Homilia do Bispo de Beja na Missa da Ceia do Senhor

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo,
Estamos a iniciar o Tríduo Pascal, o centro do Ano Litúrgico, o centro das celebrações da Igreja. São estes os dias de maior solenidade pois o que neles celebramos é de crucial importância para a nossa vida de fé.
Hoje é o dia da instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial e a celebração da Missa da Ceia do Senhor, ajuda-nos a entrar mais profundamente no mistério da Eucaristia, nomeadamente a partir das leituras que hoje nos são propostas e que passo a comentar:
1. A Eucaristia mergulha as suas raízes na tradição bíblica de Israel, especificamente no acontecimento do Êxodo: a libertação do Povo de Deus da escravidão do Egito. A I Leitura (Êxodo 12) coloca-nos no coração da Páscoa judaica, que significa “passagem”. Nela, destaca-se a figura do cordeiro imolado, cujo sangue, aspergido nas portas, salvou as famílias israelitas da passagem do anjo exterminador. A imolação do cordeiro pascal prefigura o sacrifício de Cristo, pelo qual fomos / somos verdadeiramente libertos. Jesus é, de facto, o verdadeiro Cordeiro pascal — um dos grandes títulos cristológicos, particularmente significativo no contexto litúrgico da Eucaristia, que a Igreja designa também como Santo Sacrifício. Esta expressão, embora hoje menos frequente, conserva toda a sua profundidade teológica, pois exprime a atualização sacramental do único sacrifício de Cristo. Finalmente, o texto bíblico sublinha o carácter perpétuo desta celebração: “celebrai-o de geração em geração”. Estas palavras do Antigo Testamento encontram o seu paralelo e de alguma forma o seu cumprimento nas palavras de Jesus na Última Ceia: “Fazei isto em memória de Mim”. Assim, o que era uma instituição memorial para Israel, torna-se para a Igreja o Sacramento da nossa Salvação, que somos chamados a guardar e
transmitir fielmente. E a Igreja, século após século, mesmo em contexto de perseguição e até de perseguição violenta, tem sido fiel a este mandato do Senhor.
2. A II Leitura, extraída da I Carta de São Paulo aos Coríntios, constitui o relato mais antigo da instituição da Eucaristia no Novo Testamento. Ela testemunha como, desde as suas origens e em estrita obediência ao mandato de Jesus, a Igreja celebra a Fração do Pão, a Santa Missa. Como Paulo enfatiza, a Eucaristia é de instituição divina; não se trata de uma criação humana ou de uma convenção social, mas de um mistério que nasce do próprio Cristo.
São Paulo apresenta-se aqui como o fiel depositário da Tradição: ele não inventa nem altera o essencial, mas transmite o que ele próprio recebeu do Senhor. É vital compreender que a Eucaristia não emana da vontade da comunidade; ela vem de Cristo e é entregue à Igreja, que se torna o lugar próprio da sua transmissão e guarda.
São igualmente fundamentais as palavras conclusivas do Apóstolo: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Elevenha”. Ao comungarmos o Corpo do Senhor, estamos (também) a proclamar a nossa fé e a nossa esperança n’Aquele que morreu, ressuscitou e voltará na plenitude dos tempos. É este anúncio profético que, daqui a pouco, renovaremos na aclamação litúrgica após a consagração.
3. No Evangelho que acabámos de escutar — o relato do Lava-pés — Jesus convida-nos a aprofundar o significado da Eucaristia que celebramos. Ao lavar os pés aos discípulos, Jesus realiza um gesto profético: a resistência inicial de Pedro é compreensível, pois, naquele contexto cultural, essa tarefa estava reservada aos escravos. Ao assumir a condição de servo, o Mestre inverte a lógica do poder e revela a natureza do Seu Reino.
A Eucaristia é verdadeiramente uma escola de amor, de doação e de serviço. Nela, somos moldados por uma lógica distinta da do mundo: a lógica do dom. Assim, na Eucaristia aprendemos o amor de Cristo, um amor que se faz dom até ao fim – como ouvimos no santo Evangelho: “Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”.
Celebrar a Eucaristia exige, portanto, que aceitemos entrar nesta escola. Ao comungarmos a hóstia santa, comungamos um estilo de vida que nos impele a baixarmo-nos diante dasnecessidades do próximo. A Eucaristia ensina-nos, pois, a viver na lógica da doação de nós mesmos e do serviço humilde em favor dos nossos irmãos.
Neste dia de 5Fª Santa, por todas estas razões e por outras que conhecemos e experimentamos no nosso íntimo, no caminho de vida cristã que vamos trilhando, damos graças a Deus pelo imenso dom da Eucaristia e do sacerdócio ministerial.
Que a nossa participação na Santa Missa, nos una sempre mais intimamente a Jesus, para que O sigamos com mais verdade, amor e espírito de serviço. Que a intercessão de Nossa Senhora, Mãe da Igreja e a proteção de São José, nosso padroeiro, nos amparem neste caminho que fazemos como irmãos.
D. Fernando Paiva
Bispo de Beja
