Homilia do cardeal D. José Tolentino de Mendonça na Solenidade do Natal

 Queridos irmãs e irmãos,

“O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. E nós vimos a sua glória”. Com palavras como estas, as leituras deste dia de Natal insistem admiravelmente na dimensão da visualidade. É verdade que se no prólogo do Evangelho de João ainda nos é recordado que “a Deus, nunca ninguém O viu”, imediatamente essa afirmação é reconfigurada, é reinterpretada porque se diz que “o Filho Unigénito” nos deu a conhecer o Pai. No mistério da Encarnação dá-se, de facto, esta espantosa reviravolta: nós vemos o próprio Deus, o Deus intangível pode-se tocar, o Deus invisível pode-se ver, o Deus transcendente torna-se próximo, vizinho da nossa vida. O motivo da alegria é portanto este: nós vimos! “O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. E nós vimos a sua glória”. Já o havia pré-anunciado o profeta Isaías que nesta liturgia também recordamos: “Eis o grito das tuas sentinelas que levantam a voz. Todas juntas soltam brados de alegria, porque veem com os próprios olhos o Senhor que volta para Sião”.

Na Carta que escreveu aos cristãos, neste Advento, a propósito do valor do presépio, o Santo Padre recordou-nos o desejo de São Francisco de representar o Natal, não apenas com palavras e símbolos, com ornamentos e conceitos teológicos, mas com pessoas vivas. E por uma razão que Francisco de Assis explicava assim: “Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo”. Foi a partir deste desejo de “ver” que na cidade de Gréccio, se deu início à tradição de construir o Presépio. O presépio oferece plasticamente aos nossos olhos do corpo a possibilidade de ver, mesmo se sabemos que não é suficiente que Jesus nasça fora de nós, numa visão apenas exterior. Sobre isso, o místico Angelus Silesius cunhou este desassombrado dístico: “Se mil vezes nascesse Cristo em Belém, mas não em ti, não aconteceria Natal”.

 

Queridos irmãs e irmãos, o Natal fica incompleto se cada um de nós não puder ver com os seus próprios olhos e não puder tocar o mistério de Deus. O Natal é a anti abstração. O Natal possui a concreta objetividade de um acontecimento que se dá diante de nós e em nós. Cada um com as perguntas que traz, com as experiências que transporta, com a situação real que vive é chamado a ver Deus. A ver Deus naquele Menino de carne e osso, naquela criança, naquele Filho que nos foi dado. Ao mesmo tempo, que somos igualmente chamados a nos deixarmos ver por Ele. A esse propósito escreveu Santo John Henry Newman: “Quem quer que tu sejas, Deus olha-te de um modo único e particular; Ele chama-te pelo nome; Ele te vê e compreende porque é Ele que te criou. Ele conhece tudo aquilo que existe em ti, cada uma das tuas emoções e dos teus pensamentos, a tua força e a tua fraqueza”. Jesus não vem apenas ao encontro da Humanidade, vem ao encontro de mim, de ti, de cada um de nós. E o verdadeiro ver aplicado a Jesus implica a compreensão profunda de quanto somos vistos, quer dizer, de quanto somos olhados, amados e conhecidos. Como mais tarde, Jesus viu Pedro e os discípulos à beira do lago, como viu a mulher hemorroíssa no meio da multidão ou Zaqueu no cimo do sicómoro, assim Ele nos vê, porque o Filho do Homem vem para nos procurar e salvar.

O acento na dimensão da visualidade que os textos bíblicos hoje apresentam é então absolutamente certeira. E porquê? Porque “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós”. O centro e o nó, o eixo e o fulcro do cristianismo é esta realidade da encarnação de Deus. Deus faz-Se Homem em Jesus, humano até à medula e ao fundo, não separado do mundo, mas in carnem, in corpus, incorporado neste mundo. A eternidade torna-se assim tempo. O espiritual torna-se uma expressão comprometida com o mundo, com a vida tal como nós a conhecemos. A nossa existência torna-se a tenda de Deus.

Perguntemo-nos que desafios nos lança a encarnação de Jesus. A nós cristãos, que hoje celebramos o nascimento de Jesus segundo a carne, que desafios concretos nos faz a encarnação do Senhor? Muito brevemente gostaria de elencar quatro, que são quatro pistas para o nosso caminho interior e eclesial, e representam outras tantas portas de ingresso numa visão comprometida do Presépio.

