Os nómadas paroquiais

Pe. Hugo Gonçalves, Diocese de Beja

Há alguns anos começámos a ouvir falar dos chamados “nómadas digitais”: pessoas que trabalham remotamente, recorrendo à internet, sem se fixarem num único lugar, deslocando-se de cidade em cidade, de país em país, levando consigo apenas o essencial para trabalhar e viver.

Embora o fenómeno seja relativamente recente no mundo laboral, existe uma realidade semelhante que se tem tornado cada vez mais visível na vida da Igreja, sobretudo nos grandes centros urbanos. Poderíamos chamar-lhes “nómadas paroquiais”.

Na verdade, este não é um fenómeno inteiramente novo. Já no século VI, São Bento identificava uma realidade parecida quando, no primeiro capítulo da sua Regra, descrevia os diversos tipos de monges. Depois de elogiar os cenobitas, que viviam estáveis numa comunidade sob uma regra e um abade, criticava os chamados “giróvagos”, monges que passavam a vida a circular de mosteiro em mosteiro, sem raízes nem compromisso duradouro com uma comunidade concreta. São Bento não lhes poupava críticas, precisamente porque via nessa instabilidade um obstáculo ao crescimento espiritual.

Guardadas as devidas proporções, algo semelhante acontece hoje em muitas das nossas paróquias.

Existe um primeiro tipo de nómada paroquial: aquele que evita comprometer-se com uma comunidade concreta. Circula entre igrejas e Missas conforme o horário mais conveniente, a homilia mais interessante, o coro mais agradável ou o ambiente que melhor corresponde às suas preferências pessoais. Num domingo está numa paróquia; no seguinte, noutra. Participa, mas não pertence. Assiste, mas não se envolve. Está presente, mas permanece desconhecido.

Naturalmente, não há nada de errado em participar ocasionalmente noutra comunidade, sobretudo por razões familiares, profissionais ou pastorais. A riqueza da Igreja permite-nos sentir em casa em qualquer lugar onde a Eucaristia é celebrada. O problema surge quando a procura constante do que mais agrada substitui a pertença a uma comunidade concreta.

Mas existe ainda um segundo tipo de nómada paroquial: aquele que segue os padres.

Neste caso, a ligação principal não é à comunidade nem sequer à paróquia, mas à figura do sacerdote. Frequenta determinada igreja porque aprecia aquele padre, a sua personalidade, a sua forma de pregar, a sua sensibilidade pastoral, o seu rigor ou, pelo contrário, a sua permissividade. Quando o sacerdote é transferido, muda também de paróquia. A fidelidade não é tanto à comunidade como à pessoa.

Este fenómeno não é novo. Já nas primeiras comunidades cristãs, São Paulo o denunciava com firmeza. Alguns afirmavam: “Eu sou de Paulo”; outros: “Eu sou de Apolo”; outros ainda: “Eu sou de Cefas”. E o Apóstolo respondia com uma pergunta desarmante: “Acaso Cristo está dividido?” (cf. 1 Cor 1, 12-13). O cristão não pertence a Paulo, nem a Apolo, nem a Pedro. O cristão pertence a Cristo.

Os sacerdotes são instrumentos de Deus e desempenham um papel insubstituível na vida da Igreja. Alguns possuem especiais dons de pregação, outros de acolhimento, outros de formação ou de acompanhamento espiritual. Devemos agradecer ao Senhor esses dons. Mas quando a nossa adesão à Igreja depende excessivamente das qualidades de um determinado sacerdote, corremos o risco de colocar a pessoa no lugar que pertence a Cristo.

A vida cristã sempre precisou de raízes. A fé cresce numa comunidade concreta, feita de rostos conhecidos, de relações construídas ao longo do tempo, de alegrias partilhadas e de dificuldades enfrentadas em conjunto. É nessa comunidade que recebemos os sacramentos, que somos acompanhados nos momentos decisivos da vida, que aprendemos a servir, que crescemos na fé e que descobrimos que a Igreja é mais do que um lugar onde assistimos à Missa: é uma família espiritual.

Nenhuma comunidade é perfeita. Nenhum pároco é perfeito. Haverá homilias mais inspiradas e outras menos conseguidas. Haverá decisões pastorais com as quais concordamos mais ou menos. Haverá pessoas que nos agradam e outras que nos desafiam. Mas é precisamente nesse contexto real, e não idealizado, que Deus nos chama a viver a comunhão e a crescer na caridade.

Num tempo marcado pela mobilidade, pela lógica da escolha permanente e pela procura constante do que melhor satisfaz os nossos gostos, a pertença estável a uma comunidade cristã torna-se um verdadeiro testemunho evangélico. Afinal, a Igreja não é um catálogo de serviços religiosos à medida do consumidor. É o Corpo de Cristo, no qual cada baptizado é chamado a ocupar o seu lugar.

Os nómadas digitais podem fazer sentido no mundo do trabalho. Os nómadas paroquiais, porém, dificilmente encontrarão a plenitude da vida cristã sem criarem raízes. Porque a fé não amadurece apenas onde somos bem servidos; amadurece sobretudo onde aprendemos a pertencer.

Pe. Hugo Gonçalves
Diocese de Beja

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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