Num mundo ainda fortemente marcado por o som das armas, procuramos hoje o significado da paz. Neste Domingo da Páscoa, é nosso convidado o bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)
Nos últimos dias e nos próximos dias também vai presidir a celebrações em vários locais, neste contexto do Tríduo Pascal, da Páscoa, como é que esta mensagem de Cristo ressuscitado, do Príncipe da Paz, como tantas vezes se diz, é acolhida e vivida por homens cuja missão muitas vezes exige o uso da força?
É uma pergunta que me toca muito, porque é uma pergunta que eu próprio me faço cada vez que celebro numa unidade militar, num comando da GNR ou num comando da PSP. E o que encontro, invariavelmente, surpreende quem está por vezes de fora. Encontro homens e mulheres com uma sensibilidade espiritual muito profunda, precisamente porque conhecem a fragilidade da vida de uma forma que a maioria das pessoas nunca vai conhecer.
Quem convive com o risco, quem já viveu o sofrimento de perto, não precisa de convencer-se sobre o valor da paz, já o sabe na sua própria existência, no seu próprio corpo.
Muitas vezes é isso que o move, não é?
Exatamente, e por isso, a mensagem de Cristo ressuscitado, Príncipe da Paz, não é recebida por eles como uma contradição com a sua profissão. É recebida como um horizonte, aquilo que o seu serviço, no fundo, aponta. Um militar não quer a guerra, quer que a guerra seja desnecessária. E é isso que a Páscoa anuncia, que a violência não tem a última palavra.
O que me pedem nas celebrações, para além de algum ensinamento, alguma doutrina, alguma palavra de esperança, é acima de tudo presença. É alguém que os olhe e diga, o que fazeis, o vosso trabalho, tem sentido, faz sentido, tem dignidade e há um Deus que vos acompanha também nos momentos mais difíceis.
Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, propôs aos militares e às forças de segurança um caminho de conversão à verdade. Numa era que é marcada pela desinformação e por narrativas de guerra manipuladas, qual é a importância prática de procurar e defender esta verdade no dia-a-dia de um militar?
Vivemos num tempo em que a palavra foi profundamente ferida. A desinformação, as meias-verdades, as narrativas construídas para manipular, tudo isso não é apenas um problema, eu diria, político ou mediático, é acima de tudo um problema moral.
E os militares e as forças de segurança estão na linha da frente desse problema. Porque as suas decisões têm consequências reais na vida das pessoas. Por isso, disse na mensagem que a palavra, quando usada sem verdade, pode tornar-se uma arma. Uma arma que fere, que destrói, que mata. E num conflito armado, uma narrativa falsa pode custar vidas, sem dúvida alguma. Pode justificar o injustificável.
A mentira, pode transformar vítimas em culpados e agressores em heróis. Por isso, o que pedi, concretamente, foi rigor. Dizer a verdade a partir dos factos, não de suposições, com linguagem precisa, procurar não descontextualizar o que se ouve ou o que se vê. Isto pode parecer muito simples, mas numa cultura onde a insinuação, a suspeita, se tornar a moeda corrente, é um ato de coragem.
E há uma dimensão ainda, eu diria, mais interior. Antes de exigir verdade ao mundo, é preciso procurá-la em si próprio. Quem sou eu realmente? Sou coerente entre o que digo e o que faço?
Esta lucidez acho que é o fundamento de toda a ética profissional. Um militar que não se conhece a si próprio, que não tem esta honestidade interior, dificilmente resistirá às pressões que o mundo lhe vai colocar.
Por isso, a verdade não é apenas um valor abstrato, eu diria, é uma escolha que se tem que fazer diariamente, a cada instante. É uma forma de estar em qualquer profissão, mas particularmente também quem tem que garantir a segurança.
Tem-se discutido o regresso do serviço militar obrigatório. Que opinião tem o D. Sérgio?
Primeiro, eu acho que este tema tem de entrar na discussão pública. Com certeza que há pessoas bem mais preparadas, com mais conhecimentos do que eu, para falar sobre a matéria. O que me parece, depois do serviço militar obrigatório que nós tivemos, e muito ligado à nossa guerra colonial, viu-se o serviço militar obrigatório como algo a eliminar e ser impensável.
Um resquício de um regime que já tinha sido superado?
