A violência que cresce nos ecrãs

Leonor João, Agência Ecclesia

Cresci na era da internet, que transformou a vida das pessoas, o modo como se relacionam, trabalham, estudam e até como escolhem divertir-se. À distância de um clique, é hoje possível chegar a todo o tipo de informação, comunicar com o outro lado do mundo, efetuar compras, viajar sem mapas, trabalhar a partir de qualquer lugar, ter acesso a músicas, filmes e séries… Um sem número de possibilidades que não se esgotam aqui.

São inegáveis as mais valias desta rede e a forma como veio facilitar o quotidiano. Viveria hoje sem internet? A pergunta parece inocente, mas confronta-nos com a dimensão que esta assume na nossa vida e como hoje já ninguém a dispensa.

As estatísticas indicam que passamos cada vez mais tempo online, nomeadamente nas redes sociais, onde os jovens dedicam cerca de 2,5 horas por dia, segundo dados da Marktest. Mas o que é que pesquisam? A que conteúdos assistem? Que influências recebem? E até que ponto aquilo que veem molda a sua forma de pensar e de agir?

Se, por um lado, a internet pode ser utilizada para simplificar processos, impulsionar a criatividade e o conhecimento, por outro, expõe a perigos, à dependência, à desinformação e a discursos de ódio e de violência, que deveriam ser fonte de preocupação para todos.

Nas redes sociais, assiste-se a uma realidade crescente de banalização de valores misóginos e propagação de ideias e comportamentos que desrespeitam, atacam e objetificam as mulheres. Há influenciadores digitais seguidos por milhares de jovens, que aproveitam a visibilidade que têm para promover estas ideologias, semeando narrativas extremistas entre os mais novos e reforçando as desigualdades de género.

Portugal não escapa a este fenómeno. “Mulher que namora, não sai à noite”. A frase foi dita por um influenciador digital e rapidamente instalou a polémica no ano passado. Um exemplo da amplificação da superioridade masculina e do perigo a que estão sujeitos adolescentes que, sem acompanhamento, navegam nas plataformas digitais e acreditam que estes comportamentos são aceitáveis.

Também em 2025 foi tornado público o caso de uma menor de 16 anos violada por um grupo de quatro influenciadores, em Loures. Mais chocante ainda foi o crime ter sido filmado e partilhado na plataforma Tik Tok, contabilizado mais de 30 mil visualizações sem que fosse denunciado às autoridades.

A nível internacional, a série “Adolescência” despertou o mundo para os riscos de deixar um adolescente sozinho no quarto, pensando que está num ambiente seguro, sem supervisionar o acesso às redes sociais e aos conteúdos nelas difundidos, que se afirmam cada vez mais prejudiciais.

É uma realidade preocupante aquela que se apresenta no espaço digital. Confunde-se a liberdade de expressão com formas de violência, os direitos humanos são atacados sem penalizações e os mais novos são arrastados para perigos evitáveis. É assustador pensar que a ameaça mudou de lugar: já não está apenas na rua, mas mora dentro de casa, nos ecrãs dos telemóveis. É urgente agir agora para garantir um futuro seguro para todos.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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