«O povo venezuelano sofreu imenso, mas é um povo de esperança e de fé», diz irmã Bernardita Meraz

Venezuela, 17 jul 2026 (Ecclesia) – A Superiora Geral e uma Conselheira Geral das Pias Discípulas do Divino Mestre, que estavam na Venezuela para uma visita à sua comunidade no país quando se deram os sismos, decidiram permanecer naquele território para apoiar a população afetada.
Segundo informa o secretariado português da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (FAIS), as religiosas tinham acabado o percurso na comunidade quando aconteceram os sismos, com magnitudes de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, a 24 de junho.
Com regresso a Roma previsto para o dia seguinte, as duas escolheram continuar na Venezuela para acompanhar tanto as irmãs da sua congregação como o povo venezuelano.
“Estamos aqui a rezar como Família Paulina, como Igreja”, explica a Superiora Geral, Irmã Bernardita Meraz, à Fundação AIS Internacional.
No meio da destruição e do sofrimento, a religiosa destaca o facto de “os sacerdotes falarem verdadeiramente com o coração, intercedendo pelo povo venezuelano” e como “as famílias rezam nas ruas, onde os edifícios ruíram”.
A irmã Bernardita Meraz refere que as pessoas afetadas “não se queixam contra Deus” e que “em vez disso, dizem: ‘Com Deus, vamos seguir em frente. Deus ajuda-nos, Nossa Senhora ajuda-nos e a solidariedade da Igreja ajuda-nos’”.
Quando os sismos atingiram a Venezuela, as irmãs encontravam-se em Barquisimeto, a cerca de 95 km do epicentro e, segundo o secretariado português da FAIS, “mesmo ali, viveram momentos de pânico nas casas e nas ruas”, tendo pouco tempo depois, se deslocado para zonas mais gravemente afetadas, como San Bernardino, a oeste de Caracas.
Segundo informa a fundação pontifícia, “juntamente com a Conselheira Geral, Irmã Lucía Filosa, e a religiosa venezuelana Soraya Herrera, levaram comida, roupa e medalhas da Divina Pastora – a devoção mariana cujo santuário se situa em Barquisimeto – aos socorristas e às vítimas do terramoto”.
“Perguntávamos: ‘Gostaria de uma medalha da Divina Pastora?’, e as pessoas respondiam: ‘Oh, a Divina Pastora veio ter comigo!’ Depois, pegavam nela e beijavam-na. Queriam que lha colocássemos imediatamente ao pescoço ou no pulso”, conta a irmã Bernardita.
Em San Bernardino, as irmãs acompanharam as equipas de resgate no Edifício Rita, de oito andares, onde já tinham sido recuperados vários corpos, que, na altura, ainda procuravam crianças que, segundo relatos, estavam a tomar banho quando os terramotos ocorreram, na esperança de que ainda estivessem vivas.
Alguns dos socorristas são pessoas que também perderam tudo e, mesmo assim, demonstram solidariedade para com aqueles que ainda se encontram presos sob os escombros”, indica a irmã Bernardita.
“Conheci um jovem e perguntei-lhe: ‘A tua família está aqui?’ Ele respondeu: ‘Todos são a minha família. A Venezuela é a minha família’”, relatou.
Segundo a fundação pontifícia, as religiosas também visitaram famílias que vivem em tendas improvisadas, com muitos a estarem acampados nos passeios depois de terem sido evacuados de edifícios aos quais não podem regressar em segurança.
“Parámos para falar com as pessoas, oferecer-lhes um pouco de atenção e dar-lhes uma bênção”, testemunhou a irmã.
A Superiora Geral afirma que “os venezuelanos têm uma beleza especial”.
Perguntam-nos: ‘Pode abençoar-me? Por favor, dê-me uma bênção’. Quando encontrava socorristas, pegava-lhes nas mãos e abençoava-os, dizendo: ‘A tua mão é a mão de Deus. Deus está a ajudar através de ti.’ Alguns choravam; outros inclinavam a cabeça num silêncio que se transformava em oração, escuta e na presença amorosa de Deus”, lembra.
A irmã acrescenta que as pessoas nas ruas agradecem às religiosas por estarem lá e pedem orações pelo país: “O povo venezuelano sofreu imenso, mas é um povo de esperança e de fé”.
Para apoiar a população, a Fundação AIS Internacional aprovou de imediato um pacote de ajuda de emergência no valor de 100.000€ destinado às necessidades mais urgentes das dioceses de La Guaira e Caracas e o secretariado português da fundação pontifícia lançou também uma campanha de ajuda de emergência.
O objetivo é apoiar os sacerdotes e as religiosas nas dioceses afetadas que, apesar de terem sofrido elas próprias graves perdas materiais, continuam a acompanhar as vítimas, a acolher famílias deslocadas e a proporcionar conforto espiritual às suas comunidades.
Os sismos que ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo e foram seguidos por centenas de réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, já provocaram mais de 4.900 mortos, incluindo pelo menos 120 portugueses e lusodescendentes, informa a Lusa.
LJ