Exatamente. Agora, penso que é impensável voltar um serviço militar obrigatório nos moldes de 1980 ou de 1990, mas se calhar precisamos de um serviço militar obrigatório que ajude as novas gerações a ganharem alguns valores e um certo patriotismo, e isto não confundamos patriotismo com nacionalismo, somos um país aberto, um país inserido plenamente na Europa, mas precisamos de ganhar amor à pátria e isto é indispensável. E este divórcio, eu diria assim, que se criou entre a sociedade e as forças militares, – estes dois mundos – tem de alguma forma de ser reaproximados.
Isso leva-me à próxima pergunta, porque temos visto o Leão XIV a condenar veemente e sucessivamente as justificações religiosas para a guerra, por exemplo, particularmente relevante no Médio Oriente, e apelos muito fortes e sucessivos para que se deponham as armas. Isto entra em confronto com o que tem sido o discurso político, temos a NATO a ser pressionada para investir cada vez mais em defesa, temos líderes como Donald Trump a colocar pressão sobre a Europa nesse sentido também. Pergunto como é que para si é possível gerir aquilo que parece uma contradição profunda entre o apelo evangélico ao desarmamento e uma necessidade, que parece a objetiva, de rearmamento dos aliados?
Antes de mais, é importante ler bem o que diz o Santo Padre e também ler bem o que ele não diz. Leão XIV não pede que os exércitos se dissolvam, o que ele critica é uma lógica, e qual é essa lógica?
É a lógica de quem vê na guerra uma solução, de quem aumenta arsenais alimentado pelo medo, de quem delega em máquinas as decisões sobre a vida e a morte das pessoas. Isso é muito diferente de dizer que um país não pode defender-se.
Tem a ver com as prioridades das decisões?
Exatamente. Ora, a Igreja tem uma tradição muito clara a este respeito. O próprio Catecismo reconhece o direito e o dever dos governos à legítima defesa.
O que a Igreja ensina e o que o Magistério sempre exigiu é que esse direito tenha limites, que sejam esgotados os meios pacíficos, que haja proporcionalidade, que não se façam males maiores do que os que se quer evitar. Portanto, a minha posição, como Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança, não é de contradição. Eu diria, há aqui uma certa tensão, se quiser, e eu estou dentro da instituição militar acompanhando homens e mulheres que servem o país, muitas vezes em missão de paz, em contextos de enorme sacrifício pessoal, e é precisamente por isso que tenho o dever de lhes dizer:
O que vos torna credíveis não é o armamento que carregais, não é a arma que trazeis no coldre, é o serviço que prestais à paz. Quanto à questão do rearmamento que a Nato exige, isso é uma realidade política que os governos têm de gerir, mas o Papa, atenção, faz uma distinção que me parece fundamental. Uma coisa é manter capacidades de defesa legítima, outra coisa é construir toda uma cultura do medo, da intimidação, onde se procura convencer a população de que está permanentemente ameaçada para justificar gastos militares ilimitados.
E, claro, isto o Papa e todos nós condenamos com clareza. O que me cabe a mim, enquanto pastor, enquanto Bispo das Forças Armadas e de Segurança? É estar presente também onde as decisões difíceis se tomam e lembrar que há sempre uma alternativa à espiral de violência. E as alternativas são a diplomacia, o diálogo, o direito internacional, o respeito por determinados princípios e, acima de tudo, o respeito pela dignidade da pessoa humana. Portanto, eu estou convencido que quando as Forças Armadas operam bem, estão ao serviço da paz e estão ao serviço da segurança.
O D. Sérgio já falou do esforço exigido pela NATO e Portugal atingiu em 2025 a meta do 2% do PIB destinado à defesa, mas ainda está no grupo de cinco países que menos gastam neste setor, isto de acordo com o relatório anual da Aliança Atlântica.
Contudo, na última cimeira em Haia, em junho, os 32 membros da Aliança Atlântica comprometeram-se com uma nova meta, aumentar os gastos em defesa para 5% do PIB até 2035. Compreende-se este caminho?
Compreendo as razões que levam a este caminho. Todos nós sabemos, todos nós sentimos, o mundo mudou. A guerra voltou à Europa e ninguém pode fechar os olhos a isso.
Mas permita-me ser honesto. Quando ouço falar em 5% do PIB em defesa, a primeira pergunta que me ocorre não é financeira, é acima de tudo moral. O que estamos a construir? Uma Europa mais segura ou uma Europa que aprendeu apenas a linguagem da força?
E mais desigual, porque se investe em defesa não se investe noutros setores, provavelmente?
