Frei Hermínio Araújo, OFM

Esta reflexão está centrada em três palavras: Dom, Fraternidade e Amizade. E tem duas partes: a primeira é mais geral; a segunda é sobre o trabalho. É baseada essencialmente nos Escritos de São Francisco de Assis (1182-1226).

1. O irmão é um dom

O Papa Francisco está a convidar os jovens do mundo inteiro para pensar a economia a partir de São Francisco, um jovem do século XIII com muito para dizer aos que vivem no século XXI. Claro que o Santo de Assis não elaborou um modelo económico, mas encontramos nos seus textos muitas orientações para o caminho que temos pela frente. O seu Testamento espiritual (n. 14) é um deles: «Depois que o Senhor me deu o cuidado dos irmãos, ninguém me ensinava o que devia fazer; mas o mesmo Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do santo Evangelho». O irmão é um dom colocado por Deus ao meu cuidado: que belo ponto de partida para repensar a economia! Este princípio orientador esteve na base da elaboração das duas grandes encíclicas deste pontificado: a Laudato si’ sobre o cuidado de todos os irmãos habitantes da mesma Casa e a Fratelli tutti sobre a fraternidade e a amizade social dos humanos. Para São Francisco, não há fraternidade abstrata, há irmãos concretos que Deus nos dá. Com eles vivemos, com respeito e estima. A propósito, o Papa Francisco oferece ao seu leitor uma breve teologia da amabilidade, na Fratelli tutti, n. 224, com as palavras: «com licença», «desculpe», «obrigado». São palavras que ele já usou noutros contextos, mas aqui têm um significado muito especial. Que bela inspiração para as nossas empresas! Tudo isto é tão importante para São Francisco. Basta a leitura do que nos escreve na Regra não bulada, 7, 15: «Os irmãos, onde quer que estejam ou em qualquer lugar em que se encontrem, devem mostrar respeito e estima uns pelos outros». A economia de Francisco está resumida nesta expressão: «É dando que se recebe!» Tudo tão diferente da lógica: «É recebendo que se dá!». E que se dá de uma forma injusta, por isso, mortal!

2. O trabalho é um dom

Já todos percebemos que, para São Francisco, tudo é muito prático e concreto. O mesmo se pode dizer em relação à forma como ele nos apresenta a sua visão do trabalho. São dois os textos principais. O primeiro, da Regra bulada 5, 1-2: «Os irmãos a quem o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente, de maneira que afugentem a ociosidade». O segundo: «Eu trabalhava com minhas mãos e quero ainda trabalhar; e firmemente quero que todos os irmãos trabalhem em ofício honesto. E os que não sabem, aprendam; não pela cobiça de receber o preço do trabalho, mas para dar bom exemplo e para repelir a ociosidade.» (Testamento espiritual 20-21). Para São Francisco de Assis, tudo é dom, tudo é graça; por isso, também o trabalho. E porque é graça, o que está em causa não é apenas “o preço do trabalho”, mas a pessoa na sua globalidade e realização. Dom – Fraternidade – Amizade: são as palavras da Economia de Francisco!

 

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