Igreja/Missões: Entre a «seca» de vocações portuguesas e a «pujança» de Angola, Sociedade da Boa Nova procura caminhos de futuro
15 Julho, 2026 9:56
Padre Adelino Ascenso sublinha necessidade de superar tendência contemporânea da «autorreferencialidade»
15ª Assembleia Sociedade Mssionária da Boa Nova; Foto Agência ECCLESIA/LS
Cucujães, 14 jul 2026 (Ecclesia) – A Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN) está a definir caminhos de futuro, a poucos anos de celebrar o seu centenário, entre a falta de vocações portuguesas e a pujança da Igreja em Angola, onde “todos os seminários estão cheios”.
“Não temos vocações portuguesas desde 2017”, assumiu o superior-geral, padre Adelino Ascenso, em declarações à Agência ECCLESIA durante a 15.ª Assembleia Geral da SMBN, que decorre em Cucujães.
O instituto conta atualmente com 89 membros, distribuídos por Portugal, Angola, Moçambique, Brasil e Japão.
Portugal acolhe cerca de 40 elementos, entre os quais quatro sacerdotes já “muito debilitados” que residem na estrutura de apoio junto à casa-mãe, em Cucujães (Oliveira de Azeméis).
A sociedade missionária mantém cinco seminários em funcionamento, distribuídos por Angola, Moçambique, Brasil e Portugal.
“Nós temos muitas vocações em Angola”, contrastou o padre Adelino Ascenso, destacando a realidade de uma “Igreja muito pujante” e uma nação com forte peso demográfico juvenil.
O Seminário Internacional de Valadares da SMBN recebe, atualmente, sete alunos de Teologia, quatro angolanos e três moçambicanos; em Moçambique, o instituto mantém cerca de uma dezena de missionários distribuídos por quatro dioceses, incluindo a região de Cabo Delgado, “muito perigosa, muito tensa”.
O superior-geral considera que o modelo de vida comunitária da SMBN pode funcionar como travão à tendência de isolamento e conflito, na Igreja e na sociedade.
“Se nós nos recolhermos na nossa autorreferencialidade, acabamos por secar”, sentenciou o padre Adelino Ascenso, apelando ao reforço da sinodalidade entre institutos e dioceses.
Esta fuga à autorreferencialidade impõe, segundo o entrevistado, o reforço do diálogo intercultural, inter-religioso e antropológico.
“O diálogo implica a escuta e nós temos que desenvolver em nós um grande exercício de escuta”, sustenta.
O mundo está numa modificação constante, uma alteração permanente e há novas realidades que para nós são grandes desafios.”
Sociedade Missionária da Boa Nova; Foto Agência ECCLESIA/LS
O responsável espera que a 15.ª Assembleia Geral da SMBN sirva para que surjam “novos rebentos”, falando do encontro como “uma meta e um ponto de partida” rumo ao centenário da sociedade de vida apostólica.
O superior-geral da Sociedade Missionária da Boa Nova adiantou que a preparação da assembleia contou com mensagens do Vaticano, nos últimos anos, que considerou “uma grande alegria e um grande estímulo”.
“O Papa Francisco assinou uma carta que me enviou, com duas páginas, e o cardeal Luis Antonio Tagle [pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização] enviou-me uma carta com três páginas, e também assinada por ele”, revelou, recordando o gesto do falecido pontífice.
Para o padre Adelino Ascenso, é preciso assumir “abertura a novos campos” e horizontes apostólicos, destacando a existência de “novos areópagos da missão”, entre os quais a inteligência artificial.
“Temos de ir mais à interioridade do que é a Igreja, do que é cada um de nós, do que é o ser humano, para estabelecermos um caminho que responda a essas realidades”, precisou.
Apontando ao centenário da SMBN, em 2030, o entrevistado deixa votos de que seja celebrado com “novo vigor para”.
“Um instituto sem história não existe, assim como uma pessoa sem história não existe. Alicerçados nessa história, podemos dar novo vigor à Sociedade Missionária, adaptando-a aos novos desafios”, concluiu o superior-geral.