Ucrânia: «A intensidade da guerra continua a crescer», afirma embaixador da Santa Sé em Kiev

D. Visvaldas Kulbokas alerta para o número crescente das forças russas em solo ucraniano: «aumentaram aproximadamente quatro vezes»

Foto Serviço de Imprensa da 65ª Brigada Mecanizada do Exército da Ucrânia/EPA/Lusa

Kiev, 24 fev 2026 (Ecclesia) – O núncio apostólico na Ucrânia destacou hoje “exemplos de resiliência” na situação dramática dos quatro anos de guerra no país, alertando que “a intensidade guerra continua a crescer”, e pede “oração, presença humanitária, solidariedade e proximidade sincera”.

“Quatro anos de uma guerra de tamanha escala é muito tempo, e a intensidade da guerra continua a crescer. Também examinei as estatísticas: as forças militares russas em solo ucraniano aumentaram aproximadamente quatro vezes. Os ataques com mísseis e drones triplicaram ou quadruplicaram nos últimos anos. Relatórios das Nações Unidas e de outras organizações especificam que o número de vítimas civis também está aumentando”, disse D. Visvaldas Kulbokas, ao portal de notícias do Vaticano.

Na entrevista publicada esta terça-feira, 24 de fevereiro, quando se assinalam quatro anos da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, o representante do Papa, arcebispo lituano, fala na “dificuldade”, inclusivamente a sua, em compreender como vão “sair desta violência que só dá a impressão de crescer e se intensificar”, quando a Rússia é membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), “e tem a responsabilidade de promover a paz e a justiça”.

D. Visvaldas Kulbokas partilhou uma conversa recente com um médico que recordou que no início da guerra, em 2022/2023, conseguiam “montar postos de primeiros socorros em porões e nos andares inferiores de casas e edifícios”, mas, agora, “todos os prédios estão sob ataque”, “são obrigados a cavar cerca de cinco ou seis metros”, já um responsável da Cruz Vermelha Internacional relatou que “foram obrigados a reduzir significativamente a distribuição” da ajuda humanitária perto da linha de frente, porque são todos “atingidos indistintamente”.

O núncio apostólico da Santa Sé na Ucrânia acredita que a maior ajuda que a Igreja pode oferecer ao povo ucraniano “é, sobretudo, espiritual”, a manter um olhar “cheio de esperança”: “Quanto mais a esperança é transmitida pela oração, pela proximidade, pelo aconselhamento, pela presença, isso é muito importante, mais ela se torna um dom.”

“Trata-se de carregar uma esperança cultivada no coração”, acrescentou D. Visvaldas Kulbokas, em declarações ao portal ‘Vatican News’, encorajando “todos a apoiar a Ucrânia, especialmente no sentido espiritual”, que significa também “presença humanitária, solidariedade e proximidade sincera”.

O arcebispo-mor de Kiev, D. Sviatoslav Shevchuk, afirma que “este é um aniversário trágico” de algo que “nunca deveria ter começado e que deve acabar”, salientando que “ninguém imaginaria” uma guerra na Europa com quatro anos de duração, “apenas invasão russa em grande escala”, porque “a guerra começou em 2014 com a ocupação da Crimeia e de parte do Donbass oriental”.

“Estamos diante de uma verdadeira tragédia que, nos últimos meses, está se agravando mais. O número de civis mortos e feridos continua aumentando; este inverno, particularmente na capital ucraniana; enfrentamos outra forma de genocídio, ligada ao frio do inverno, a temperatura em Kiev caiu para 20 graus abaixo de zero”, desenvolveu o líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana,

D. Sviatoslav Shevchuk explica que os russos estão a destruir “metodicamente as infraestruturas vitais das cidades ucranianas”, “muitas centrais construídas na era soviética”, e os ucranianos montam ‘Centros de Resiliência’, “tendas aquecidas com geradores”, para as pessoas recarregarem os dispositivos, beberem “um chá quente, ficar juntas e aquecer”, em frente aos grandes edifícios e no seu interior, como “no abrigo semi-subterrâneo” da catedral.

Somos todos o mesmo povo e sofremos juntos. Sou cidadão de Kiev e o frio não pergunta: “Você é padre ou bispo?” ou “A que Igreja você pertence? Como você reza a Deus?” Diante desta tragédia, somos todos iguais, tentamos permanecer unidos, ajudar-nos uns aos outros e também encontrar um sentido cristão.”

O líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana afirma que, em quatro anos de guerra, “não há nenhuma família na Ucrânia que não tenha vivido a dor ou o luto” pela perda de um irmão, uma irmã, um pai ou um filho, mortos ou feridos, e lamenta que quanto mais se fala de acordos de paz, “mais sangue corre na terra ucraniana”.

CB/PR

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