Desde o final de janeiro, Portugal mantém-se em alerta devido ao mau tempo. Nos últimos dias as atenções e preocupações dos portugueses voltaram-se para o risco de cheias e para a limpeza nas zonas invadidas pelo leito dos rios. Entre outras, uma das zonas mais afetadas foi Alcácer do Sal, onde ainda não é possível contabilizar os avultados prejuízos. Desde a primeira hora que a Cáritas se encontra no terreno, no apoio à população afetada. João Cachaço, diretor-executivo da Cáritas Arquidiocesana de Évora, é o convidado deste domingo da Renascença e da Agência Ecclesia

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
Já iremos à situação de Alcácer, que é bastante conhecida. Antes queríamos perceber: que outras situações preocupantes, muitas vezes sem visibilidade, estão a acontecer na Arquidiocese?
As chuvas estão por todo o país, algumas com maior mediatismo, alguns acontecimentos com maior mediatismo, como é o caso de Alcácer, mas temos registo de ocorrências também noutros pontos da Diocese, que é vasta. Temos notificação de que em Borba, Vila Viçosa também há algumas inundações de habitações, a situação de Coruche também é conhecida pela regularidade caudal alto cheio do rio Sorraia, que muitas vezes chega até à baixa da vila.
E até que ponto esta falta de visibilidade prejudica uma mais eficaz ajuda às populações afetadas?
As populações não ficam sem socorro, porque efetivamente todo o apoio social está disseminado pela diocese e a Cáritas Arquidiocesana pontualmente pode ajudar também a mitigar estes efeitos e chega lá, quando os apoios estatais não chegam. Nós estamos, conseguimos também suprir algumas necessidades. Portanto, consideramos que temos uma cobertura eficaz da diocese.
Temos recolhido vários depoimentos que falam de um certo sentimento de isolamento, sobretudo para quem está mais longe dos centros urbanos. Esse sentimento de abandono existe nas populações que estão a servir?
Exatamente, é normal que isso aconteça, porque muitas vezes as autarquias locais também não são muito próximas, distam alguns quilómetros destas pequenas realidades, destas situações de emergência. As pessoas precisam no momento, no aqui, no agora, e sentem, frente a uma força avassaladora, que não têm toda a capacidade para resolver, sentem-se impotentes face a essas situações, mas as autarquias têm dado uma boa resposta. Nós sentimos isso.
Há esse esforço?
De articulação, sem dúvida.
E quando não estão as autarquias, estão as instituições da Igreja?
Isso mesmo, é isso mesmo.
Este isolamento, por vezes, origina desconfiança. Tivemos relatos, nomeadamente da Caritas de Leiria, da existência de casos em que os idosos, por receio, se recusavam a abrir a porta. Tem conhecimento de situações idênticas aí na região?
Não, não, porque há uma proximidade das equipas técnicas com as populações. As populações são pequenas e nós temos, como tinha dito, boas parcerias com outras instituições da Igreja que estão no terreno. Nós conhecemos, quase caso a caso, as situações e não sentimos isso.
Vamos então falar de Alcácer do Sal: como é que está a decorrer o processo de recuperação, dentro das limitações? Esteve esta semana na localidade. Quais são as grandes dificuldades que se vivem?
As dificuldades são de conhecimento, ou seja, as pessoas estão perante esta circunstância de inundações e ainda não conseguiram contabilizar ao certo todo o prejuízo que têm. Então não nos conseguem identificar as reais necessidades. Isto porquê?
Porque há circunstâncias em que faz falta tudo, mas o que é que é o tudo? É preciso fazer um elenco de tudo o que será necessário depois adquirir e ajudar a suprir estas necessidades. E o que sentem as pessoas, sentem também os serviços, que acabaram por também perder alguma da sua informação com as cheias, com as inundações, e também estão eles próprios em situação de fragilidade porque não têm meios para conseguir fazer registos e apoiar mais eficazmente a população.
É uma situação para durar até porque as cheias permanecem…
Exatamente. Nós estivemos esta semana em Alcácer e o que sentimos foi muito estranho. Eu conheço relativamente Alcácer e estou habituado a ver trânsito a passar, ser um local de passagem com algum dinamismo, com alguma vida e as estradas estão muitas delas cortadas, as ruas estão cortadas, há um silêncio, um silêncio na cidade. Vê-se as pessoas a tentar limpar as coisas, vê-se os serviços, as autarquias a trabalhar dentro das suas possibilidades.
