Corpo de Deus: «Levar o Santíssimo Sacramento pelas ruas é um ato profundamente teológico», afirma bispo de Angra

D. Armando Esteves Domingues presidiu à Missa da solenidade na catedral, antes da procissão pela cidade

Foto: Igreja Açores/RH

Angra do Heroísmo, Açores, 04 jun 2026 (Ecclesia) – O bispo de Angra celebrou hoje a Missa da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, na Sé diocesana, nos Açores, destacando que “levar o Santíssimo Sacramento pelas ruas é um ato profundamente teológico”.

“Cristo passa pelas nossas estradas humanas, pelas alegrias e feridas das famílias, pelas preocupações do trabalho, pelas doenças escondidas, pelas solidões silenciosas, pelas guerras, injustiças, pobrezas e cansaços do nosso tempo”, referiu D. Armando Esteves Domingues, na homilia enviada à Agência ECCLESIA.

O responsável católico presidiu à celebração, que foi seguida da procissão do santíssimo, que segundo realçou, “é também o olhar de Deus sobre a cidade dos homens”, o mundo que todos habitam “de que a Eucaristia é modelo”.

“Na Missa, Cristo reúne-nos. Na Procissão, Cristo envia-nos. Na Missa, Ele faz-Se pão. Na Procissão, leva esse pão pelas ruas, pelas casas, pela vida concreta das pessoas. É como se a Igreja dissesse hoje ao mundo: Aquele que adoramos no altar não quer ficar fechado na igreja; quer caminhar com a humanidade”, disse.

Na homilia, o bispo salientou que a “Eucaristia não é apenas presença real de Cristo, é também fonte real da Igreja”: “Comungando o único pão, tornamo‑nos o único corpo de Cristo e sacramento para o mundo”.

“Recebemos o Corpo de Cristo para quê? Para sermos Corpo de Cristo!”, realçou D. Armando Esteves Domingues, que acrescentou que “a comunhão eucarística constrói uma comunhão eclesial chamada a continuar, na caridade, a própria vida do Senhor”.

“Por isso a Eucaristia exige que a Igreja se torne pão partido para os pobres, vinho derramado em serviço gratuito e amoroso, mesa aberta a todos os que têm fome de Deus e de justiça”, defendeu.

A intervenção do bispo diocesano sublinhou que cada celebração eucarística é “um duplo nascimento: nasce de novo a presença sacramental de Cristo, e nasce de novo a sua Igreja, chamada a viver aquilo que recebe”.

“Esta consciência atravessa os séculos: não se pode comungar verdadeiramente Cristo sem se deixar transformar em comunhão com os irmãos, sobretudo com os mais frágeis”, frisou.

D. Armando Esteves Domingues lembrou a encíclica “Magnifica Humanitas” (a magnífica humanidade), escrita pelo Papa, que considera ser “uma autêntica carta de amor a esta humanidade ameaçada”, lembrando que, numa parte dela, Leão XIV segue “duas linhas bíblicas, uma sombria e outra luminosa: a torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém pelo profeta Neemias”.

“Muitos e muitos anos foram dedicados à construção da torre. Aos olhos dos construtores, um tijolo tornou-se então mais precioso do que um ser humano; se um homem caía e morria, ninguém se importava, mas se caía um tijolo, todos choravam”, recordou.

Foto: Igreja Açores/RH

O bispo de Angra ressaltou que o documento “dirige-se àqueles que continuam a esperar e a acreditar nesta humanidade”.

“Hoje, vamos ser enviados às ruas e pessoas da nossa cidade. Que cidade queremos? Uma babel dos poderosos ou uma cidade reconstruída nos valores perenes da fraternidade e da justiça, uma cidade construída por todos?”, questionou.

No final da homilia, o bispo diocesano indicou que não se leva apenas “a hóstia consagrada pelas ruas”: “Somos chamados a levar a lógica da Eucaristia que diz: Deus ama este mundo! Ama-o tanto que nos chama e envia para construir com Ele o Reino”.

Após a Missa, a procissão do Santíssimo Sacramento “percorreu a baixa de Angra do Heroísmo, reunindo todas as irmandades, confrarias e paróquias da Ouvidoria de Angra, numa das mais expressivas manifestações públicas de fé da Igreja açoriana”, informa o portal ‘Igreja Açores’.

A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo celebra-se no 60.º dia após a Páscoa, uma quinta-feira, ligando-se assim à Última Ceia; nos países onde não é feriado civil, a celebração assinala-se no próximo domingo.

LJ

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