Resistente contra a ditadura, participante na Juventude Escolar Católica, afirma que a realidade deu razão aos jovens daquele tempo e alerta que democracia pode morrer aos poucos

Foto: DR

Lisboa, 25 abr 2021 (Ecclesia) – Jorge Wemans, detido pela PIDE por se manifestar contra o regime de Salazar e a guerra colonial, afirmou que celebrar o 25 de abril significa olhar para o futuro, combater desigualdades, reforçar a democracia e lutar pela paz.

“Devemos comemorar com grande liberdade de pensamento, percebendo que o 25 de abril foi um marco. O que isso significa para amanhã? Compete a cada um de nós criar esses imperativos para criar uma sociedade mais justa e fraterna, mais cristã – diria eu, mas para os que não são cristãos, mais justa, mais fraterna e livre”, afirmou, em entrevista à Agência ECCLESIA.

O jornalista, que esteve envolvido na organização da vigília da Capela do Rato, em 1972, onde um grupo de católicos, após a celebração de uma Eucaristia, anunciou uma greve de fome como forma de manifestação contra o Estado Novo e contra a guerra colonial, lamentou que os portugueses sejam “indiferentes” à pobreza e desigualdade estrutural, sendo este um dos pilares para se construir a democracia.

“Não há uma reação, nem da Igreja, uma movimentação na sociedade portuguesa contra isto, dizer que não aceitamos ser um dos países da Europa com grande desigualdade – um quinto das pessoas vive abaixo do limiar da pobreza. Mas este é um problema dos pobres, apesar dos estudos que indicam que há algo sistemático, que as condições marcam a vida e que esta vida vai ser marcada pela pobreza”, denunciou.

Jorge Wemans analisou uma falta de paz na sociedade, que não se evidencia em conflitos armados, mas se percebe no discurso de pessoas, numa “guerra” pessoal.

“Acho que cada vez mais estamos em guerra connosco próprios: temos um discurso de ódio cada vez mais presente, pessoas com discurso público no sentido de que seria bom se alguns não existissem. Dentro de nós somos levados a pensar que era bom que alguns não existissem, ou porque são corruptos ou são diferentes. Este discurso de eliminar outros é uma guerra, é uma negação da paz”, exemplifica.

A democracia, sublinha, “não é uma realidade fixa”, mas um projeto “em movimento” de escuta de pessoas, de partilha de opiniões, de “trazer as periferias para dentro do sistema, para o centro”, caso contrário, alerta, “vai morrer aos poucos”.

Jorge Wemans lamenta os conflitos que colocam as pessoas “umas contra as outras”, desviando a atenção do que deveria ser importante – “uma construção de uma vida social e política em que desejamos que, quem é diferente, também faça parte. Um projeto de inclusão de pessoas”.

Qualquer católico deve pensar e tomar consciência, que a nossa democracia, como projeto de inclusão, está hoje mais em causa do que já esteve; somos chamados a participar na construção da cidade, a envolvermo-nos nas juntas de freguesia, nos partidos, para que a democracia inclua cada vez mais pessoas”.

O jornalista regressa ao início ao final dos anos 60 e principio dos anos 70, do século XX, para recordar a sua participação na Juventude escolar Católica (JEC), a crescente consciencialização da repressão que as pessoas sentiam na altura e, concretamente os jovens, que não podiam “ler, ouvir e refletir” sobre o que queriam.

“O ano de 1972 começou, do meu ponto de vista, com ainda a sermos poucos os que nas universidades estavam disponíveis para ações contra a guerra e a favor das liberdades políticas e sociais, contra a pobreza e injustiça, para, em meados de 72, já as manifestações contra o regime terem muita gente. Houve uma onda que se acelerou de uma forma que nos surpreendeu”, regista.

Jorge Wemans recorda a presença espiritual de sacerdotes que, “desempenhavam a sua missão de ajudar a discernir e acompanhar” os jovens, mostrando-lhes que, “apesar de a hierarquia da Igreja católica acusar de falta de fé, de comunistas e opositores”, não estavam longe da fidelidade a Jesus Cristo.

“Eram dois discursos diferentes: o da hierarquia, que nos acusava de perdermos a fé, e destes poucos padres que nos acompanharam e que, ao contrário, disseram que o caminho a trilhar, as preocupações que tínhamos e o desejo de alterar a situação era uma forma profunda de viver a nossa relação com Jesus e de sermos Igreja. Esses foram muito importantes, apesar do peso de suportar a desautorização de que fomos alvo por parte da hierarquia”, lamenta.

O resistente recorda em entrevista, a propósito dos 47 anos da revolução do 25 de abril, que pôs fim ao regime do Estado Novo liderado por António Oliveira Salazar e posteriormente por Marcelo Caetano, o seu envolvimento na organização da vigília na Capela do Rato, a sua detenção consequente, os dias preso em Caxias, e os “esforços e dificuldades” que passaram para “mais tarde a realidade” mostrar que tinham razão.

As reflexões sobre o 25 de abril de 1974 estão no centro da emissão do programa ECCLESIA, este domingo, pelas 06h00, na Antena 1 da rádio pública, e no ’70×7′, pelas 17h30, na RTP2.

LS

 

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