Toda esta vida que pulsava dantes de forma quase frenética, se é que isso pode acontecer numa cidade tão pequena, mas com dinamismo, agora vê-se com algum vagar, alguma calma, mas está toda a gente a trabalhar, toda a gente a tentar articular-se no sentido de poder dar resposta às situações. Nós tivemos contacto com a autarquia e a própria autarquia nos disse, “neste momento tudo o que precisamos é de tempo também para nos organizarmos, para tentarmos estruturar respostas, nós contamos convosco, mas neste momento deem-nos 10 a 15 dias para nos podermos organizar, para podermos também articular convosco”.
Ainda pouco usava aquela expressão de que “falta tudo”, portanto é difícil dizer exatamente o que é que mais falta. Houve necessidade de acolher pessoas desalojadas e que ajuda é que a Cáritas está a prestar neste momento?
Neste momento o que estamos a fazer é a angariação, as colegas do Serviço de Atendimento e Ação Social estão em contato connosco, tudo o que precisarem nós disponibilizamos. Estamos a fazer a angariação de fundos, essencialmente, porque temos feedback por parte das equipas que alimentos e roupas e todos esses bens não precisam mais, já nem têm capacidade para armazenamento, portanto agradecem que nós não enviemos. O que fará falta no futuro será depois apoio a equipamentos, seja eletrodomésticos, camas, colchões, mobílias, portanto a todo um conjunto de bens que vão ser necessários e para isso será preciso fundos para fazer face a essas despesas.
E há pessoas desalojadas?
Nós não temos conhecimento, não temos essa notificação.
Estão a angariar fundos, o arcebispo de Évora apelou à solidariedade para com as populações afetadas. A Igreja tem sido esse fator de proximidade que tantas vezes é reclamado?
E agregador sim, tem sido. Nós sentimos a generosidade das populações, mesmo pessoas anónimas que fazem donativos, outras que já regularmente fazem, mas sentimos que há aqui uma onda de solidariedade para fazer face a esta tragédia, que neste momento não nos afetou a nós aqui na cidade, mas em alguns pontos da Diocese estamos solidários com eles e esta solidariedade tem-se constatado.
Há uma coisa que penso que fica clara desta conversa, é que vai levar muito tempo até que se possa regressar à normalidade…
Vai levar tempo e vai requerer algum trabalho de articulação, não nos queremos sobrepor a quem está no terreno, não queremos fazer de forma desarticulada, queremos fazer com, queremos ser complemento, queremos fazer as coisas com sentido. Não queremos duplicar apoios nem nada que se pareça, não queremos dispersar verbas, queremos estar com quem está no terreno a fazer o melhor para as populações.
Essa é uma das preocupações, porque a questão do tempo que é preciso para o terreno é muito diferente da questão do tempo mediático. Quando os holofotes se apagarem, o que vai ser preciso para que a atenção se mantenha sobre o impacto desta situação?
Vai ter de haver manifestações, comunicações de necessidades, de possíveis futuras angariações para fazer face a estas necessidades, porque não sabemos se tudo o que angariamos vai ser suficiente para suprir as necessidades.
E evitar esse risco de desarticulação, como dizia…
Sim, sim, exatamente.
Falou já de angariação de fundos, nesta altura já é possível dizer o que foi angariado e até onde querem ir, no que diz respeito à angariação de fundos?
Não temos expectativa, não temos expectativa, até porque a Diocese de Setúbal também já manifestou a sua solidariedade para com Alcácer de Sal, que pertence ao Distrito de Setúbal, estão ali mesmo próximos, é contíguo, ali a fronteira, e disponibilizaram uma verba de 10 mil euros para ser apoiada a população. Nós arrancámos mais tarde com essa angariação, ao dia 11 de fevereiro penso que tínhamos cerca de 5 mil euros, mas pronto, temos também depois toda uma verba de apoio da Fundação Eugénio de Almeida, que nós poderemos eventualmente canalizar parte para essas emergências, que se destinam a situações de carência e de emergência na diocese.
O arcebispo de Évora também já pediu que as comunidades façam uma recolha de donativos nas celebrações dominicais.
Exatamente, ainda não começaram a chegar, portanto vai a crescer.
Falou agora também desse gesto de solidariedade da Diocese de Setúbal, pergunto como é que a Cáritas de Évora acolhe esse gesto de comunhão entre dioceses? São um sinal importante de que a Igreja trabalha como um corpo único nestas situações de catástrofe?
Sem dúvida, sem dúvida. Nós, enquanto Cáritas, pertencemos a um organismo nacional, a Cáritas Portuguesa, e estamos em permanente articulação, estamos em contato também com o presidente da Cáritas de Setúbal e trabalhamos articuladamente, por isso estamos todos concertados no apoio. Portanto, aqui acolhemos este gesto de entrega de donativos como um carinho muito especial por parte desta diocese vizinha.
Com o objetivo de que ninguém fique para trás, não é?
Exatamente.
