No Ano Internacional dos Voluntários, Fernanda Freitas destaca a inovação social do projeto que conta histórias a crianças internadas, à noite, e afirma que a invisibilidade dos voluntários «não pode acontecer»
Lisboa, 23 mar 2026 (Ecclesia) – A fundadora da Associação Nuvem Vitória afirmou que a invisibilidade do trabalho dos voluntários “não pode acontecer” e referiu-se ao projeto que iniciou, em 2016, para contar histórias a crianças internadas, à noite, como “uma missão”.
“Isto não é fofinho, isto é útil e é uma missão que nós temos com aqueles cuidadores, com aquelas crianças”, disse Fernanda Freitas em entrevista ao programa Ecclesia, esta segunda-feira, na RTP2.
A fundadora da Associação Nuvem Vitória lembrou que as histórias que são contadas às crianças são fundamentais para devolver a “rotina do sono” a quem está em tratamento, nas alas pediátricas dos hospitais, reconhecendo que, muitas vezes, os pais “são os primeiros” a adormecer.
A Associação Nuvem Vitória iniciou com um projeto piloto no Hospital de Santa Maria, com 12 camas, e atualmente envolve 1300 voluntários que, de segunda a sexta-feira, se deslocam a 15 alas pediátricas, de norte a sul do país e sempre dois a dois, duas “nuvens”, contabilizando mais de 150 mil histórias contadas a mais de 100 mil crianças.
Fernanda Freitas lembra que existem vários projetos para ler histórias a crianças internadas durante o dia, considerando o voluntariado que se desloca em cada noite aos hospitais como “um projeto de inovação social” e relevante para devolver a “rotina do sono” no ambiente hospitalar.
“Tentamos fazer aquela transição que fazíamos em casa com os nossos filhos, que é: agora vamos começar a serenar e agora vamos preparar para dormir”, afirma.
No Ano Internacional dos Voluntários, que está em curso, em 2026, por iniciativa das Nações Unidas, Fernanda Freitas, que foi presidente do Ano Europeu do Voluntariado, em 2012, afirma que a invisibilidade do trabalho voluntário “não pode acontecer”.
“É preciso contabilizar os números porque, infelizmente, o impacto não se mede apenas pelo sorriso que vamos ver na pessoa que vai receber a nossa ação de voluntariado. O impacto mede-se com números e, havendo esses números, nós podemos realmente atribuir um valor financeiro e económico ao trabalho de voluntariado”, sublinhou.
Segundo a Confederação Portuguesa do Voluntariado, o número de voluntários em Portugal ronda 1 milhão e meio, que Fernanda Freitas considera ser uma estimativa por defeito, sobretudo se forem considerados os “voluntários não formais”, como são os que participam, por exemplo, em campanhas do Banco Alimentar contra a Fome.
“Somos mais, porque há muita gente que não se identifica como voluntário, mesmo fazendo tarefas que estão debaixo do chapéu do voluntariado e, noutros países, são reconhecidos como tal”, indica, dando como exemplo o voluntariado empresarial, ainda fora da legislação portuguesa sobre o voluntariado, que é “do século passado” e está desatualizada.
Fernanda Freitas, que fez diferentes experiências de voluntariado e percebeu a sua importância quando um irmãos, que nasceu com paralisia cerebral, foi acompanhado pelos voluntários na Associação de Paralisia Cerebral do Porto, afirma que “a pessoa tem de se identificar” com o projeto de voluntariado em que se envolve e “ser feliz”.
“Não há um perfil, aliás há variadíssimos perfis para uma pessoa, desde que a pessoa queira ser voluntária, tenha um sentido de compromisso”, referiu.
A Associação Nuvem Vitória é uma organização que acolhe voluntários que tenham o perfil para acompanhar crianças, na hora de adormecer, tendo em curso inscrições para novos voluntários, na zona de Lisboa, com a previsão de aumentar o número de presenças em mais seis alas hospitalares, neste e no próximo ano.
PR
