Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

No passado dia 15 de março inúmeros estudantes saíram à rua para se manifestar em relação às alterações climáticas, gritando – ”Não há Planeta B”, “Não queremos Marte, queremos Terra.”, “O clima está a mudar. E nós?”, “Não podes comer dinheiro!”, “Há um humano na minha floresta e eu não sei o que fazer”, “Reciclar não chega”, “Antes do compromisso na escola temos um compromisso em ‘casa’!” – Sobretudo esta última, como pai de três filhos, não poderia estar mais de acordo, mas questiono se este fervor realmente muda o que é necessário: os comportamentos.

Quando os adolescentes deixam comida no prato, as luzes acesas, preferem irem de carro do que a pé, de elevador em vez de subir as escadas e – já agora – o que foi feito de todos os cartazes utilizados na manifestação? Como foi o trânsito influenciado pela marcha? Pois, um carro parado no trânsito – à espera que os jovens passem – polui mais do que se estiver em andamento. Será que pensaram nisso? Depois, seguramente que estes jovens foram almoçar a seguir. Vi-os com as mochilas normais e malas. Logo, onde foram almoçar? Muito provavelmente no MacDonalds mais perto. Houve ainda quem divulgasse mensagens apelando a “cantar pelo clima”, mas há qualquer coisa que não soa bem nesta melodia. É muito importante a tomada de consciência subjacente a esta manifestação, mas – sinceramente – serão manifestações como esta o caminho certo?

Origens

Toda a movimentação que assistimos no dia 15 foi inspirada na iniciativa da jovem sueca, Greta Thunberg, que tem faltado às aulas de sexta-feira para se manifestar diante do Parlamento do seu país em prol de se fazer alguma coisa pelo ambiente. Não deixa de ser curioso que se manifesta no país da União Europeia que lidera a produção de energia por fontes renováveis, superando o acordado em 2009 para 2020 de 49%, tendo atingido os 52.6% em 2014. Em junho de 2016, o parlamento Sueco assinou um acordo inter-partidário inédito para obter 100% de fornecimento de energia eléctrica via fonte renovável em 2040. Quando percebi o empenho deste país em prol de fazer alguma coisa pelas alterações climáticas, sinceramente, percebi menos ainda qual o impacte da iniciativa desta jovem.

A jovem tem inspirado o movimento em torno do clima e isso é notável, mas pouco se sabe sobre as acções concretas que promove para além de discursos de tomada de consciência que são importantes, mas não chegam. Uma notícia da CNN afirma que a jovem vive de acordo com os seus ideais não viajando de avião e optando por uma dieta vegetariana. Conheço muitas pessoas que não viajam de avião por terem medo de voar e outras que são vegetarianas, mas não porque isso tem influência sobre as alterações climáticas. Não será este fenómeno mais uma onda “viral” que um dia morre (como tantas outras), sem consequências duradoiras, e – ainda – será positivo que para isso os estudantes tenham de faltar às aulas?

Acção concreta

Dizem que Greta é uma forte candidata ao Prémio Nobel da Paz, mas o que fez ela pela Paz? Num dos encontros da CNAL em Viseu ouvi falar Carlos Palma do Uruguai sobre a iniciativa que criou a partir da sua experiência em ambiente de guerra no Médio Oriente: Living Peace (LINK;). Não merece ele, pela acção concreta – mais do que o discurso,- também, o Prémio Nobel da Paz?

Bom… o Carlos não é jovem como Greta e por isso não chama tanto à atenção. Ok. Então, porque não falar de Felix Finkbeiner que desde os 9 anos, juntamente com os seus colegas de escola, começou uma iniciativa de plantar 1 milhão de árvores sem faltar às aulas? Hoje, essa iniciativa chama-se Plant for the Planet (LINK😉 e pretende plantar um trilião de árvores. Não merece este jovem o Prémio Nobel da Paz pela acção concreta que faz em prol de um ambiente mais sustentável?

Querer chamar a atenção dos políticos é louvável, mas isso significa que se acredita em mudar os comportamentos com uma visão da acção do topo para a base e não da base para o topo. A base que somos todos nós tem muito mais força do que o topo que estão sempre sujeitos a compromissos políticos e económicos.

Podemos fazer mais do que discursos. Podemos agir com acções concretas e aderir antes a iniciativas com acções concretas. Naquela tarde, os alunos que faltaram às aulas esqueceram que o gesto fala mais alto do que o grito. Faz mais ruído uma árvore a cair do que plantar um trilião e esperar que cresçam, mas qual produz mais efeito no futuro: o grito da manifestação ou o silêncio do gesto?

10 Dicas simples para começar

Já ouvimos falar em tantas coisas que podemos fazer pelo ambiente que gostaria de sugerir 10 simples gestos.

  1. Valorizar Não deixar comida no prato.
  2. Poupar Desligar as luzes que não precisamos.
  3. Exercitar Andar mais a pé ou bicicleta.
  4. Inovar Substituir lâmpadas por umas mais económicas em termos energéticos.
  5. Partilhar Usar mais transportes colectivos.
  6. Rever Gastar apenas 2 a 5 minutos a tomar duche.
  7. Aproximar Cozinhar em casa com produtos locais.
  8. Preservar Poupar mais a roupa que se tem para evitar estar sempre a comprar nova. Sim, a indústria da moda é uma das grandes fontes de poluição planetária.
  9. Reutilizar Usar mais garrafas de vidro e sacos reutilizáveis.
  10. Aprender Ser mais curioso sobre o planeta.

O que muda o nosso comportamento não é tanto o resultado que obtemos com os nossos gestos, mas o facto de serem sinal e reflexo daquilo que nos identifica. Mais do que guardiões da criação, somos parte da família da criação. Ao grito da Terra podemos responder com silenciosos gestos concretos, mas eficazes. Talvez por aí comece a revolução que queremos ver realizada no mundo.

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