Padre Ricardo Figueiredo, Patriarcado de Lisboa

No final do mês de março, foi apresentado, no Conselho Superior de Segurança Interna, o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025. Trata-se de um documento relevante, não apenas para especialistas, mas para todos os cidadãos atentos à salvaguarda de um dos bens mais preciosos da vida em sociedade: a segurança.
Entre os vários dados e análises, há um elemento que sobressai — e que merece particular atenção — pela diferença em relação ao relatório do ano anterior. Lê-se na página 31 do RASI 2025: «Verificou-se um aumento da presença de utilizadores portugueses, sobretudo menores e jovens adultos, em grupos online de matriz aceleracionista e neonazi […], bem como em grupos satânicos, incel e niilistas ou pós-ideológicos, que glorificam a violência». Mais adiante, o mesmo documento acrescenta: «Importa sublinhar que alguns utilizadores portugueses destes canais de propaganda já não são meros consumidores, mas também disseminadores de conteúdos violentos […] podendo mesmo contribuir para o recrutamento e o planeamento de novos atentados terroristas».
O relatório, no seu conjunto, exigiria uma análise alargada. Mas há um ponto que não pode ser ignorado: a referência explícita ao crescimento de grupos satânicos. Não se trata de um detalhe marginal. Trata-se de um sinal. E os sinais, quando são claros, exigem leitura.
Para os crentes, a interpelação é imediata. A tradição cristã nunca tratou a realidade do mal como metáfora inofensiva. Como recordava o Papa Francisco: «O nosso caminho para a santidade é também uma luta constante» (Gaudete et Exsultate, 162). A linguagem pode soar estranha a ouvidos contemporâneos, mas o conteúdo permanece atual: há uma dimensão real de combate espiritual, uma resistência concreta ao mal, que não pode ser diluída em categorias meramente psicológicas ou simbólicas. A fé cristã afirma, com sobriedade, a existência de uma oposição real a Deus e ao bem, que atravessa a história e toca o coração humano.
Mas também para os não crentes este fenómeno levanta questões incontornáveis. Mesmo deixando de lado qualquer consideração teológica, importa perguntar: que significa o surgimento e crescimento de grupos que se identificam explicitamente com a exaltação do mal, da violência e da destruição? Que vazio cultural, ético ou existencial permite que tais propostas encontrem eco, sobretudo entre jovens?
A intuição de C. S. Lewis permanece surpreendentemente atual. Em 1942, escrevia: «Há dois erros, iguais e opostos, em que a nossa raça pode incorrer quando de demónios se trata. Um é descrer da sua existência. O outro é crer neles e sentir por eles um interesse excessivo e doentio. A eles, ambos os erros lhes são agradáveis» (Vorazmente Teu, Grifo, 1995, p. 11). Entre a negação ingénua e a obsessão acrítica, abre-se um espaço onde o mal pode agir com maior eficácia: quando deixa de ser pensado, mas continua a ser vivido.
Talvez seja isso que estamos a assistir. Durante décadas, considerou-se que a linguagem sobre o mal pessoal, sobre o demónio, pertencia a uma fase pré-crítica da humanidade. Procurou-se relegá-la para o passado, como resíduo de uma visão do mundo ultrapassada. Contudo, a realidade tem uma forma persistente de regressar – não tanto sob a forma de afirmações teóricas, mas através dos seus efeitos concretos. E quando esses efeitos chegam ao ponto de merecer referência num relatório nacional de segurança interna, deixam de poder ser ignorados.
Este facto deveria, pelo menos, suscitar uma interrogação séria sobre o tipo de sociedade que estamos a construir. A exclusão sistemática de Deus do espaço público, a redução da religião à esfera estritamente privada, foram muitas vezes apresentadas como garantias de neutralidade e progresso. Mas a experiência mostra que o vazio não permanece vazio por muito tempo.
Quando o sobrenatural é afastado, não ficamos simplesmente com o natural. Frequentemente, abre-se espaço ao antinatural – a formas de pensamento e de vida que rompem com a dignidade da pessoa humana e com os fundamentos mais básicos da convivência.
Sem alarmismos fáceis, mas também sem ingenuidades, a referência a grupos satânicos no RASI deve ser lida como um sinal de alerta. Não apenas sobre questões de segurança, mas sobre uma crise mais profunda: a crise do sentido, do bem e da verdade.
Perante isto, a questão decisiva permanece: que sociedade queremos construir? Uma sociedade onde o mal se banaliza e se organiza, ou uma sociedade onde há uma opção clara, firme e consequente pelo bem – pela dignidade de cada pessoa, pelo respeito mútuo, pela construção paciente de uma verdadeira civilização do amor?
A resposta não pode ser adiada.
Pe. Ricardo Figueiredo
Diretor | Departamento de Comunicação do Patriarcado de Lisboa
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