«A Eucaristia que celebramos chama-nos à coerência»

Homilia do bispo de Setúbal na Missa da Ceia do Senhor

Foto: Ricardo Perna/Diocese de Setúbal

Queridos irmãos e irmãs,

A Última Ceia, que hoje celebramos, terá sido, muito provavelmente, um dos últimos momentos de paz na vida de Jesus e dos seus discípulos. Conseguimos quase ver aquela sala, sentir o ambiente de alegria próprio de uma refeição partilhada — e ainda mais de uma ceia pascal. Havia festa, havia comunhão, havia esperança… mas, como tantas vezes acontece também connosco, essa esperança não foi compreendida na sua verdadeira profundidade. Nem sequer a sombra da traição de Judas foi, naquele momento, plenamente entendida.

A liturgia desta tarde ajuda-nos a entrar nesse mistério.

A primeira leitura, do Livro do Êxodo, recorda-nos a Páscoa do povo de Israel: uma noite de libertação, marcada pelo sangue do cordeiro, pela pressa da partida, pela confiança num Deus que salva. Não é apenas uma memória do passado — é um caminho novo que começa, uma vida que se abre à liberdade.

E São Paulo, na segunda leitura, transmite-nos aquilo que também ele recebeu: “Isto é o meu Corpo… Este cálice é a nova aliança no meu Sangue”. Na noite em que ia ser entregue, Jesus transforma a ceia pascal numa realidade nova e definitiva. Já não é apenas o cordeiro antigo — é Ele próprio que Se oferece. Cada Eucaristia torna presente este dom total.

E o Evangelho de São João leva-nos ainda mais fundo: “Amou-os até ao fim”. E como é que Jesus mostra esse amor? Ajoelhando-Se. Curvando-Se. Lavando os pés aos discípulos.

Este gesto, irmãos e irmãs, é absolutamente desconcertante.

Repetir os gestos de Jesus tem sido o oxigénio da vida da Igreja; e a graça dos Sacramentos é como o sangue que nos corre nas veias. Mas o lava-pés recorda-nos que não há Eucaristia verdadeira sem serviço concreto. Ajoelhar-se diante do outro, cuidar, servir, tornar-se pequeno para que o outro cresça — esta é a lógica de Deus.

Uma humildade que não é humilhação, mas amor em ação.

Voltemos então à mesa. Ao pão partido. Ao cálice partilhado.

Como deve ter sido surpreendente, para os discípulos, ouvir Jesus dizer que aquele pão era o seu Corpo, que aquele vinho era o seu Sangue. E, no entanto, há mais de vinte séculos que estes gestos e palavras são repetidos em todo o mundo, em todas as línguas. Um mistério que atravessa a história: sinal visível de uma realidade invisível, presença real de Cristo no meio de nós.

E por isso, a Eucaristia não pode deixar-nos indiferentes. Ela coloca-nos perguntas exigentes:

Como vivemos cada Eucaristia? Que lugar tem, na nossa vida, o sacramento da Reconciliação? Com que verdade nos aproximamos da comunhão? Sabemos que existem critérios, fundamentos na doutrina da Igreja. Mas, no mais profundo de nós, não corremos o risco de nos colocarmos do lado “certo”, separando o trigo do joio? Somos trigo? Somos joio?…

Talvez a única forma verdadeira de responder seja aquela que o Evangelho nos sugere: reclinar a cabeça sobre o coração de Jesus, como fez o discípulo amado. Só aí, nesse lugar de intimidade, podemos escutar, compreender e deixar-nos transformar. Não como juízes, mas como filhos amados.

E, neste contexto, ecoam as palavras do Papa Leão XIV: “A paz é uma presença e um caminho.” Também a comunhão — esta comunhão que hoje celebramos — é presença e caminho. Não é apenas um gesto litúrgico. É uma forma de viver.

Mas o mundo em que vivemos desafia-nos. Não podemos ignorar que, nesta mesma hora, há guerras a destruir vidas, famílias, povos inteiros. Em Jerusalém, lugar santo, não é possível viver plenamente estas celebrações em comunidade. A violência continua, a máquina da guerra não pára, e os mais frágeis continuam a sofrer.

E por isso, a pergunta torna-se inevitável: Como olhamos para estas guerras? E que guerras trazemos dentro de nós? Que conflitos alimentamos nas nossas relações, nas nossas palavras, nas nossas escolhas?

A Eucaristia que celebramos chama-nos à coerência: não podemos comungar o Corpo de Cristo e viver na lógica da divisão, da agressividade, da indiferença.

E, por fim, não podemos ignorar a figura de Judas. Também ele estava à mesa. Também ele foi escolhido. Também ele escutou, viu, caminhou com Jesus. E, no entanto, traiu.

Talvez a pergunta mais exigente desta noite seja esta:  em algum momento da nossa vida, somos também nós Judas? Traímos Jesus nas pequenas escolhas, nas omissões, nas incoerências? Traímos os outros, ferindo, julgando, afastando, usando a agressividade como linguagem?

Mas esta noite não termina na traição. Termina no amor.

Um amor que vai até ao fim. Um amor que não desiste. Um amor que perdoa.

Sabemos que o perdão terá sempre a última palavra. É desta redenção que nasce a Boa Nova. É este amor de Deus que nos salva, que nos surpreende, que nos levanta sempre de novo.

Confiamos este caminho a Santa Maria da Graça, nossa padroeira, para que nos ensine a viver com humildade, com fé e com disponibilidade para servir.

E, ao aproximarmo-nos do altar, façamo-lo com o coração aberto: para acolher este amor, para nos deixarmos transformar por ele, e para sermos, no meio do mundo, sinais vivos de uma Igreja que serve, que ama e que constrói a paz.

Amén.

Cardeal D. Américo Aguiar
Bispo de Setúbal

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