Em 1972, quando organizou e participou na vigília da Capela do Rato, em Lisboa, Jorge Wemans tinha 19 anos e acreditava que o Evangelho se concretizava também pela luta contra o regime do Estado Novo, que reprimia liberdades de ação e de pensamento.

A crescente consciencialização na rua e nos grupos da Juventude Escolar Católica, por onde passou, mostravam que o caminho estava certo, apesar da distância da hierarquia da Igreja católica. Hoje prefere olhar para o futuro como o tempo e o espaço onde o mais importante está por fazer, sob risco de a democracia morrer.

Entrevista conduzida por Lígia Silveira

Agência Ecclesia (AE) – Como chega ao contacto com os protagonistas da vigília da Capela do Rato, em 1972? Que passos o levaram até esse momento?

Jorge Wemans (JW) – As memórias nem sempre são muito seguras – à medida que vamos pensando nos acontecimentos passados, vamos recriando um pouco a história. Mas a minha família era bastante conservadora e o meu pai era, claramente, apoiante de António Oliveira Salazar. Eu não estava destinado a ser crítico do regime, mas sim a ser um jovem integrado, dentro da ditadura que se vivia.

Contudo, fui conhecendo quer algumas pessoas como situações concretas, em que me apercebi da injustiça, das desigualdades, das situações muito degradadas em que muita gente em Portugal vivia, a questão da imigração, as cheias de 1967…

AE – Amigos que fugiram, para fugir à guerra?

JW – Sim, também. A repressão sobre o movimento estudantil: não podíamos reunir… Dei-me conta da quantidade de proibições que existiam: não podíamos ler livros que não chegavam, discos a que não tínhamos acesso. Tudo foi criando em mim uma consciência de repressão e ausência de liberdade, acrescido, sobretudo, com a guerra colonial.

O Papa Paulo VI, com a criação dos dias mundiais da paz, tinha chamado a atenção da nossa consciência católica para a questão da paz, graças ao testemunho de várias pessoas envolvidas numa reflexão mais aprofundada sobre as implicações da paz num país que estava em guerra – embora isso fosse muito escondido, e pouco público ou assumido, dado que a guerra se passava em África.

Conhecendo a pouco e pouco a minha consciência, graças ao que vi, à capacidade de refletir sobre a realidade com outras pessoas e ao testemunho de terceiros, fui alterando a minha consciência da situação e foi assim que cheguei à Capela do Rato.

AE – E em casa como é que isso era vivido?

JW – Isso fez parte do que é habitual na juventude que é alguma rutura com a geração anterior. Era mais comum numa situação de maior fecho, esse conflito de gerações – expressão que não gosto, mas o meu modo de viver a fé, aquilo que eram para mim as imposições que decorriam de ser católico eram muito diferente da forma de viver o catolicismo dos meus pais e isso era mais uma razão de choque, mas era só mais uma.

Havia outras: o comportamento cívico, as questões a que a minha geração era sensível, esse foi mais um elemento de um conflito que foi bastante presente em minha casa.

AE – As celebrações da Capela do Rato, com o padre Alberto Neto, eram frequentadas por si?

JW – A Juventude escolar católica (JEC) foi uma das instituições, a minha equipa base e depois a equipa nacional, onde eu mais aprofundei a minha fé, a relação com Jesus, e a consciência que tinha da situação.

O padre Alberto era um dos assistentes da JEC. Eu frequentava as suas celebrações, não só as que tinham lugar na Capela do Rato, mas durante muito tempo foi assistente da equipa de base de que eu fazia parte. Celebrávamos algumas vezes em pequeno grupo, na comunidade que era a nossa equipe de base. Estava muito relacionado com a Capela do Rato mesmo antes da vigília de 73.

AE – Como foi preparação da vigília da Capela do Rato de 1972 para 73?

JW – A vigília de 72 para 73 teve uma longa preparação sobretudo porque teve de ser bastante clandestina e secreta. Tudo implicava mais tempo; não existiam telemóveis, claro, mas sobretudo dadas as condições de repressão por parte da PIDE, as comunicações não seriam indicadas.

Preparámos a vigília com algumas ações exteriores a quem estava na capela. A nossa ideia não era apenas a realização da vigília – já de si importante, uma vigília e um jejum continuado – mas seria divulgar na área de Lisboa, alguma periferia, nas paróquias e nas missas desse fim de semana, um apelo para que as pessoas se juntassem à vigília a desenrolar na capela.

Eu estive nessa parte. Era preciso imprimir artesanalmente, na altura era o melhor que tínhamos, apelos para se dirigirem à capela e participarem na vigília pela paz que estávamos a organizar.

