Não gozaram com Deus. Gozaram connosco, e com razão!

Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelv

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Um humorista parte uma hóstia antes de a dar a uma senhora gorda e míope. Indignação nacional. Comunicados, vídeos em direto com uma vela acesa ao fundo, terços em riste. Houve até quem chamasse à equipa do Ruído “analfabetos religiosos”.

Curioso. O Ricardo Araújo Pereira licenciou-se na Universidade Católica. O Miguel Góis também. Se são analfabetos religiosos, alguém devia pedir de volta o dinheiro das propinas. Os Monty Python, avós disto tudo, saíram quase todos de Oxford e de Cambridge. Os humoristas que nos incomodam não são ignorantes. Ganham a vida a observar. Olham para nós com mais atenção do que a que nós damos aos outros.

E o que é que viram?

Viram o que fazemos sem dar por isso. O lugar da frente para o senhor doutor. O sorriso mais largo para a família que mais dá no ofertório. A rapariga bonita que lê sempre a leitura. E depois a outra, a gorda, a míope, a que se veste mal e fala alto, que recebe a comunhão como quem recebe o troco.

O humorista não partiu o Corpo de Cristo. Partiu um espelho. E nós ficámos furiosos com os cacos.

Sou padre. Se me ofendi? Um bocadinho. Depois passou-me, porque me reconheci.

Também me reconheço no padre de gel e franja, com ar de menino bem, incapaz de mudar uma lâmpada. Ri-me e a seguir fui abrir o armário. Quantos de nós andamos vestidos para uma corte que acabou há duzentos anos? Quantos parecemos tão frágeis, tão finos, tão distantes, que ninguém se atreve a pedir-nos ajuda com uma coisa concreta, seja uma renda, um despejo ou um filho que já não sai do quarto?

Há católicos capazes de escrever trinta parágrafos sobre a forma correta de comungar, na mão ou na boca, de joelhos ou de pé, e nem uma linha sobre o imigrante que paga trezentos euros por um colchão numa cave. Nem sobre a renda que duplicou. Nem sobre o carrinho do supermercado que já não se enche. O humorista exagera? Claro que exagera, é o ofício dele. Mas só exagera o que lá está.

O Bruno Nogueira disse uma coisa que custa ouvir: há mais energia para protestar contra um sketch, do que contra os abusos na Igreja e contra o que se fez às vítimas. Podemos achar injusto. Devíamos era perguntar por que razão soa verdadeiro a tanta gente.

O humor não nos tira a fé nem a identidade. Mostra-nos apenas como chegamos aos outros. E isso não é pouco. Para quem foi enviado a anunciar alguma coisa, é quase tudo.

Podemos continuar ofendidos nas redes, de vela acesa. Ou podemos fazer o que Jesus fazia: sentar-se à mesa com quem ninguém queria, deixar-se tocar, rir com os seus.

Duvido que Ele se tivesse ofendido com o sketch.

Mas desconfio que teria reparado na senhora míope. E que lhe teria dado a hóstia inteira.

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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