«Um militar não quer a guerra, quer que a guerra seja desnecessária», refere D. Sérgio Dinis

Lisboa, 05 abr 2026 (Ecclesia) – O bispo das Forças Armadas alertou hoje para as implicações morais do aumento de gastos militares na Europa, propondo um debate sobre um novo modelo de serviço militar obrigatório em Portugal e sublinhando a necessidade de uma cultura de paz.
“Um militar não quer a guerra, quer que a guerra seja desnecessária. E é isso que a Páscoa anuncia, que a violência não tem a última palavra”, disse D. Sérgio Dinis, convidado da entrevista semanal ECCLESIA/Renascença, neste domingo.
“Quem convive com o risco, quem já viveu o sofrimento de perto, não precisa de convencer-se sobre o valor da paz, já o sabe na sua própria existência, no seu próprio corpo”, acrescentou.
O contexto festivo da Páscoa sustenta a esperança na superação dos conflitos globais, transmitindo a certeza de que a agressão armada constitui uma realidade transitória.
“O que a Ressurreição nos diz, e diz-nos com uma clareza que nenhuma guerra consegue apagar, é que a morte não tem a última palavra”, indica o responsável pelo Ordinariato Castrense, da Igreja Católica, em Portugal.
D. Sérgio Dinis reagiu à meta de cinco por cento do PIB para a Defesa exigida pela NATO, sublinhando a necessidade de questionar o modelo de sociedade em construção.
Quando ouço falar em 5% do PIB em defesa, a primeira pergunta que me ocorre não é financeira, é acima de tudo moral. O que estamos a construir? Uma Europa mais segura ou uma Europa que aprendeu apenas a linguagem da força?”
O prelado reconhece a exigência de investimento para colmatar o desgaste de equipamentos e a subvalorização dos profissionais, mas adverte para os riscos da lógica de intimidação permanente apontada pelo Papa Leão XIV.
“Se os 5%, e gostaria de deixar isto bem claro, forem apenas para mais canhões e mais mísseis e menos diálogo, teremos países mais armados e um mundo menos seguro”, advertiu D. Sérgio Dinis.
O bispo das Forças Armadas abordou o debate sobre o regresso do serviço militar obrigatório, sustentando que “este tema tem de entrar na discussão pública”.
“É impensável voltar um serviço militar obrigatório nos moldes de 1980 ou de 1990, mas se calhar precisamos de um serviço militar obrigatório que ajude as novas gerações a ganharem alguns valores e um certo patriotismo”, susentou.
A mensagem do bispo castrense sublinha a exigência da verdade no contexto militar, advertindo para os perigos da manipulação narrativa e da desinformação em cenários de conflito.
“Uma arma que fere, que destrói, que mata. E num conflito armado, uma narrativa falsa pode custar vidas, sem dúvida alguma. Pode justificar o injustificável. A mentira, pode transformar vítimas em culpados e agressores em heróis”, observa.
A celebração da Páscoa junto das forças nacionais destacadas conta com o acompanhamento de vários capelães no terreno, num esforço que procura apoiar os profissionais e mitigar o peso da espera enfrentado pelas famílias.
“O militar parte com uma missão clara, mas a mulher, o marido, os filhos ficam em casa e esses não têm missão, têm apenas uma coisa, esperar, esperar. E a espera sem estrutura, sem sentido, pode ser devastadora”, realça o entrevistado.
D. Sérgio Dinis valoriza a vocação militar como um serviço de proteção e amor ao próximo, definindo cada católico integrado nas Forças Armadas a ser “artesão da paz.”
O responsável qualifica a dedicação dos profissionais destacados no estrangeiro como um sinal visível da mensagem litúrgica destes dias, assinalando a entrega diária em favor da segurança de outras populações.
“Neste momento há portugueses em missão longe de casa. Na República Centro-Africana, na Lituânia, noutros lugares do mundo, em Moçambique. Estão lá para que os outros possam viver em paz. Isso é, no fundo, um gesto pascal”, afirma.
Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (ECCLESIA)