Foi preciso imprimir, distribuir, organizar grupos para dar panfletos à saída das missas – essa foi a parte em que mais participei. Em outubro ou novembro de 72 começámos a pensar nas pessoas para distribuir entre elas, pessoas que nos dessem garantais de confiança e de se manterem discretas.

AE – Sentiam-se acompanhados?

JW – Acompanhados por quem?

AE – Por jovens que sentiam o mesmo. Sentiam haver lastro para o que procuravam? Eram acompanhados por padres que vos ajudavam, mas a relação com a hierarquia era difícil…

JW –  Os últimos tempos do regime de Marcelo Caetano foram tempos em que rapidamente fomos percebendo que havia muita gente, sobretudo jovens, a ganhar distância sobre o regime, a achar que não estava bem, que o regime não nos levava a lado nenhum apenas ao prolongamento da guerra colonial, à manutenção da repressão da liberdade.

A partir do princípio dos anos 70, depois das eleições de 69, que foram alvo de grande repressão, as movimentações, manifestações e debates organizados pelos grupos de oposição foram muito reprimidos; progressivamente, com as movimentações a nível estudantil, com o fecho de escolas, presença de «gorilas» pides nas aulas, todo esse clima de repressão que se seguiu à primavera Marcelista, levou a que muita gente começasse nos cafés a debater a guerra, ainda que à boca fechada. Houve uma consciência de que isto não nos levava a lado nenhum.

O ano de 1972 começou, do meu ponto de vista, com ainda a sermos poucos os que nas universidades estavam disponíveis para ações contra a guerra e a favor das liberdades políticas e sociais, contra a pobreza e injustiça, e em meados de 72 já as manifestações contra o regime tinham muita gente. Houve uma onda que se acelerou de uma forma que nos surpreendeu.

Posteriormente, em 1974, um grupo alargado que tinha uma prática de organização de ações em comum, estava a preparar para o 1º de maio – caso não tivesse havido o 25 de abril – , uma grande concentração no Rossio, em Lisboa, e o nosso objetivo é que 500 ou 600 pessoas fossem presas pela Pide. Havia, portanto, um crescimento muito grande da disponibilidade para a luta contra a guerra colonial e a favor das liberdades.

No que diz respeito à hierarquia, não. Os bispos em Portugal: atos de coragem, capacidade de liderar, romper, não é característica do nosso episcopado, nem na altura nem hoje. Há uma atitude muito acomodatícia, não fazer ondas é o grande objetivo do nosso episcopado.

Naquela altura, no início em 1973 o episcopado não reconheceu a equipa nacional da JEC, que eu fazia parte – tínhamos sido eleitos normalmente pelos militantes, mas não fomos reconhecidos, o assistente apontado não foi nomeado. Havia uma grande diferença, um conflito entre o que a hierarquia pensava e queria e os que os jovens pretendiam.

Alguns padres foram bastante importantes porque permaneceram fiéis ao acompanhamento, que era a sua missão, de jovens. Mesmo que a hierarquia pensasse que éramos uns perigosos comunistas, opositores, que não deveríamos conduzir os destinos do movimento, alguns padres foram fiéis na sua missão de nos acompanhar e foram importantes no apoio que deram como figuras mais velhas que nos diziam que não estávamos completamente loucos e sobretudo, que não estávamos longe de ser fiéis a Jesus Cristo.

Eram dois discursos diferentes: o da hierarquia que nos acusava de perdermos a fé, e destes poucos padres que nos acompanharam e que, ao contrário, disseram que o caminho a trilhar, as preocupações que tínhamos e o desejo de alterar a situação era uma forma profunda de viver a nossa relação com Jesus e de sermos Igreja. Esses foram muito importantes, apesar do peso de suportar a desautorização de que fomos alvo por parte da hierarquia.

AE – Na noite de 1972 para 73, o que aconteceu? O Jorge foi detido…

JW – A polícia entrou na Capela do Rato, arrastou as pessoas que estavam para dentro de carrinhas.

AE – Quantas pessoas estavam lá dentro?

JW – Naquele momento, creio que éramos entre 40 a 60. A polícia esperou que tivesse menos gente. Durante a tarde tinha estado mais gente. Ao fim da tarde a polícia entrou na capela, arrastou para fora à força, meteu-nos em carrinhas. Fomos identificados na esquadra do Rato, era a polícia de choque com cães, tinha um aparato violento.

Um grupo mais pequeno, uns 20 talvez, foi levados da esquadra do rato para o governo civil, ao lado da Rádio Renascença e daí – uns 10 ou 12 – foram para Caxias.

Eu fiquei em isolamento durante uns 10 ou 15 dias, preso em Caxias, com outros. Com interrogatórios, não fui objeto de tortura. Estava isolado, não via ninguém, estava numa cela, mas não fui espancado ou tive outras violências.

