O programa 70×7, em 25 anos, completou mais de 1250 emissões. Eu tive o privilégio de ser colaborador desde as primeiras emissões e a responsabilidade de ser coordenador geral do programa, durante mais de dez anos, entre Setembro de 1992 e Maio de 2003.

Enquanto trabalhei no 70×7, nunca faltaram temas para abordar. O problema esteve sempre na escolha e no ângulo de abordagem. Uma das preocupações essenciais era divulgar as “boas práticas” dos movimentos e das comunidades cristãs e promover o diálogo da Igreja com o mundo contemporâneo. A Igreja acolhe movimentos conservadores e progressistas. O programa não excluiu ninguém, mas deu uma atenção especial aos cristãos que se empenham, com todos os homens de boa vontade, na construção de um mundo mais justo e solidário.

Olhando para trás, verifico que muitos programas, talvez a maioria, são reportagens feitas junto de instituições (Misericórdias, Caritas diocesanas, centros sociais e paroquiais ou congregações religiosas) comprometidas no apoio aos mais pobres e marginalizados: crianças abandonadas, mães solteiras, prostitutas, deficientes, presos, pessoas sem abrigo, doentes de sida, alcoólicos, toxicodepen-dentes, imigrantes e desempregados. Todos os que trabalharam no 70×7, puderam testemunhar a solidariedade sem limites de muitas pessoas que, em nome da sua fé, dão a vida pelos mais fracos.

O programa promove o conhecimento do cristianismo como fonte da nossa identidade cultural. Sem perder a sua marca, 70×7 sempre foi um espaço para o diálogo com o mundo contemporâneo, o mundo da política, da educação, da saúde, da cultura, da ciência e da arte. Neste sentido, ouviu crentes e não crentes e mostrou a importância do religioso na obra de alguns escritores: Antero de Quental, José Régio, Miguel Torga, Sebastião da Gama, Almada Negreiros, Vitorino Nemé-sio, Rui Cinatti e Sofia de Mello Breyner, entre outros. Nunca fugimos à discussão dos problemas e desafios da actualidade, à luz dos valores cristãos. Abordámos, sem complexos, o aborto, o planeamento familiar, a educação sexual nas escolas, a eutanásia… Não houve temas interditos, mesmo quando tocavam em assuntos mais delicados como, por exemplo, o celibato dos padres, a ordenação de homens casados, o papel da mulher na Igreja ou a religião e a guerra. O facto de haver católicos com perspectivas diferentes sobre alguns destes temas não nos inibiu de os tratar. 70×7 é um programa católico, mas não é sectário.

Desde o primeiro ano de emissões, deu atenção ao diálogo ecuménico e inter-religioso. O diálogo aberto e construtivo com cristãos, judeus e muçulmanos continuou depois do aparecimento do programa “Caminhos”, o primeiro programa televisivo para as outras confissões religiosas. Não se conhece com rigor o perfil dos espectadores de 70×7. Mas recebemos reacções de católicos pouco praticantes e até de não crentes que se interessam pelo fenómeno religioso, abordado com abertura de espírito. As reacções deram-nos força para continuar. Estão de parabéns todos aqueles que construíram o 70×7, a começar pelo Pe António Rego e pelo Manuel Villas-Boas.

Este projecto tem merecido o aplauso de alguns meios de comunicação social, foi objecto de uma tese de mestrado e já ganhou prémios internacionais. Ao celebrar os 25 anos do 70×7, atrevo-me a pedir a alguns responsáveis da Igreja que se interessem mais por este programa histórico, que faz parte do nosso património cultural. À RTP sugiro que volte a oferecer ao público, através do canal “Memória”, algumas emissões do programa mais antigo da televisão em Portugal.

António Estanqueiro Ex-Coordenador Geral de 70×7

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