Começo esta memória por um quase caso de atentado de que fui alvo quando residia na Rua da Bela Vista, em Lisboa, nos anos oitenta.

A proximidade de uma escola primária mantinha na rua muitos miúdos que um dia descobriram que eu era um dos autores do programa “70 x 7”. E não foram simpáticas as palavras que ouvi então: “Este, das barbas, é um dos que nos tiram os desenhos animados para por lá aquelas coisas das missas…” E mais prometeram um apedrejamento se a situação não mudasse! Tratou-se, é evidente, de um conflito infantil, sem consequências, a incomodar, por razões óbvias, um universo especial.

Apraz-me registar oportunamente o cuidado da RTP em colocar no primeiro canal, o programa num horário favorável para as famílias que se reuniam para o almoço. Não esqueço aquele funcionário bancário que um dia me disse que se fartava de me convidar através do écran para me sentar à mesa com eles e que nunca lhes dei esse prazer…

Afectos à parte, o programa tinha na sua génese, a inquietação dos dias da história que vivíamos, do quotidiano por onde pulsava a vida das gentes, que é como quem diz da Igreja e mais do Evangelho que era a sua verdadeira chancela. Nada nos era estranho mesmo que surpreendêssemos os mais pusilânimes.

O país, ainda atordoado pela revolução, tinha reconquistado a liberdade e um lugar com mais sol no jardim. A Igreja pouco afeita à vertigem da velocidade, tropeçava por vezes nos passos excessivamente medidos. O programa assumia o risco de tocar algumas vezes o intangível, e por isso eclesialmente incorrecto. Mas também tenho atravessada aquela reportagem, jamais realizada, com os únicos padres operários portugueses… Era o andar que fazia caminho, em expresso na “cabeça” do programa que deixou preocupações de carácter ideológico no pensamento de alguns. É verdade que eram muitos os espectadores que sociologicamente não pertenciam ao rebanho. Mas esses eram os nossos predilectos. Nós não estávamos no púlpito nem no templo. Nós vestíamos mangas curtas ou camisolas enroladas e falávamos no la-meiro, da terra queimada, do azedume do trabalho, da tragédia da fome, das perturbações do silêncio. Competíamos com a linguagem da caixa que mudou o mundo. E fomos, porventura, mais longe, ao introduzirmos, no meio “sacral” da TV as altas referências simbólicas do cristianismo.

O mais representativo feed-back dos 400 programas que fiz durante a década de oitenta em que estive na realização do “70 x 7”, foi a imprensa, sobretudo a laica, que mais reflectiu no que acontecia de novo no programa. Mário Castrim, o indefectível crítico do Diário de Lisboa, não deixava de se referir às surpresas que chegavam via Igreja Católica…

A longevidade do programa deve-se, diga-se em abono da verdade, à tenacidade de uma equipa que se desmultiplicou em esforços e em alguns casos para além do que é consentido à força humana. Apesar da generosa operacionalidade da equipa, por vezes à procura (como os realizadores) do melhor momento criativo, foram muitas as noites e os dias contados, de norte a sul do país, incluindo todas as ilhas, que ensoparam a camisola que, com profissionalismo, tínhamos todos vestido. E aqui o vil metal estava longe de pagar o que jamais teve preço – a criatividade.

O advento das televisões privadas e sobretudo esse pecado mortal da televisão da Igreja, veio perturbar o percurso do programa, entretanto a competir com outros tempos de informação e comunicação religiosa. A colocação sem piedade, no segundo canal, (impossibilitando a sua chegada ao universo da emigração portuguesa) foi outra machadada nas ambições do programa, então nas mãos generosas quase exclusivas de leigos. Seria, porventura, necessário um maior arsenal de artilharia para o combate dos satélites…

Hoje, entregue a dinâmicas religiosas, aparentemente mais preocupadas com o lucro financeiro que o serviço às comunidades e pessoas que se interessam pelo transcendente, o programa corre o risco de não acender nenhuma lareira, salvaguardado o profissionalismo dos jornalistas que, semanalmente, o põem ainda no ar, nesse lugar de degredo (09,30) que é a hora do sono dos espectadores, sobretudo dos meios urbanos. Se a hierarquia não me mereceu qualquer referência neste texto é porque pecou por omissão. Se é verdade que não impediu a liberdade – esse valor cada vez mais em causa nos dias que correm – não amou de coração o lugar mais decisivo para as tarefas da humanização.

Manuel Vilas-Boas, Ex-realizador do “70×7”

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