Fui interrogado, mais do que uma vez e, ao fim de 10, 12 dias, fomos libertados com caução. Nem todos foram tratados da mesma forma. Lembro-me de duas pessoas que foram espancadas e depois libertadas como nós.

AE – Essas memórias são difíceis?

JW – Não muito, hoje em dia. Lembro-me que o facto de estar preso e isolado me fazia pensar fundamentalmente em duas coisas, se bem me lembro: tinha medo de ser espancado e torturado. Lembro-me, sobretudo, que isso foi mais permanente depois de uma visita dos meus pais, porque pensei que agora que me tinham visto, a situação iria apertar, pois tão cedo não voltariam, e eu seria objeto de violência e os meus pais não veriam as marcas da violência.

Também a preocupação com as pessoas que eu tinha envolvido na preparação da vigília: não tinha qualquer ideia se tinham sido presas, se estariam nas mesmas condições.

Preocupava-me com as buscas que a Pide teria feito em casa dos meus pais – eu tinha muito cuidado, mas tinha preocupação. Eram os sentimentos mais dominantes.

AE – A seguir à libertação, como foi a vossa vida durante aquele ano e meio?

JW – Todos nós, não só os que foram presos, mas os que estiveram envolvidos na preparação e participado na vigília, tomamos precauções para termos cuidado, não nos relacionamos tanto como no passado, cuidados com  telefonemas e papéis. Mas isso durou dois ou três meses.

Depois, o sentimento e consciência que tínhamos era que a vigília tinha sido muito importante para desbloquear a consciência de vários setores católicos e, em geral, a oposição ao regime estava mais musculada. Dois ou três meses estávamos de regresso à mobilização de pessoas para encontros e reflexões, distribuição de papéis com testemunhos sobre a guerra que não chegavam cá mas que tínhamos acesso. Antes do verão estávamos a funcionar em pleno.

AE – E no 25 de abril? Estava onde?

JW – Estava a dormir. Quando começaram as operações, eu estava em casa com os meus pais, um irmão estava a estudar e veio dizer que a revolução estava na rua. As indicações era para que a população se mantivesse em casa, e eu assim fiz. No próprio dia 25 de abril, vivíamos em Alvalade, e ali ficamos, a receber notícias e a fazer telefonemas, na expetativa de ver como iria acabar, sabendo que sim.

O Marcelo Caetano tinha sido detido – foi talvez o momento mais significativo, tínhamos sabido que ele, não em direto, tinha sido detido e era o símbolo que o regime tinha um fim. Esse foi talvez o momento mais alto do dia em que a perceção clara que tínhamos derrubado o regime e ficou na memória.

Um balde de água fria foi quando, em direto, vimos a Junta Militar, encabeçada pelo Spínola, de negro, velho, antigo, parecia que o regime tinha voltado. A apresentação da Junta de salvação nacional não nos deixou dormir tranquilos. A imagem é a contradição completa da alegria do dia. E o Spínola não tinha uma reflexão claramente favorável para pôr termo à guerra e à independência dos povos africanos. Foi um fim de dia muito contraditório com a alegria do 25 de abril.

AE – Qual era a vossa preocupação seguinte?

JW – Fundamentalmente o que marcou as pessoas que estavam na JEC e no início das universidades, do ponto de vista católico, foi celebrar o que nos estava a acontecer e o que tinha acontecido. O lado festivo e celebratório foi o que marcou os meses depois, e o verão, muito marcado pela convição que estávamos certos, tínhamos vivido algo que só acontece raramente, a realidade a dar-nos razão. Os esforços e dificuldades, tudo pelo qual lutamos e sofremos, de repente parecia que estava certo.

Lembro-me de várias vezes, quando andava na igreja, tudo muito aflito porque a maioria dos católicos não estaria contra a guerra, nem animados para derrubar o regime. Quando andam aflições pela igreja, varias vezes dissemos: não há muito a mudar, continuamos no caminho – já com uma mudança exterior muito grande, com a possibilidade de falar nos telhados o que se dizia à boca fechada, mas o 25 de abril veio confirmar o que já fazíamos antes, agora com mais facilidade, havendo mais gente que se envolveu na JEC.

A sensação que tínhamos era essa: que à nossa volta havia grandes preocupações por mudar, ajustar as práticas, ideias, maneira de se encontrar à nova situação e nós, na nossa situação, tínhamos de continuar. Não havia muito a mudar, apesar de, à nossa volta, muito ter mudado.

AE – No seu entender, os católicos têm um dever perante o 25 de abril, de continuar a lutar pelos valores conquistados na altura?

Eu tenho muito pouco a ideia de que as pessoas que não participaram são devedores de alguma coisa. O que temos é de construir o futuro.