Bom, vejamos, também sem defesa e sem segurança também não temos sociedades livres e democráticas. Tem de haver aqui um equilíbrio.
E a Igreja não é pacifista, diria, ingênua. Reconhece o direito e o dever da defesa legítima, ou da legítima defesa, se quisermos. E eu, como bispo castrense, conheço bem o custo humano de forças armadas subfinanciadas. Equipamentos obsoletos, pessoal mal remunerado, missões cumpridas com sacrifício enorme, militares, polícias que trabalham para além das horas que deveriam trabalhar, muitas vezes sem ser remunerados. Portanto, eu não estou contra o investimento na defesa. Tem que haver o equilíbrio, obviamente.
O que me preocupa é outra coisa. O Papa Leão XIV alertou recentemente para uma lógica que transforma o medo em política.
E desculpem que eu repita esta ideia. Uma tentativa de convencer as populações que estão permanentemente ameaçadas para justificar gastos militares crescentes, sem limite, sem questionamento; essa lógica, sim, é perigosa, porque nos leva a pensar que a segurança só se compra com armamento.
A verdadeira segurança constrói-se também com diplomacia, com instituições fortes, com desenvolvimento e justiça. Se os 5%, e gostaria de deixar isto bem claro, forem apenas para mais canhões e mais mísseis e menos diálogo, teremos países mais armados e um mundo menos seguro. Por isso digo, sim ao investimento necessário na defesa, mas com discernimento, com transparência e sem perder de vista que o objetivo final não é ter o melhor exército. É não precisar de o usar.
Eu volto aqui a uma questão que o Sr. D. Sérgio levantou que tem a ver com a vocação do militar, porque falou das nossas forças que estão destacadas em missão de paz, é assim que nos habituamos, sobretudo em Portugal, a olhar para as forças armadas, mas hoje também o paradigma mudou muito para a prontidão de combate, para a dissuasão. Este é um desafio particular para quem está neste campo?
A mudança de paradigma é real e seria desonesto da minha parte ignorá-la, mas não creio que a vocação do militar tenha mudado no essencial. O militar serve a paz, sempre serviu. A diferença é que hoje esse serviço exige uma prontidão que durante anos não foi necessária. Ou melhor, que julgávamos não ser necessária. O ideal cristão não é viver na ingenuidade.
Não há aquilo que se chama o ironismo….
Exatamente. É procurar viver buscando a justiça e muitas vezes para encontrar a justiça ou para fazer a justiça exige que alguém esteja disposto a interpor-se entre o agressor e a vítima. Isso tem um nome muito nobre, é proteção, é serviço, é no fundo amor ao próximo na sua forma mais exigente.
Aliás, desculpe-me interromper-vos, porque lemos no evangelho que ninguém tem mais amor do que aquilo que dá a vida para o próximo….
E veja o que é que o militar diz no dia do juramento, “dar a vida se necessário for”. Portanto, o que a fé pede ao militar não é que deponha as armas de forma irresponsável. Pede-lhe que nunca esqueça porque é que as carrega, que mantenha a consciência viva, que saiba distinguir entre defender e destruir, que saiba distinguir entre o que é servir e o que é dominar. Num mundo fraturado como o nosso, a vocação do militar cristão, eu diria, é ser artesão da paz. Mesmo quando isso obriga a estar pronto para o combate.
Nesta Semana Santa, o Papa lembrou os cristãos que estão impedidos de viver os ritos pascais devido à guerra, como acontece tragicamente, como todos sabemos, na Terra Santa. Portugal tem militares destacados em várias geografias e algumas delas altamente voláteis. Que relatos lhe chegam?
Eu próprio já visitei algumas forças militares destacadas, nomeadamente na Roménia, em Moçambique, onde estamos a preparar os militares também moçambicanos para o combate ao terrorismo, particularmente na região de Cabo Delgado. E posso dizer que o Ordinariado Castrense e as Forças Armadas estão a fazer um esforço muito grande e muito concreto para que a maioria dos nossos militares possa viver este tempo de Páscoa com assistência espiritual. Neste momento temos um capelão na República Centro-Africana a acompanhar aquela força que talvez seja a que está mais exposta e a perigos. Temos outro capelão na Lituânia, com um número considerável de homens, nomeadamente fuzileiros. E amanhã mesmo partem mais dois capelões para outros teatros de operações onde estão forças nacionais destacadas. Não é apenas um gesto simbólico, é uma presença real, física, ao lado de quem serve.
