efeito, a verdade revela-se na comunhão; ao contrário, a mentira é recusa egoísta de reconhecer a própria pertença ao corpo; é recusa de se dar aos outros, perdendo assim o único caminho para se reencontrar a si mesmo».

E voltado para os cristãos convida a assumirem um papel de relevância no modo de conceber a pessoa como diálogo e promotora de comunhão e a testemunhar a verdade no domínio da comunicação social.

Deste modo, por um lado, «o panorama atual convida-nos, a todos nós, a investir nas relações, a afirmar – também na rede e através da rede – o caráter interpessoal da nossa humanidade»; por outro lado, «por maior força de razão nós, cristãos, somos chamados a manifestar aquela comunhão que marca a nossa identidade de crentes».

Sentimos que «a própria fé é uma relação, um encontro; e nós, sob o impulso do amor de Deus, podemos comunicar, acolher e compreender o dom do outro e corresponder-lhe».

O Papa termina a mensagem a convidar os comunicadores a colocarem toda a sua atividade ao serviço da comunhão efetiva e sensível. Afirma que «assim, podemos passar do diagnóstico à terapia: abrir o caminho ao diálogo, ao encontro, ao sorriso, ao carinho… Esta é a rede que queremos: uma rede feita, não para capturar, mas para libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres».

Desafia então os cristãos sublinhando que «a própria Igreja é uma rede tecida pela Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos “like”, mas na verdade, no “ámen” com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros».

Neste ano, o Papa Francisco retoma um tema já várias vezes abordado pelos últimos Papas que diz respeito às redes sociais, à comunicação em rede ou à comunicação no digital, e em linguagem simples lança fortes desafios a uma comunicação que seja verdadeira, edificadora de comunhão e se coloque ao serviço da pessoa; interpela os comunicadores a estabelecerem a relação entre a comunicação na rede e a comunidade, sublinhando o valor da pessoa que exige a relação interpessoal; mais ainda, questiona o testemunho cristão como fundamento de toda a comunicação porque se baseia em Deus Trindade, comunicação divina, que dá sentido e orienta toda a comunicação entre as pessoas.

São muitos os desvios e perigos que integram a comunicação nas redes sociais, relevante é o individualismo na sociedade promovido por uma comunicação mal-entendida, mas igualmente se manifestam as potencialidades e virtualidades que revestem a comunicação digital desde que seja orientada pelos objetivos autenticamente humanos e potencie os laços mais profundos entre as pessoas.

Faço votos que esta mensagem se revista de orientação para a nossa comunicação social.

 

+João Lavrador, Presidente da Comissão Episcopal da Culturais dos Bens Culturais e Comunicações Sociais

 

 

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