Tenho muita pena de a Igreja em Portugal nunca ter pedido desculpa, nunca ter feito o seu ato de contrição pelo pouco que ajudou o povo português a libertar-se da guerra e do regime fascista. Nunca fez um ato de contrição público e, do ponto de vista histórico, mancha a Igreja portuguesa. A incapacidade de reconhecer que não andou bem, devia pedir perdão pela quantidade de anos que esteve em silêncio perante injustiças e repressão. Isso sim, tenho pena.

Mas o nosso episcopado tem uma marca de falta de génio, acomodatícia, falta de coragem, que se tem prolongado pelas décadas e, salvo raríssimas exceções, caracteriza a generalidades dos nossos bispos.

Pode ser que a 50 anos de distância, a Igreja em Portugal tenha este gesto.

Tirando isso, aquilo que está pela frente não é uma obrigação perante o 25 de abril. O que temos pela frente é a defesa da democracia e reduzir a indiferença perante as desigualdades.

Em Portugal, qualquer católico deve pensar e tomar consciência, que a nossa democracia, como projeto de inclusão, está hoje mais em causa do que já esteve; somos chamados a participar na construção da cidade, a envolvermo-nos nas juntas de freguesia, nos partidos, para que a democracia inclua cada vez mais pessoas.

Em Portugal, somos muito indiferentes à desigualdade – achamos que os pobres são pobres porque não querem trabalhar, se distraíram, que o problema da pobreza é dos pobres, não do sistema, não da maneira como se organiza o dia a dia. Preferimos não pensar e culpabilizar os pobres.

Não há uma reação, nem da Igreja, uma movimentação na sociedade portuguesa contra isto, dizer que não aceitamos ser um dos países da Europa com grande desigualdade, um quinto das pessoas vive abaixo do limiar da pobreza. Mas este é um problema dos pobres, apesar dos estudos que indicam que há algo sistemático, que as condições marcam a vida e que esta vida vai ser marcada pela pobreza.

Uma terceira questão é a paz. Não estamos em guerra, não temos conflitos armados, mas acho que cada vez mais estamos em guerra connosco próprios; temos um discurso de ódio cada vez mais presente, pessoas com discurso público no sentido de que seria bom se alguns não existissem. Dentro de nós somos levados a pensar que era bom que alguns não existissem, ou porque são corruptos, são diferentes. Este discurso de eliminar outros é uma guerra, é uma negação da paz.

A paz não para por fim a guerras com exércitos, mas a que precisamos para colocar termo a esta guerra que nos põe uns contra os outros e que nos desvia de uma construção de uma vida social e política em que desejamos que quem é diferente também faça parte. Um projeto de inclusão de pessoas.

A democracia não é uma realidade que se fixa: é um projeto em movimento para trazer mais pessoas, ouvir mais opiniões, tratar das periferias e traze-las para dentro do sistema, para o centro, ou então vai morrer aos poucos.

AE – Corremos o perigo de perder a voz dos protagonistas e não termos estrutura para continuar a construir a democracia?

JW – A história e o discurso sobre a história, os acontecimentos são sempre uma luta pelo presente e futuro.

Para mim, as comemorações sobre o 5 de outubro, mesmo com algumas pessoas ainda presentes, pouco me dizia. E pouco a pouco o 25 de abril pode tornar-se isso. Não acho muito importante o endeusamento do passado.

Sobre o 25 de abril há uma construção de memória. Eu guardo linhas de força que podem não ser as mesmas de protagonistas que estiveram no 25 de abril e, com toda a legitimidade, querem coisas diferentes daquelas que eu desejo.

O 25 de abril foi uma alegria, uma abertura de futuro. Nós vivíamos num regime em que nada era possível, só podíamos repetir o que nos diziam o que tinha de ser. Tínhamos um rio ribeiro muito estreito, por onde todos tinham de seguir, com margens opressoras. De repente, encontramos um mar livre, cada qual a caminhar por onde quer. É uma sensação que só acontece raramente, a minha geração teve muita sorte por viver esse momento quando era novo. Eu tinha 20 anos.

Isso foi um marco. Há que recordar isso, sem dúvida, mas há que recordar outras coisas que conseguimos fazer mais recentemente.

Sim, temos na história momentos muito interessantes, mas no futuro dir-se-á sobre eles tudo o que tem a ver com o presente que se esteja a viver e o futuro que se queira viver. Por isso acho que a democracia, as desigualdades e a paz continuam tão atuais. É o que me preocupa no presente e no futuro.

Devemos comemorar com grande liberdade de pensamento, percebendo que o 25 de abril foi um marco. O que isso significa para amanhã? Compete a cada um de nós criar esses imperativos para criar uma sociedade mais justa e fraterna, mais cristã – diria eu, mas para os que não são cristãos, mais justa, mais fraterna e livre.

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