Paulo Rocha

“Em quem hei de votar?”

A pergunta surgiu no cair do semáforo vermelho, numa pausa do trânsito, e de quem vai fazer a sua primeira paragem numa mesa de voto, este ano, nas eleições europeias. Feitos os 18 anos, quase todos vividos à distância de questões políticas e de debates partidários que impedem um olhar global sobre ideias e programas eleitorais, chegou o momento de votar, de enfrentar campanhas feitas de slogans, mais ou menos virtuais, inteirando-se de valores, planos, propósitos, projetos…

O surgir da questão, a pergunta “em quem votar?”, pode ser um sinal de menos um voto na abstenção, que ameaça de forma crescente a democracia, e é, assim, a melhor atitude que qualquer cidadão, dos 18 aos 88 e por aí adiante, pode e deve ter sempre, em qualquer ato eleitoral.

“Tenho de pesquisar!”

É o caminho para quase todas as respostas, as da escola e as da vida, para trabalhos académicos e para questões com outra densidade. Também quando em causa está o querer inteirar-se de percursos políticos de décadas, muito sumariamente apresentados num qualquer panfleto ou cartaz que, mais do que esclarecer, procura a conquista de votos.

Não bastará, no entanto, um clique, mesmo que possa ser a porta e entrada para a informação acerca do que se vê e do que está escondido, para ver e ler o que diz um grupo sobre uma pessoa, uma sociedade sobre um grupo ou partido, um país sobre uma sociedade. De facto, a popularidade de uns, líderes ou grupos, pode determinar resultados de pesquisas digitais, abafar elementos relevantes a ter em conta quando se escolhe. E a escolha não pode ser feita do que aparece e parece, numa ocasião, mas tem de ser resultado de um itinerário, do percurso feito por pessoas e as suas ideias.

“Não acompanho…”

É neste ponto que a maioria dos cidadãos se encontra. O debate político, por muito ruidoso que possa parecer, permanece cada vez mais circunscrito a uma tribo e é feito no movimento pendular de afirmação/oposição e não, como necessariamente deveria, no contributo de muitos para a edificação no bem de todos e de todas as coisas.

No momento do voto, o não acompanhar pode transformar-se num “beco sem saída” ou no limiar de um novo capítulo, o de quem passa a acompanhar, tanto os slogans que são fornecido mediaticamente, como os contextos que o determinam, na história e na da atualidade.

“Tenho de escolher…”

Pois… Esse o desafio em muitas ocasiões da vida. Também esta! E haja determinação, vontade de participar, inserção nas causas públicas, contribuições para um tecido social cada vez mais digno. Mais do que comportamentos que aconteçam numa lógica de “causa e efeito”, estão em causa atitudes, predisposições pessoais que não desistem apesar da aparente contracorrente em que se possam inserir. Votar é disso um sinal e tem de ser reflexo de escolhas que tenham sempre presente a dignidade de vida, o acolhimento de quem é próximo e estrangeiro e a salvaguarda de uma casa comum.

“Em quem hei de votar…? Tenho de pesquisar, porque não acompanho e tenho de escolher”.

Esta foi a afirmação de quem vai votar pela primeira vez, no cair do semáforo vermelho. Quando abriu o verde seguiu-se a conversa… A continuar, todos os dias, para que não volte novamente a pergunta nas vésperas de outro ato eleitoral.

PS. A propósito das eleições deste ano, nomeadamente as europeias e as legislativas, vale a pena ter por guião inspirador o documento “Um olhar sobre Portugal e a Europa à luz da Doutrina Social da Igreja“.

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