Francisco destaca necessidade de mudar «ideia de santidade», associando-a a gestos de «amor diário»

Cidade do Vaticano, 15 mai (Ecclesia) – O Papa proclamou hoje como santos o francês Carlos de Foucauld, dois mártires e sete fundadores e fundadoras de Institutos de Vida Consagrada, numa Missa que marcou o regresso destas celebrações ao Vaticano, após as restrições da pandemia.

Na sua homilia, Francisco destacou que “a santidade não se faz de alguns gestos heroicos, mas de muito amor diário”.

“Às vezes, insistindo muito sobre o nosso esforço para praticar boas obras, criamos um ideal de santidade demasiado fundado em nós mesmos, no heroísmo pessoal, na capacidade de renúncia, nos sacrifícios feitos para se conquistar um prémio”, advertiu.

Deste modo fizemos da santidade uma meta inacessível, separamo-la da vida de todos os dias, em vez de a procurar e abraçar na existência quotidiana, no pó da estrada, nas aflições da vida concreta e – como dizia Santa Teresa de Ávila às suas irmãs – «entre as panelas da cozinha»”.

O Papa afirmou aos presentes que “ser discípulo de Jesus e caminhar pela via da santidade é, antes de mais nada, deixar-se transfigurar pela força do amor de Deus”.

“Enquanto o mundo quer muitas vezes convencer-nos de que só temos valor se produzirmos resultados, o Evangelho lembra-nos a verdade da vida: somos amados. Este é o nosso valor”, apontou.

Francisco afirmou que a vida cristã é “simples” e passa por “servir e dar a vida”.

“Servir, isto é, não colocar os próprios interesses em primeiro lugar; desintoxicar-se dos venenos da ganância e da preeminência; combater o cancro da indiferença e o caruncho da autorreferencialidade, partilhar os carismas e os dons que Deus nos concedeu”, precisou.

O Papa sublinhou que dar a vida é mais do que “oferecer aos outros qualquer coisa”, afirmando a importância de “olhar e tocar” a pessoa que se ajuda.

A homilia citou a exortação ‘Gaudete et Exsultate’ (Alegrai-vos e exultai), sobre a santidade, para deixar conselhos concretos aos católicos, nas suas várias situações de vida.

“És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos, lutando pela justiça dos teus companheiros, para que não fiquem sem trabalho e tenham sempre o salário justo”, recomendou o pontífice.

Francisco evocou os novos santos, que viveram “com entusiasmo a sua vocação – de sacerdote, de consagrada, de leigo” e se “gastaram pelo Evangelho, descobrindo uma alegria sem par” que fez de todos “reflexos luminosos do Senhor na história”.

“Tentemos fazê-lo também nós, porque cada um de nós é chamado à santidade, a uma santidade única e irrepetível. A santidade é sempre original”, concluiu.

Os novos santos, seis homens e quatro mulheres, são naturais da Itália, França, Índia e Países Baixos; Ana Maria Rubatto, a irmã Maria Francisca de Jesus, que faleceu no Uruguai, é considerada como a primeira santa deste país latino-americano.

O prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Marcello Semeraro, acompanhado pelos postuladores das sete causas, pediu no início da celebração que os beatos fossem inscritos “no álbum dos santos”.

“Em honra da Santíssima Trindade, para exaltação da fé católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e a nossa, após ter longamente refletido, invocado várias vezes o auxílio divino e escutado o parecer dos nossos irmãos no episcopado, declaramos e definimos como Santos os beatos Tito Brandsma, Lázaro dito ‘Devasahayam’, César de Bus, Luís Maria Palazzolo, Justino Maria Russolillo, Carlos de Foucauld, Maria Rivier, Maria Francisca de Jesus Rubatto, Maria de Jesus Santocanale e Maria Domingas Mantovani; inscrevemo-los no Álbum dos Santos e estabelecemos que em toda a Igreja eles sejam devotamente honrados entre os Santos”, refere a fórmula de canonização, em latim, proferida pelo Papa, sentado, como sinal da sua autoridade pontifícia.

Depois da proclamação de canonização, assinalada pela multidão com uma salva de palmas, o cardeal Semeraro agradeceu ao Papa Francisco, concluindo o rito.

Dezenas de milhares de pessoas, com bandeiras dos países dos novos santos, participam na Missa.

Com esta celebração, o número de santos proclamados no atual pontificado, iniciado em 2013, ultrapassa os 900, incluindo várias figuras ligadas a Portugal: Francisco e Jacinta Marto, pastorinhos de Fátima, canonizados a 13 de maio de 2017 na Cova da Iria; D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), arcebispo de Braga, por canonização equipolente (dispensando o milagre requerido após a beatificação); o sacerdote português Ambrósio Francisco Ferro, morto no Brasil a 3 de outubro de 1645 durante perseguições anticatólicas, por tropas holandesas; o padre José Vaz, nascido em Goa, então território português, a 21 de abril de 1651, que foi declarado santo no Sri Lanka; e José de Anchieta(1534-1597), religioso espanhol que passou por Portugal e se empenhou na evangelização do Brasil.

OC

A canonização é a confirmação, por parte da Igreja Católica, que um fiel católico é digno de culto público universal (os beatos têm culto local) e de ser apresentado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade.

Nos primeiros séculos, o reconhecimento da santidade acontecia em âmbito local, a partir da fama popular, com a aprovação dos bispos.

Ao longo do tempo e sobretudo no Ocidente, começou a ser solicitada a intervenção do Papa a fim de conferir um maior grau de autoridade às canonizações dos santos.

A primeira intervenção papal deste tipo foi de João XV em 993, que declarou santo o bispo Udalrico de Augusta, falecido vinte anos antes.

As canonizações tornaram-se exclusividade do pontífice por decisão de Gregório IX em 1234.

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