Luísa Gonçalves, Diocese do Funchal
Acho que nunca vos tinha contado, mas para além de jornalista sou também documentalista, trabalhando no Arquivo e Biblioteca da Cúria Diocesana do Funchal, sete dias por semana. Passo por isso muitas horas rodeada de livros e papéis que cheiram a história.
É curioso como, no silêncio de uma biblioteca ou no interior de um arquivo, sentimos quase o pulsar do tempo: cada documento guarda uma vida, cada página é um eco de quem passou antes de nós.
Ouve-se muito que a Igreja é guardiã da fé. Mas por vezes esquecemo-nos que é também guardiã da memória. Nas estantes das bibliotecas e nas prateleiras dos arquivos encontramos muito mais do que tratados teológicos ou registos administrativos. Encontramos pedaços da vida quotidiana, marcas de quem construiu paróquias, famílias, comunidades. Encontramos perguntas, conflitos, esperanças e decisões que moldaram a nossa identidade.
E é aqui que reside a importância destes lugares: eles não são apenas depósitos de papéis. São espelhos da nossa história, bússolas que nos ajudam a perceber quem somos e de onde vimos. Ao abrir um livro antigo ou ao desenrolar um pergaminho gasto, é como se estivéssemos a conversar com o passado. É um diálogo silencioso, mas profundamente humano.
Talvez por isso me entristeça ver como, tantas vezes, este património é esquecido ou relegado para segundo plano. Preservar um arquivo ou uma biblioteca não é apenas uma questão de zelo burocrático, é um ato de respeito.
Respeito por aqueles que viveram antes de nós e também por aqueles que hão de vir. Se não cuidarmos destas memórias, arriscamo-nos a ficar sem raízes — e uma sociedade sem raízes dificilmente floresce.
Gosto de pensar que, quando cuido de um documento antigo, não estou apenas a proteger papel e tinta. Estou a proteger histórias. E histórias, no fundo, são aquilo que mais nos aproxima uns dos outros.
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