Luís Silva, Diocese de Aveiro

Reencontro, no livro de Carlos Fiolhais (cuja leitura recomendo, vivamente!) a afirmação de que a fé é dom, com a semântica de ‘privilégio’, ‘dádiva reservada àqueles a quem foi proporcionada’. Para ser mais fiel às palavras do nosso insigne físico e singular divulgador científico, reproduzo o seu próprio texto: ‘Tendo crescido em Portugal nos anos de 1950 e 1960, no seio de uma família católica tradicional, não posso deixar de me considerar católico no sentido cultural, isto é, alguém que respeita as tradições que recebeu, por elas terem marcado a sua educação e servirem de base à sua visão do mundo. Mas [e esta é a parte que agora nos interessa] quando me perguntam se acredito em Deus, respondo, com a maior sinceridade, que não recebi o «dom» ou a «graça» da fé, isto é não me foi dada a comunicação directa com o Deus da religião onde socialmente me insiro.’
Esta interpretação da ‘fé como dom’ é frequente, espontaneamente assumida como a que melhor traduzirá o aforismo que o próprio Catecismo da Igreja Católica recorda, no número 153, em coerência, aliás, com o que afirma a carta aos Efésios, ‘Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus;. Assim também o Youcat, na sua edição portuguesa, enuncia, como primeira característica da fé que esta ‘é uma pura dádiva de Deus, que nós obtemos se intensamente a pedirmos’.
A compreensão do significado de ‘dom’ é que, no meu entender, carece de um esclarecimento, para que não se torne equívoca. Neste caso, a equivocidade está em compreender que ser dom signifique ‘privilégio’, ‘reserva exclusiva de alguns’.
A ser assim, estaríamos, na minha perspetiva, perante uma conceção teológica que me parece pouco consentânea com a Trindade-Amor transparente em toda a vida e palavras de Jesus Cristo. Ele veio para todos. Uma fé entendida como ‘dom’ que é privilégio de alguns não é coerente com tal entendimento.
Mas, então, resta conceber a fé como uma conquista humana?
Não me parece que devamos entender estar perante esta dilemática alternativa excludente de outras leituras.
Acho, aliás, que é precisamente a convicção de que essa seria a única alternativa que poderá estar na raiz da conclusão de que ‘dom’ deva interpretar-se como ‘privilégio’. Pensar-se-á que, assim, pode melhor explicar-se a não universalização da fé sem cair nos escolhos de um qualquer revisitado ‘pelagianismo’ (que, com Pelágio, monge contemporâneo de Santo Agostinho, defendia que a salvação se devia à liberdade humana, ofuscando o papel da graça).
Mas julgo que não temos de sucumbir ao reconhecimento de que só nos reste esta alternativa.
Afirmar que a fé é dom assegura uma outra e muito mais ‘fina’ característica da ação divina e do seu universal relacionamento com a humanidade: aquilo que se sublinha ao falar-se de ‘graça’ – a anterioridade ao próprio agir humano.
Evoco, para uma mais compreensível análise, uma experiência pessoal.
Vivi, no final da minha adolescência e início de juventude, os inúmeros dilemas com que se depara a fé pessoal, quando, autenticamente, se deixa inquietar pelo pensamento novecentista de Marx, Nietzsche, Feuerbach, e, posteriormente, de Freud, Camus, Sartre, etc.
Deixei-me, verdadeiramente, pelos meus dezoito, dezanove anos, inquietar e quase atormentar pelo penetrante e inquietante pensamento destes autores.
Andava nestas ‘inquietudes’ quando, na Casa Diocesana de Albergaria-a-Velha, participei num retiro de que guardo vívida memória.
O ambiente daquela casa permitiu-me uma vivência que assemelho à que terá assomado à história de André Frossard, ainda que, no meu caso, de modo menos luminoso e intenso. Recordo-me da experiência de dizer a mim mesmo que não continuaria a tentar confirmar se Deus existia: ficaria à espera – uma espera ativa, mas ‘espera’! Nesse momento, senti tranquilidade e constatei o que, agora, recupero para esta reflexão sobre a fé enquanto dom: quando desisti de procurar, percebi que Deus já lá estava. A condição de dom manifestava-se, não como reserva e um privilégio, mas como a afirmação da anterioridade de Deus em relação à busca, ao caminho feito pelo homem. Deus está, antes. Quando ‘chegamos’, Ele já está.
Aquele que desperta (talvez seja o verbo certo: despertar!) para a fé, constata que Deus já o esperava.
À maneira do Pai na parábola do ‘Filho Pródigo’ (Melhor será designá-la como ‘do Pai de Misericórdia’, pois é Este o centro de toda a narrativa, apesar de a personagem em maior destaque ser o filho mais novo): ‘Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.’ (Lc 15, 20).
O Pai esperava, aguardava e lança-se ao nosso pescoço, quando ‘despertamos’. Como se a ‘não fé’ fosse um dormir de que há que despertar, porque realidade é o que nos espera e estamos longe dela.
‘Graça’ é, precisamente, o modo de dizer ‘gratuito’, como ‘não devido’, ‘não exigível’ nem devido a ‘uma exigência’: é dado de modo totalmente sem reivindicação nem como recompensa. É tão imenso que escapa ao possível mérito que pudesse ter-se: é, como afirma o teólogo João Duque, próprio do ‘excesso do dom’. A fé participa desse ‘excesso do dom’. Não é, por isso, reserva de uns poucos, é realidade esperada para todos, mas diante da qual permanecem fechados os olhos de muitos (ou de todos, em múltiplos momentos da vida, pois a fé é caminho, encontro, é condição tensional, nunca acabada. E é por isso, também, que termina com o morrer, porque, então, já o encontro será efetivo, real, como se um estado de acordar permanente e definitivo.)
A fé é dom. Bem certo e obviamente. Mas não porque seja apenas para alguns; antes, porque o encontro com o transcendente se faz transparência efémera e ainda não definitiva, na História. Como se de uma translucência se tratasse: vemos, mas ainda não de modo total e perfeito. E, quando vemos, percebemos que a realidade vista já nos esperava; não fomos nós que a criámos nem a conquistámos: ela é dádiva, disponibilidade que nos aguarda. É dom!
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