Entre o altar e o algoritmo: A Igreja não pode falhar na batalha digital

Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Foto: Agência ECCLESIA/MC

A presença católica no mundo digital não pode ser propaganda, vaidade ou trincheira ideológica. Tem de ser testemunho, discernimento e defesa radical da dignidade humana.

A grande disputa do nosso tempo já não se trava apenas nas ruas, nos parlamentos ou nas universidades. Trava-se, cada vez mais, nos ecrãs. Nos algoritmos. Nas redes sociais. Na economia da atenção. Na forma como vemos o mundo, reagimos aos outros, consumimos informação, construímos identidade e, até, vivemos a fé.

Por isso, a questão digital deixou de ser um tema secundário para a Igreja Católica. Não se trata apenas de saber se a Igreja deve estar na Internet. Essa pergunta já vem tarde. A verdadeira pergunta é outra: que tipo de presença cristã estamos a construir no mundo digital? Uma presença que humaniza ou que agride? Que ilumina ou que manipula? Que aproxima ou que radicaliza? Que testemunha Cristo ou que apenas alimenta egos religiosos?

A encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, oferece uma chave decisiva para este discernimento. Perante a inteligência artificial, a digitalização e o poder crescente das plataformas tecnológicas, o Papa coloca a humanidade diante de uma escolha simbólica e espiritual: erguer uma nova Babel ou reconstruir Jerusalém. Babel representa a tentação do domínio, da uniformização, da técnica sem alma, da ambição de controlar tudo e todos. Jerusalém, pelo contrário, representa a construção paciente da comunhão, da responsabilidade partilhada, da justiça e da fraternidade.

Esta alternativa aplica-se também à presença católica no universo digital. A Internet não é uma simples ferramenta neutra, nem uma capela virtual, nem uma montra onde se expõe uma identidade religiosa para consumo público. É um contexto existencial. Um território onde se formam consciências, se criam comunidades, se destroem reputações, se fabricam inimigos e se molda o imaginário coletivo.

A fé cristã não pode entrar nesse espaço com lógica de propaganda, ansiedade de visibilidade ou obsessão de conquista. O cristianismo não precisa de ocupar território digital como quem ocupa uma praça. Precisa de testemunhar, com inteligência e coerência, que a verdade ainda importa, que a dignidade humana não é negociável e que o “nós” deve vencer a tirania do “eu”.

O problema é que o digital amplificou algumas das patologias mais profundas da nossa época: narcisismo, polarização, superficialidade, tribalismo, agressividade e culto da emoção instantânea. Também no mundo católico. Multiplicam-se páginas, canais e plataformas que se apresentam como defensoras da fé, mas vivem da suspeita, da denúncia permanente, do ressentimento e da simplificação grosseira da doutrina. Dizem combater a confusão, mas produzem ruído. Dizem defender a tradição, mas desprezam a caridade. Dizem proteger a verdade, mas rejeitam a complexidade. Não é evangelização. É intoxicação religiosa.

Há hoje um anti-intelectualismo militante que atravessa certos ambientes digitais católicos. Um discurso que transforma o Concílio Vaticano II em inimigo, a sinodalidade em ameaça, o diálogo em cedência e o pensamento crítico em traição. A fé, quando capturada por esta lógica, deixa de ser encontro com Cristo e passa a ser arma identitária. A comunidade transforma-se em facção. A ortodoxia converte-se em pose. A caridade desaparece, substituída por uma suposta pureza doutrinal que fere, exclui e humilha.

A Magnifica Humanitas recorda que a técnica não é neutra porque transporta sempre uma visão do ser humano. O mesmo se deve dizer da comunicação digital. Cada publicação, cada comentário, cada vídeo, cada partilha transporta uma antropologia. Pode tratar o outro como irmão ou como alvo. Pode procurar a verdade ou apenas a vitória. Pode construir comunhão ou alimentar uma nova Babel feita de gritos, vaidades e cliques.

É aqui que a Igreja tem uma responsabilidade incontornável. Não basta estar presente no digital. É preciso formar para o digital. Educar para o discernimento. Ensinar a distinguir verdade de manipulação, zelo apostólico de exibicionismo, coragem profética de agressividade, tradição viva de nostalgia ideológica.

A presença católica na sociedade em rede deve ser mais do que conteúdo religioso publicado em plataformas digitais. Deve ser uma forma de habitar o mundo. Uma forma cristã de comunicar, discordar, corrigir, escutar e propor. Se a Igreja acredita que a pessoa humana é imagem de Deus, então não pode aceitar uma comunicação que transforme pessoas em caricaturas, adversários em monstros e debates em campos de batalha.

A questão é especialmente urgente junto dos jovens. Para muitos, o primeiro contacto com a fé já não acontece numa paróquia, numa catequese ou numa família praticante. Acontece num vídeo curto, num podcast, num comentário, numa página de Instagram, num canal de YouTube. E aí pode encontrar-se uma porta para Deus — ou uma fábrica de cinismo, medo e radicalização.

Por isso, os católicos no espaço digital precisam de menos espetáculo e mais testemunho. Menos indignação performativa e mais profundidade. Menos vaidade apologética e mais humildade evangélica. Menos guerra cultural e mais civilização do amor. A verdade cristã não precisa de ser berrada para ser firme. A doutrina não precisa de ser cruel para ser clara. A fidelidade à Igreja não exige transformar o outro em inimigo.

No fundo, a pergunta que se impõe é simples: estamos a usar o digital para revelar o rosto de Cristo ou para projetar as nossas feridas, ressentimentos e ambições?

Se a Igreja quiser ser fiel à sua missão neste tempo, deve recusar tanto o entusiasmo ingénuo perante a tecnologia como o medo estéril diante da mudança. O caminho não é fugir do digital, nem idolatrá-lo. É habitá-lo com alma. É transformar a rede em lugar de encontro, não de captura. É fazer da comunicação uma forma de serviço, não de poder.

A Magnifica Humanitas desafia-nos a permanecer humanos numa época em que tudo parece empurrar-nos para a velocidade, a reação e a desumanização. Esse desafio é também eclesial. A Igreja será credível no mundo digital não quando tiver mais seguidores, mais visualizações ou mais influência, mas quando conseguir mostrar que ainda é possível comunicar com verdade, discordar com respeito, evangelizar sem manipular e estar presente sem se vender à lógica do espetáculo.

Entre o altar e o algoritmo, joga-se hoje uma parte decisiva da missão cristã. E a escolha permanece aberta: Babel ou Jerusalém. Ruído ou comunhão. Poder ou serviço. Vaidade ou testemunho.

Num mundo saturado de vozes, a Igreja não precisa de ser apenas mais uma presença. Precisa de ser consciência. E, sobretudo, precisa de recordar que nenhuma tecnologia salvará o humano se o humano perder a alma.

 

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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