Bispo diocesano mostra-se disponível para qualquer decisão da Santa Sé sobre o futuro e alerta para o impacto da desertificação

Vila Real, 26 abr 2018 (Ecclesia) – O bispo de Vila Real, D. Amândio Tomás, apresentou renúncia ao Papa Francisco, de acordo com o que está determinado pelo Direito Canónico, após completar 75 anos de idade, esta segunda-feira.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, D. Amândio Tomás disse hoje que “irá sujeitar-se às intenções do Santo Padre”, que “decidirá sobre a sua continuidade ou não continuidade” à frente da diocese, “e por quanto tempo”.

“Até lá vou trabalhando normalmente, e mesmo como bispo emérito não deixo de amar a Cristo e a Igreja”, frisou aquele responsável, há 10 anos em Vila Real.

Nestas declarações, o bispo destacou os muitos desafios que ainda existem para abordar no território, a começar pelo problema do despovoamento do interior.

“Ainda hoje estive no Conselho Presbiteral onde um dos assuntos foi se não deveríamos fazer uma redução nas paróquias, e como servi-las, sendo comunidades tão pequeninas”, adiantou D. Amândio Tomás.

A Diocese de Vila Real tem mais de 4 mil quilómetros de extensão, tem cerca de 264 paróquias, mas em termos de população global conta com pouco mais de 200 mil pessoas.

“Por exemplo, a Diocese de Lisboa tem paróquias que têm quase a população toda da nossa diocese. Hoje o interior está esvaziado de gente, só tem pessoas mais idosas, há uma hemorragia para o litoral e para o estrangeiro, raramente cá ficam, emigram todas. E é com esta realidade que temos de trabalhar”, apontou D. Amândio Tomás.

Sobre o futuro, em cima da mesa poderá estar mesmo a reconfiguração da Diocese de Vila Real em unidades pastorais, modelo que já adotado por outras circunscrições eclesiásticas em Portugal.

“Mas primeiro temos de criar mentalidade nas pessoas, temos de educar as pessoas e educar-nos a nós próprios para servir de outra maneira. Realizar comunhão”, alertou o bispo natural de Cimo de Vila da Castanheira, em Chaves, que vai ainda mais longe na abordagem ao atual contexto da sua diocese.

“A Igreja é um mistério de comunhão fundamentalmente, e atualmente este espírito pouco existe porque há muito bairrismo, há muitas aldeias pequeninas, todas querem ser grandes. E reconfigurar isto, criando unidades pastorais, comunhão, faria com que as pessoas se sentissem como parte de um todo. Mas isso leva tempo”, salientou.

Outro desafio, ligado à questão demográfica, é o dos “jovens”, que o bispo definiu como “o amanhã da Igreja e da sociedade”, e cujo contributo é preciso saber desafiar e potenciar.

D. Amândio Tomás esteve presente esta quarta-feira nas Jornadas Diocesanas da Juventude, que decorreram em Mondim de Basto, com a participação de centenas de jovens.

De acordo com aquele responsável, o principal objetivo foi “entusiasmar” e “motivar” os mais novos “a tomarem consciência” da importância da sua presença ativa na missão da Igreja, com “alegria”, “coragem” e “desassombro”.

Não só como forma de ter “mais vocações, de ter mais gente”, mas também para a Igreja acompanhar os sinais dos tempos, de “adaptação a um novo paradigma, muito diferente do passado”.

“Para realidades novas, temos de encontrar soluções novas. E eles como novos que são, têm muitíssima coisa a dizer”, apontou o bispo de Vila Real, que reconheceu a relevância do próximo Sínodo dos Bispos convocado pelo Papa Francisco para debater esta questão.

“Eu creio que o Papa Francisco está a fazer uma belíssima missão, chamando inclusivamente alguns jovens para prepararem em Roma o Sínodo, sendo obreiros do instrumento de trabalho que irá servir de substrato para as discussões sinodais. Fazer isto foi uma medida inteligente, ótima, para tornar os jovens atores do seu futuro e do futuro da Igreja”, concretizou.

JCP

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