Bispo eleito de Viana do Castelo deixa Angra, com processo sinodal a decorrer, e espera iniciar ano litúrgico na nova casa

Foto: Agência ECCLESIA

Lisboa, 25 set 2021 (Ecclesia) – D. João Lavrador, bispo eleito de Viana do Castelo, disse que a sinodalidade “é uma caminhada lenta” que vai encontrar “resistências”, admitindo não ser fácil passar de “um clericalismo para uma Igreja povo de Deus”.

“Os leigos dizem que «os padres é que sabem». E eles próprios se clericalizam”, afirma à Agência ECCLESIA o até agora bispo de Angra.

“Há estruturas de sinodalidade mas é preciso estendê-las. Já tivemos um tempo mais favorável à comunhão e participação de todos. Há um retraimento da participação e agora temos de o retomar”, acrescenta.

Para D. João Lavrador a sinodalidade “é um estilo de estar” que “não retira em nada a exigência particular de cada ministério”.

A decisão não é democrática, é do bispo. Mas para a fazer bem, em sinodalidade, tem de escutar. É uma participação contínua e a partir da Eucaristia. A decisão ser do bispo não é arbitrária – ele atende à escuta e pode até decidir não ser a sua opinião que irá prevalecer. Compete ao bispo ter conselheiros para o ajudar no governo da diocese. Mas a sinodalidade é partilhada com todo o povo de Deus”.

D. João Lavrador foi nomeado pelo Papa Francisco como bispo de Viana do Castelo, depois de ter estado seis anos à frente da diocese de Angra, espalhadas geograficamente e com realidade “muito distintas entre si”.

Há três anos a diocese açoriana iniciou um caminho sinodal, que o responsável afirma, deve continuar, que foi organizado a partir da reflexão em temas que a levariam a abrir-se aos “sinais dos tempos”, à reflexão “sobre a cultura, a sociedade e os problemas e sobre a Igreja” que se quer construir.

As pessoas precisam de equacionar ter um vigário episcopal e ele próprio dinamizar a vigararia onde se encontra, mas é algo ainda a decorrer”, indica, reconhecendo que procurou valorizar todos os sectores, num “encadear da vida diocesana”.

Enquanto responsável mantém o projeto do reconhecimento do estudo da Teologia no seminário de Angra com valor académico, mas admite não ser um processo fácil, apesar de fundamental: “As exigências de acreditação que a Universidade Católica Portuguesa nos põe é difícil, mas poderá ser feita por outras formas”, adianta.

Sobre a sua nomeação para Viana do Castelo, D. João Lavrador admite que poderia ter sido “mais célere”, sublinha desconhecer o que “motivou essa realidade”, e comunga da “dor e apreensão da diocese por ter um pastor”; nesse sentido espera estar já na diocese do Alto Minho quando começar o ano litúrgico (a 28 de novembro de 2021).

Certamente é um trabalho difícil para encontrar um perfil para a diocese, é natural que tenha o seu processo que desconheço. A mim cumpre-me, a partir do momento que me dizem «é para aqui, dizer, sim aqui estou e vou com alegria e entusiasmo». Sabendo que tenho saudade, somos afetivos. O desprendimento, que é bom por um lado, tem o seu sofrimento por outro”.

D. João Lavrador assume que quem está ao serviço da Igreja, “em especial um sacerdote, está sempre em saída”.

Sobre a diocese que o aguarda, no Alto Minho, afirma que a conhece “pouco”, “de passagem e de visita”, destacando que agora falta conhecer “a alma”.

“Conhecer pouco pode ser bom, porque vou sem preconceitos. Vou aberto a tudo o que possa aparecer. Falta conhecer a realidade, as pessoas, os sacerdotes e leigos, conhecer as comunidades, inteirar-me da riqueza cultural e religiosa do Minho, e sobretudo de Viana, falta-me agora conhecer com rosto essa riqueza, e integrar-me nela. Quero também reconhecer as provas de amizade e acolhimento que já me chegaram. Isso é um estímulo para a missão que temos de enfrentar”, sublinha.

O administrador apostólico de Angra reconhece que leva “uma riqueza muito grande”, que não será para replicar noutros contextos: “É esse trabalho que agora vou tentar fazer e, peço, me ajudem a fazer”.

O também presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, admite que o tempo de pandemia foi de “sofrimento, de perplexidade, de muitas articulações, de medo”, mas que “lançou desafios a novas formas de comunicação, entre as quais, o digital”.

“Sem substituir o presencial, que é o centro da vida da igreja – presente na reunião da comunidade – tem um potencial imenso que pode completar e potenciar a atividade da Igreja. Não é para desligar”, finaliza.

A entrevista a D. João Lavrador pode ser acompanhada no programa ’70×7′, emitido este domingo, na RTP2 pelas 17h30.

PR/LS

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