Tragédia do Ruanda pode repetir-se… no Uganda

Apelos do Papa devem sacudir a apatia da comunidade internacional João Paulo II ganhou honras de “telejornal” no passado Domingo, quando apelou à comunidade internacional para levar a paz à região dos Grandes Lagos, em África, a fim de que “a tragédia do Ruanda não volte a repetir- se”. “Dez anos passaram desde que no Ruanda estalaram, a 7 de Abril de 1994, confrontos entre hutus e tutsis que conduziram ao genocídio em que centenas de milhares de pessoas foram mortas de maneira bárbara”, recordou o Papa. Em apenas três meses, oitocentas mil pessoas foram massacradas e três milhões de cidadãos tiveram de fugir do país. A intervenção do Papa concluiu-se de uma maneira simbólica: “rezemos ao Senhor para que uma semelhante tragédia não se repita jamais”. A Igreja Católica que vive e trabalha na África está convencida, porém, de que algo de parecido está a caminho, no Uganda. “Se a comunidade internacional não intervier no norte do Uganda, vai consumar-se um genocídio como o do Ruanda, há 10 anos; os assassinatos já começaram há muito e a situação piora a cada dia que passa”, relata o bispo católico de Gulu, D. John Baptist Odama. A primeira denúncia desta situação, na Agência ECCLESIA, remonta ao Colóquio “A África e a União Europeia: Parceiros na solidariedade”, que decorreu em Lisboa de 27 a 29 de Fevereiro de 2003. Desde essa altura, que marcou o final de um período de relativa tranquilidade, as tropas governamentais intensificaram a perseguição à guerrilha do “Exército de Libertação do Senhor” (LRA), guiados por Joseph Kony e apoiados pelo Sudão. Em resposta, os rebeldes do LRA retomaram os saques, os massacres e o rapto de crianças, alistadas para o combate. Os guerrilehiros atacam as populações Acholi, Teso, Kuman e Lango, no distrito setentrional de Lira. A guerra no Uganda causou pelo menos 20.000 vítimas civis, outras tantas crianças sequestradas e perto de um milhão de pessoas deslocadas no Norte, o que representa 2/3 da população local. A mediação das Igrejas cristãs tem conhecido vários obstáculos, inclusive por parte do Governo de Kampala. As informações dos missionários no local vão no sentido de que a manutenção do conflito serve os interesses do actual presidente, Yoweri Museveni. A tentativa de apropriação do petróleo sudanês e das riquezas do Congo estão na origem destas acusações.

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