Homilia do arcebispo de Évora na Vigília Pascal – Sábado Santo

“Ide depressa contar aos discípulos que Ele ressuscitou dos mortos […]” (Mt. 28,7)

Foto: Graziella Camara/Comunidade Canção Nova – Évora (arquivo 2025)

1. Esta é a noite da verdadeira libertação. “Noite em que Jesus rompeu o inferno, ao ressurgir vencedor da morte”. Nesta noite a Igreja, permanece à espera da ressurreição do Senhor. A procissão luminosa que realizamos ao entrar na igreja relembra-nos o caminho do povo de Deus rumo à terra prometida e simboliza, igualmente o caminho da humanidade, que nas noites escuras da história busca a luz, a reconciliação entre os povos e a paz universal.

Eis porque, mesmo em meio a todas as tragédias que afligem o nosso mundo, a chegada da Páscoa é celebrada no coração da noite, com antigos ritos cheios de beleza poética e de força transformadora. O “Círio Pascal”, ao comunicar a sua chama às velas que se acendem na escuridão da noite torna-se imagem do Cristo Ressuscitado, que rompe as trevas da morte e comunica a sua vida sem a diminuir e simultaneamente compartilha o seu destino glorioso com toda a humanidade.

Ouvimos nas leituras proclamadas que Israel foi guiado de noite por uma coluna de fogo e durante o dia, por uma nuvem. A nossa coluna de fogo, a nossa nuvem é Cristo Ressuscitado, simbolizado pelo círio pascal aceso. Cristo é a luz! Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida! Seguindo-o, tendo fixo o olhar Nele, não andaremos nas trevas (Jo. 8,12).

 

2. Cito a Homilia do Papa Francisco, pronunciada na Vigília Pascal do ano 2022, dia 16 de abril: « Muitos escritores evocavam assim a beleza das noites iluminadas pelas estrelas. Ao contrário, as noites de guerra são atravessadas por rastos luminosos de morte. Nesta noite, irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pelas mulheres do Evangelho, para descobrir com elas a aurora da luz de Deus que brilha nas trevas do mundo. Ǫuando já a noite ia clareando e irrompiam, silenciosas, as primeiras luzes da aurora, aquelas mulheres foram ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus. E lá vivem uma experiência que as turvou: primeiro, descobrem que o sepulcro está vazio; depois, veem duas figuras em trajes resplandecentes que lhes dizem que Jesus ressuscitou; imediatamente, correm a anunciá-lo aos outros discípulos (cf. Lc 24, 1-10). Veem, escutam, anunciam: com estas três ações, entremos também nós na Páscoa do Senhor».

3. Ouvimos no Evangelho proclamado que as mulheres caminham muito cedo em direção ao sepulcro do Senhor (Mt. 28,1)). Elas fazem isto porque o buscam para escutar novamente a sua Palavra. Seguir Cristo significa estar atento à sua palavra. Assim compreendemos porque é necessário participarmos da liturgia dominical, semana após semana. Para que entremos numa verdadeira familiaridade com a Palavra. Não vivemos somente do pão material, vivemos também da Palavra de Deus que nos anuncia os valores do seu Reino. Seguir Cristo implica estarmos atentos aos mandamentos de amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Seguir Cristo significa ter compaixão dos que sofrem. Seguir Cristo implica amar a sua Igreja (Fl. 2,5-11). Caminhando assim, acendemos pequenas luzes no mundo, afastamos as trevas da história da humanidade.

O caminho de Israel conduziu-o à terra prometida. A liturgia pascal que agora celebramos conduz-nos a Cristo. E nesta caminhada acompanham-nos os sacramentos da iniciação cristã: o Batismo, o Crisma e a Santa Eucaristia. Assim, a Igreja diz- nos que estes sacramentos são a antecipação do mundo novo. Este Jesus que as mulheres procuraram de manhã e que foi anunciado pelo anjo como ressuscitado, encontramo-lO na Igreja, através dos Sacramentos que Ele nos deixou.

A ressurreição de Cristo não é simplesmente uma recordação de um fato passado! É o glorioso Dom do amor de Deus. Cabe-nos a nós agora apropriarmo-nos desse dom e vivermos na verdade do nosso Batismo. A noite pascal convida-nos cada ano a através da renovação das Promessas Batismais a imergirmo-nos novamente nas águas do Batismo, a passar da morte para a vida, a tornarmo- nos verdadeiros cristãos.

É noite. No entanto, não temamos a sua escuridão. Logo contemplaremos a Luz! Ouçamos o que São Paulo nos diz na Carta aos Romanos (6,11): “Assim, vós também considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo”. Hoje a Igreja proclama em todos os cantos do mundo e a todos os humanos: Despertemos do nosso cristianismo cansado, rotineiro e por vezes sem motivação. Levantemo-nos e sigamos Cristo, a verdadeira luz, a verdadeira vida, sejamos discípulos de Jesus nas sendas do Sim entregue de Maria, nossa Mãe, educadora, catequista e Mestra.

Façamo-nos Igreja Sinodal onde todos cabem e para todos há Missão!

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

Dia 04-IV-2026

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