Francisco recebeu secretário- geral da ONU no Vaticano

Foto: Lusa/EPA

Cidade do Vaticano, 20 dez 2019 (Ecclesia) – O Papa Francisco recebeu hoje no Vaticano o secretário-geral da ONU, António Guterres, em audiência privada, durante a qual gravaram uma mensagem conjunta, em vídeo, contra a indiferença, a intolerância religiosa e a destruição do planeta.

“Não podemos, não devemos virar a cara para o outro lado, quando os fiéis de várias religiões são perseguidos em várias partes do mundo”, alerta o Papa.

A mensagem rejeita qualquer uso da religião para incitar ao ódio, à violência, à opressão, ao extremismo e ao fanatismo: “Brada aos céus o uso da religião para incitar ao ódio, à violência, à opressão, ao extremismo e ao fanatismo cego”.

Os dois responsáveis evocam vários dos dramas da humanidade atual: guerras, violência, miséria, injustiças, desigualdades, fome, pobreza, crianças que morrem por falta de água, abusadas, migrações forçadas e desrespeito à vida, desde o nascimento até à morte.

“Não podemos, não devemos olhara para o outro lado perante as injustiças, as desigualdades, o escândalo da fome no mundo, da pobreza, das crianças que morrem porque não têm água, comida e cuidados necessários. Não podemos olhara para o lado diante de qualquer tipo de abusos contra os mais pequenos. Devemos, todos juntos, combater esta praga”, afirmou o Papa.

“Não podemos permanecer indiferentes quando a dignidade humana é pisada e explorada, diante dos ataques contra a vida humana, seja a que ainda não nasceu, seja a de qualquer pessoa que precisa de cuidados”, acrescentou Francisco.

O Papa posiciona-se contra a corrida armamentista e, em particular, o armamento nuclear.

“É imoral não somente o uso, mas também a posse de armas nucleares”, assinala.

Francisco e António Guterres destacam a importância da preservação do planeta, apelando à ação “antes que seja demasiado tarde”.

Vamos dar graças por todo o bem que existe no mundo, por tantas pessoas que se empenham gratuitamente, por quem vive a própria vida no serviço, por quem não se rende e constrói uma sociedade mais humana e mais justa. Nós sabemo-lo: não podemos salvar-nos sozinhos”

A poucos dias da celebração do Natal, a mensagem conjunta realça que esta celebração, “na sua genuína simplicidade, recorda que o que realmente conta na vida é o amor”.

Guterres diz-se triste por ver comunidades cristãs, algumas entre as mais antigas do mundo, que não podem celebrar o Natal em segurança.

“Este é um tempo de paz e de boa vontade e é com tristeza que vejo que as comunidades cristãs – incluindo algumas das mais antigas do mundo – não podem celebrar o Natal em segurança. Tragicamente, vemos judeus a serem assassinados em sinagogas, as suas lápides vandalizadas com suásticas; muçulmanos mortos a tiro nas mesquitas, os seus locais de culto profanados; cristãos mortos em oração, as suas igrejas incendiadas. Temos de fazer mais para promover a compreensão mútua e o aumento do ódio”, referiu o secretário-geral da ONU.

A Santa Sé informa que o secretário-geral da ONU se encontrou ainda com o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, acompanhado pelo secretário do Vaticano para as relações com os Estados, D. Paul Richard Gallagher.

Em nota oficial divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé refere-se que o encontro “segue a tradição das audiências concedidas pelos pontífices aos secretários-gerais das Nações Unidas” e acontece por ocasião do 75.º aniversário da ONU.

As conversas destacaram a “consideração da Santa Sé pelo compromisso das Nações Unidas em favor da paz mundial”, abordando ainda “situações de conflito, instabilidade social e graves emergências humanas”.

Segundo o Vaticano, em cima da mesa estiveram “o processo de implementação os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e a crise do multilateralismo”, que tem como consequência “a dificuldade de gerir alguns dos problemas atuais, como a migração e o tráfico de pessoas, as mudanças climáticas e o desarmamento”.

Guterres recorreu à sua conta na rede social Twitter para saudar o papel do Papa como “mensageiro de esperança e dignidade”, na “proteção do planeta”, dos direitos humanos, dos refugiados e migrantes, “construindo pontes entre comunidades”.

“Precisamos da sua voz moral, mais do que nunca”, escreveu.

O responsável português tinha adiantado, no início da semana, a preocupação comum com o tema da liberdade religiosa, alertando para “o aumento da intolerância”.

“Os ataques mortais contra as mesquitas na Nova Zelândia, as sinagogas nos Estados Unidos e as igrejas no Sri Lanka na Páscoa demonstram a urgência de agir para que todos, independente da sua fé religiosa, possam desfrutar plenamente seus próprios direitos humanos. A diversidade é uma riqueza, não uma ameaça”, referiu Guterres, em entrevista ao portal de notícias do Vaticano.

O secretário-geral das Nações Unidas elogiou o papel do Papa na defesa da paz e das causas ambientais, mostrando a sua “admiração” pelo pontífice.

“É uma voz forte sobre a crise climática, sobre a pobreza e sobre a desigualdade, sobre o multilateralismo, sobre a proteção dos refugiados e migrantes, o desarmamento e sobre muitas outras questões importantes”, sustentou.

Foto: Lusa/EPA

Para António Guterres, a figura do Papa é uma referência no trabalho da ONU pelo “desenvolvimento sustentável, a luta pelas mudanças climáticas e a promoção de uma nova cultura de paz”.

O responsável português mostrou-se ainda “desiludido” com os resultados da COP25 – Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorreu em Madrid.

“A comunidade internacional perdeu uma importante ocasião para afirmar uma ambição mais decidida sobre a mitigação, a adaptação e o financiamento para lutar contra a crise climática”, observou.

Apontando ao 75.º aniversário da ONU, em 2020, o secretário-geral admite a necessidade de mudanças e, em particular, diz que cabe aos Estados membros determinar “o modo como será reformulado o Conselho de Segurança”.

OC

Notícia atualizada às 14h55

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