Porque a Páscoa vivida num teatro de operações tem um valor e um sabor completamente diferente. Eu diria que o Getsémani deixa de ser uma imagem piedosa e torna-se ali muitas vezes uma realidade reconhecível. E a Ressurreição deixa de ser um dogma e torna-se uma necessidade, uma esperança visceral para quem convive com o risco todos os dias.
O que os nossos militares nos pedem, sabem o que é? É que não os esqueçamos. E mais, que acompanhemos as suas famílias que ficam cá. Que as comunidades, as famílias cá em Portugal rezem por eles.
É muito interessante que nós muitas vezes celebramos a Eucaristia a partir de alguma unidade das Forças Armadas ou das Forças de Segurança, e aí normalmente recordam-se os nossos militares, quer os que já partiram, quer aqueles que estão em forças nacionais destacadas. E não imagina o quanto os toca, porque muitos deles assistem pela televisão à Eucaristia Dominical.
E por isso o mais importante é que eles não se sintam sós, se sintam acompanhados. Dentro de algum tempo também eu espero estar com uma das forças que neste momento está num dos quatro continentes do mundo. Sim, porque as Forças Armadas e também as Forças de Segurança estão em quatro continentes do nosso mundo. Os portugueses estão presentes.
O cenário atual leva a uma projeção de alastramento de cenários, a um risco de alastramento dos cenários globais, desse contacto que vai chegando e do acompanhamento, quais são as principais preocupações que chegam dos militares, das suas famílias relativamente a esta situação?
O principal, o militar quando parte não tem medo da morte, não tem medo de dar a vida. Sim, sabe do risco, mas o medo normalmente não está presente. O que mais pesa é outra coisa.
São os que ficam?
Exatamente. É a família que fica.
O militar parte com uma missão clara, mas a mulher, o marido, os filhos ficam em casa e esses não têm missão, têm apenas uma coisa, esperar, esperar. E a espera sem estrutura, sem sentido, pode ser devastadora. E esse peso às vezes chega-me com frequência. Há também uma angústia um bocadinho mais silenciosa que os próprios militares, raramente, e não só militares, atenção, e não só aqueles que estão fora, mas os que trabalham cá, pela nossa segurança, diariamente, dia e noite, é o medo de regressar a casa diferente.
O terreno muda, as pessoas…
Exatamente. Um homem, seja da PSP, seja da Guarda Nacional Republicana, depois de uma intervenção, a um ambiente, a uma família com violência doméstica, onde vê filhos da idade dos seus, a chorar, a gritar, tem medo. Aí sim que tem medo. Não tem medo de morrer, tem medo de chegar a casa diferente. E, portanto, para dizer-vos também que, num momento em que os conflitos se multiplicam e a retórica da guerra endurece, há uma pergunta que começa a surgir com frequência, sobretudo nos mais jovens: Para quê? Qual é o sentido disto tudo?
E é aí que a presença pastoral é insubstituível. Não para dar respostas fáceis, porque não as há, mas para que ninguém faça essas perguntas sozinho.
Neste mundo que parece estar mergulhado numa espiral de violência contínua, desde Gaza à Ucrânia, mas não esquecendo naturalmente África, que mensagem de esperança gostava de deixar aos ouvintes neste domingo da Ressurreição.
A Páscoa é a festa de quem acredita que a vitória é possível. Mesmo no meio da escuridão, mesmo no meio da dor e mesmo no meio da noite.
E por isso, Gaza, Ucrânia, Cabo Delgado e tantos outros lugares que os noticiários já nem sequer mencionam, e também a muitas famílias onde às vezes a guerra está dentro, queria dizer que é possível a vitória da paz. O que a Ressurreição nos diz, e diz-nos com uma clareza que nenhuma guerra consegue apagar, é que a morte não tem a última palavra. Que a violência, por mais brutal que seja, não é o fim da história.
E depois quero deixar uma palavra também muito concreta.
Neste momento há portugueses em missão longe de casa. Na República Centro-Africana, na Lituânia, noutros lugares do mundo, em Moçambique.
Estão lá para que os outros possam viver em paz. Isso é, no fundo, um gesto pascal. É dar a própria vida pelo outro.
Por isso a mensagem que deixo é muito simples. Não percam a esperança. Cultivem a paz onde estão, cá e lá, em casa, na família, no trabalho, na forma como falam uns com os outros.
A paz não começa nos tratados internacionais. A paz começa em cada um de nós. A paz começa no teu, no meu, no nosso coração.