  • Primeiro: temos de sentir que a encarnação do Filho de Deus representa um sim oferecido à nossa humanidade. Deus ama-nos com um amor incondicional. E não ama uma idealização, mas a vida de cada pessoa tal qual ela se apresenta. Num natal como este que estamos a celebrar, o grande teólogo Dietrich Bonhoeffer escreveu: “Deus faz-se homem por amor aos homens. Não procura o mais perfeito dos homens para habitar nele, mas assume a natureza humana assim como ela é. Jesus Cristo não é uma humanidade excelsa transfigurada, mas o “sim” de Deus ao homem real; não o “sim” neutro que dá um juiz, mas o “sim” misericordioso do companheiro de sofrimento. Neste “sim” está contida a vida inteira e a esperança do mundo”. Sintamos no Natal o sim de Deus. Podemos confiar neste amor. Muitas vezes pensamos que a fé é apenas o movimento do coração em relação a Deus e esquecemo-nos que a fé mais importante é aquela que Deus tem por nós. Deus tem fé, tem confiança na mulher ou no homem que nós somos.

 

  • Somos em segundo lugar chamados a descobrir que em Jesus começa um tempo qualitativamente novo, ao qual não podemos permanecer estranhos. Antes de Jesus, Deus já principiara a obra da Sua revelação. Exatamente como escutamos hoje na Carta aos Hebreus: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas”. Mas também ali se diz: “Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho”. Com a encarnação do Verbo de Deus entramos num tempo novo, e que pede de nós uma nova medida, uma nova compreensão do que é o sentido da vida. O Natal não pode ser, por isso, a perpetuação do velho mundo e das suas lógicas. O Natal implica, sim, a emergência do novo: pede-nos uma renovada audácia de ser. Esta novidade que Jesus representa traduz-se em percursos de esperança em vez do desalento; percursos de audácia desmentindo o conformismo; percursos de integração ultrapassando a lógica do individualismo; percursos de investimento no humano contrariando o fatalismo dos que pensam que nada se pode fazer. Na verdade, Jesus vem dizer que se pode sempre fazer alguma coisa.
  • Em terceiro lugar, o Natal propõe um paradigma para entender a vida. Frequentemente caímos na tentação de julgar que nascemos apenas uma vez, que o nascer foi um ato pontual e único que ocorreu na nossa vida e que agora a única coisa que temos por certa é a nossa morte. Ora o Natal mostra que isso não é verdade. A vida pode ser muitas vezes, e todas as vezes que forem necessárias, um parto. O poeta e.e.cummings dizia com razão que “nunca nascemos o suficiente”. Nós ainda não nascemos o suficiente. O nascimento de Jesus, Mestre da arte de nascer, potencia assim todos os nossos nascimentos, sobretudo aqueles que nos parecem mais difíceis para não dizer impossíveis de acontecer. O evangelista São João diz-nos hoje: “A todos os que acreditam em Jesus Ele deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” E é isto, queridos irmãs e irmãos, o mistério do Natal. A possibilidade que Deus dá a mulheres e homens frágeis, imperfeitos e inacabados como nós, a possibilidade, em Jesus, de nos tornarmos filhos de Deus. A possibilidade efetiva de vivermos uma vida divina, de vivermos uma vida que não é só a expressão da nossa carne e do nosso sangue, não é só o nosso bem ou o nosso mal, não é só isto que somos e trazemos e repetimos. Agora é-nos concedida a faculdade de nos tornarmos filhos de Deus. Está, desta forma declarada a possibilidade de renascermos.

 

  • Por fim: se a humanidade se torna a narração de Deus então a responsabilidade pela humanidade dos nossos irmãos cresce. E o quarto desafio é precisamente a compreensão de que o Natal de Jesus nos compromete na construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna, com menos desigualdade, menos indiferença e menos solidão. Contra o descarte que mata, o Natal inicia-nos na arte da inclusão. Contra o esbanjamento egoísta, o Natal pede-nos sobriedade e partilha. Contra aquilo que o Papa Francisco chama “o terrorismo da indiferença” o Natal pede-nos a clareza de uma cultura do encontro. Nós que contemplamos o presépio, nós que vimos a Sua glória temos de sair ao encontro da humanidade que sofre. A humanidade dos nossos semelhantes é o lugar onde podemos encontrar a Deus.

 

Que Maria, a Mãe do Presépio, seja a nossa mestra na disponibilidade para acolher com realismo e compromisso a encarnação de Jesus.

 

Sé do Funchal, 25 de dezembro de 2019

Cardeal D. José Tolentino de Mendonça

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