Autor do livro «Religião na sociedade portuguesa» aborda alterações que marcaram o catolicismo no país, desde 1974

Lisboa, 25 abr 2019 (Ecclesia) – O investigador Alfredo Teixeira, da Universidade Católica Portuguesa, diz que o 25 de abril de 1974 “não foi um sobressalto religioso na sociedade portuguesa” mas trouxe alterações significativas na vivência da fé católica.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o responsável pelo Instituto de Estudos de Religião, da UCP, realça que “a mudança de condições políticas afetou sobretudo o lugar da religião na construção das identidades coletivas”.

Foto Agência Ecclesia/MC, Alfredo Teixeira

Se antes do 25 de abril, “ser-se português ou ser-se católico era quase a mesma coisa”, muito devido ao “aproveitamento da força moral, da força agregadora da religião por parte do Estado-Novo”, da “aliança, pelo menos simbólica”, que existia “entre Igreja e Estado”, hoje isso já não acontece.

“Eu não diria que a revolução de 1974 é o único acontecimento que destrói essa construção, mas é de facto um acelerador dessa desconstrução”, sustenta Alfredo Teixeira.

O antropólogo defende ainda que olhar para a Revolução dos Cravos, que se recorda esta quinta-feira, implica também perceber a “trajetória de emancipação do indivíduo” que tem marcado a sociedade desde então, e que se tem estendido também à vertente da fé.

O autor da recente obra ‘Religião na sociedade portuguesa’, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, destaca o fator da “mobilidade”, da migração das pessoas do meio rural para as cidades, da saída para outros países, que veio alterar aquele que era também um quadro de vivência religiosa muito determinado pela pertença a um lugar ou comunidade.

“De uma forma geral, o catolicismo que herdamos parece não estar muito adaptado a esta condição nova”, alerta Alfredo Teixeira, que no mesmo livro sublinha o desafio da pastoral urbana.

O professor universitário reforça a ideia de que é fundamental desenvolver projetos que tenham em conta “a cidade como um todo, e não com a lógica da quadrícula paroquial”.

Em termos globais, o investigador defende que a Igreja Católica tem de encontrar forma de ir ao encontro e acolher aqueles que vêm até ela e que buscam formas de aproximação à fé diferentes das de outrora.

Na sua publicação, Alfredo Teixeira frisa a importância do Santuário de Fátima, que se assume hoje “ao mesmo tempo como lugar que recolhe uma certa tradicionalidade religiosa, mas a inscreve agora em quadros sociais novos”.

A peregrinação dialoga muito bem com algo que é estrutural na experiência religiosa, que é esta experiência do humano que se põe a caminho, ou seja, que considera não definitivo o próprio lugar que habita e procura alguma coisa que está para além disso”.

Ligados a um contexto social que caminha cada vez mais para o “pluralismo” das expressões de fé mas também para uma dinâmica de “individualização religiosa”.

“As pessoas de alguma forma vivem esta relação com o religioso, querem ter momentos para isso, mas porventura já não o vão fazer com o tipo de relação quotidiana e com os ritmos que nós conhecíamos anteriormente”, aponta.

HM/JCP

 

25 de abril: «A mudança de condições políticas afetou o lugar da religião na construção das identidades coletivas»

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